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Enzo Bearzot, o “velho” que renovou a seleção italiana e encerrou a espera de 44 anos pelo tri mundial

Em um país que costuma exaltar os estrategistas mais ferrenhos, Enzo Bearzot não se encaixava no perfil que muitos italianos imaginavam – sobretudo os da imprensa – como o treinador de sua seleção. O ex-volante de carreira sólida, mas pouco estrelada, tinha parca experiência na casamata quando passou a circular nos corredores da federação. E, ainda que houvesse feito grande campanha na Copa do Mundo de 1978, não demorou para os seus compatriotas se prenderem ao mau momento e pedirem a sua cabeça. Bearzot atravessou metade do Mundial de 1982 sob enorme pressão. Mesmo assim, não abandonou as suas convicções. Confiou justamente no grande trunfo de seu trabalho: antes de se colocar no centro do poder, ele repartia o protagonismo entre seus jogadores. Confiava no potencial do grupo e conseguia extrair o seu melhor. Desta maneira, com ideias que se distanciavam do estrategismo rebuscado, mas que representaram uma revolução na forma de conceber os azzurri, “O Velho” deu à Itália a taça que aguardaram por 44 anos.

Não quer dizer que Bearzot ignorava a importância da tática. Pelo contrário, ele se dedicava meticulosamente a estudar os seus adversários e a adaptar o seu time às diferentes ocasiões, oferecendo variações à seleção italiana. A polivalência era uma das virtudes que procurava em seus comandados, podendo intercambiar de posição entre si. Por isso mesmo, não via os sistemas como dogmas que deveriam ser doutrinados como absolutos. Confiava no movimento livre e na qualidade técnica, aproveitando os espaços para fazer o seu jogo fluir. Assim, colocou os azzurri na direção das vanguardas do futebol mundial a partir da década de 1970, com um quê de futebol total. “Eu escolho os meus atletas e então os deixo jogar a partida, sem impor planos táticos sobre eles. Você não pode dizer a Maradona como jogar. Você precisa deixá-lo livre e se expressar. O resto é por conta dele”, dizia. E o máximo da expressão italiana sob as ordens do comandante veio justamente com o tricampeonato mundial na Espanha.

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Nascido em uma família abastada na região de Friuli, Bearzot escolheu o futebol por amor. A certeza veio aos 11 anos, em 1938, enquanto ouvia a conquista do bicampeonato mundial na praça de sua cidade. Ao notar a alegria do povo, decidiu que queria proporcionar o mesmo outras vezes. Teve uma formação educacional sólida, mas, diante da oportunidade de ingressar na universidade, preferiu disputar alguns jogos com o pequenino Pro Gorizia e perder provas importantes para a sua formação. Seu pai, gerente de um banco, ficou furioso com a decisão do adolescente. Mas depois perceberia, segundo as palavras do próprio treinador, que os estudos foram importantes para esclarecer quais eram os sonhos do filho.

Bearzot permaneceu no Pro Gorizia até os 20 anos, quando se transferiu à Internazionale. Disputou um punhado de jogos pela Serie A, antes de se mudar ao Catania. Na Sicília, sentiu a paixão pelo futebol em sua essência, ao ajudar o clube a subir à primeira divisão. Neste momento, chamou a atenção do Torino, ainda em reconstrução por Superga. Passou a vestir grená a partir de 1954 e, exceção feita a um breve retorno à Inter, seguiria por uma década em Turim. Tornou-se um símbolo do Toro, especialmente pela maneira que se impunha fisicamente no meio-campo. Dono de um porte físico privilegiado, tinha a força como uma marca de seu jogo. O nariz de pugilista, fraturado três vezes ao longo de sua carreira, servia de marca à coragem. O que não significava a deslealdade do volante, longe disso. Não à toa, portou a braçadeira de capitão. Um líder por respeito, não por autoritarismo.

Apesar da longa história no Torino, Bearzot não conquistou títulos pelo clube. E disputou apenas uma partida pela seleção, em 1955, quando teve a ingrata missão de marcar Ferenc Puskás em duelo contra a Hungria. Mesmo com a derrota, recebeu elogios por sua atuação, mas nada suficiente para permanecer vestindo a maglia azzurra. A dedicação ao Toro, aliás, extrapolou a sua carreira nos gramados. Em 1964, aos 36 anos, o meio-campista pendurou as chuteiras, mas continuou no clube. A convite de Nereo Rocco, logo começou a treinar os juniores grenás, além de servir de assistente na equipe principal. Teria o seu primeiro grande mestre, pouco antes que ele retornasse ao Milan para conquistar a Europa pela segunda vez. Bearzot também seguiria outros rumos. Em 1968, dirigiu o pequenino Prato por uma temporada, o suficiente para livrá-lo do rebaixamento na Serie C. O talento evidente, contudo, valeu o convite de Ferruccio Valcareggi para trabalhar na seleção italiana. Além de ser um dos assistentes, também comandaria o time sub-23.

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Naquele momento, Enzo Bearzot teve as suas primeiras experiências mundialistas. Esteve no banco de reservas quando a Itália foi vice-campeã em 1970 e também compartilhou o fracasso da campanha precoce em 1974, encerrada ainda na primeira fase. O assistente se projetaria na linha sucessória da seleção, mas antes seria o braço direito de Fulvio Bernardini, outro treinador histórico do Calcio, campeão nacional com Fiorentina e Bologna. O currículo do veterano, contudo, não valeu o seu sucesso na empreitada com os azzurri. A queda nas eliminatórias da Eurocopa de 1976, em um grupo cascudo contra Holanda e Polônia, valeu a demissão do comandante. A partir de 1975, Bearzot iniciou sua trajetória à frente da Nazionale.

“Para se sair bem neste ofício atípico e extremamente empírico, você pode partir de muitos ângulos diferentes. O meu é a criação do grupo. Um conceito que eu amadureci na carreira como jogador, antes de aplicar e aperfeiçoar como treinador. A minha ideia de grupo não é muito distante daquela de família, ampliada. Se você se sente inserido em um grupo, sabe que pode contar com a solidariedade dos outros a qualquer momento e que pode fazer a sua parte, tão rapidamente for exigido. Você pode estar em um grande dia e se sentir apto para ajudar, assim como você pode não estar bem, mas ter a certeza que os seus companheiros o ajudarão, que você poderá fazer mais do que pensa. E você sabe que quem te inseriu neste grupo será sempre muito atento a avaliar o seu comportamento, o seu empenho, a sua dedicação; assim como a perdoar, na presença destes requisitos, uma atuação ruim. Para mim, quando se vai treinar um time, se começa aqui. Isso precisa de muita paciência, algo que faltava a mim no começo. Eu aprendi ao trabalhar com Valcareggi, a pessoa mais paciente que eu conheci no mundo do futebol”, dizia.

Se o treinador campeão europeu em 1968 ensinou a paciência, Bearzot aproveitou de Bernardini os ideais ofensivos e o início do processo de renovação do elenco italiano. Montou uma seleção talentosa, repleta de jovens jogadores prontos a despontar. E tão importante quanto a qualidade em si era a dedicação demonstrada quando se vestia azul. Uma das bases da equipe foi a Juventus de Giovanni Trapattoni, que se firmava como uma força na Serie A. Todavia, o comandante não se furtava a realizar outras apostas. O problema disso é que, apesar da classificação à Copa de 1978 superando a Inglaterra nas Eliminatórias, em liderança garantida pelo saldo de gols, o novo time dos azzurri não empolgava em sua preparação. Faltavam resultados mais consistentes, especialmente nos amistosos.

Na Argentina, a impressão sobre a Itália de Bearzot mudou. O time cheio de novatos apresentou um estilo de jogo que se afastava do famoso Catenaccio, aliando muita movimentação e ataques rápidos. Os italianos se classificaram com três vitórias naquele que prometia ser o “grupo da morte”, vencendo inclusive os anfitriões. Já na segunda fase, caíram apenas para a Holanda, acabando com o quarto lugar após a derrota para o Brasil no último jogo. Apesar de críticas pontuais, o saldo era positivo.

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Mas não há nada que um novo ciclo de quatro anos não possa colocar em xeque. Os italianos voltaram a patinar nos amistosos e decepcionaram na Euro 1980, disputada em casa. Após uma campanha apagada na primeira fase, perderam a decisão do terceiro lugar para a Tchecoslováquia, nos pênaltis. A classificação à Copa do Mundo de 1982 veio, mas sem a primeira colocação da chave, atrás da Iugoslávia, e perdendo fôlego na reta final. Antes do início do Mundial, os azzurri tinham disputado 12 partidas desde 1981. Ganharam duas: um amistoso contra Bulgária e um jogo das Eliminatórias contra Luxemburgo – que o magro 1 a 0 no placar não referendava. O apelido de “Velho” dado a Bearzot soava muito mais pejorativo neste momento, especialmente pela maneira como ele insistia em seus homens de confiança que não atravessavam boa fase.

E os maiores temores dos torcedores italianos pareciam se transformar em certeza na primeira fase da Copa. Três jogos, três empates – contra Polônia, Peru e Camarões. A classificação à etapa seguinte do torneio só veio pelo número de gols marcados, um a mais que os camaroneses. Enquanto isso, a crítica escorria na tinta dos jornais italianos e ecoava nos microfones das rádios e das TV’s. Não se concentravam apenas ao desempenho em campo, mas ao próprio comportamento dos jogadores. Acusavam os atletas de se importarem apenas com a premiação, de beberem na concentração, de ficarem farreando até tarde da noite em um cassino. Chegaram mesmo a tratar como escândalo um suposto caso homossexual entre dois titulares.

A resposta de Bearzot? O silêncio. Ele e seus comandados deixaram a falar com a imprensa italiana. Uniram-se como grupo para calar as críticas e responder apenas em campo. Curiosamente, o único imune à greve era um jornalista brasileiro: Ernesto Paglia, que fazia a cobertura à TV Globo. Para demonstrar que o problema não era exatamente generalizado, mas sim com o tratamento sensacionalista dos veículos italianos, o jovem repórter era quem tinha acesso ao treinador e aos jogadores. Um sinal de confiança, enquanto o chumbo das gráficas continuava pesando contra os azzurri. “O que eles vão fazer em Barcelona?”, era o questionamento, pensando nos confrontos contra a Argentina e o Brasil, pela segunda fase.

milestone media - Morto Enzo Bearzot, allenatore della Nazionale vincitrice dei Mondiali di Spagna 1982 - Morto Enzo Bearzot, allenatore della Nazionale vincitrice dei Mondiali di Spagna 1982. Nella foto Bearzot intervistato durante i Mondiali di Spagna 1982

Mais uma vez, o grupo foi o trunfo de Bearzot. Reiterou sua crença no trabalho de seus futebolistas e se preparou para os jogos decisivos. E entre aqueles que seguiam blindados pelo treinador estava Paolo Rossi. Envolvido no escândalo do Totonero, suspenso por dois anos, de volta às vésperas do Mundial. O atacante era claramente uma aposta de risco do Velho. Um nome que não agradava a tantos, seja pela falta de ritmo, pelo baixo rendimento na fase de grupos ou pela sombra de Roberto Pruzzo, artilheiro da Roma que não viajou à Espanha. Rossi era justamente o acusado de ter um caso com Antonio Cabrini. Visto pelas costas como um pária, se transformaria em protagonista do conjunto tão forte.

O segredo da Itália foi, sem badalação, neutralizar as forças de Argentina e Brasil. Sua zona de marcação mista funcionou muito bem. Primeiro veio a vitória sobre a Albiceleste por 2 a 1, com Maradona anulado por Claudio Gentile. Depois, a tarde que marcou o Sarrià. Os italianos jogaram nas costas dos brasileiros, de maneira uniforme, explorando os espaços e atacando com velocidade. Uma partida histórica, em que Rossi anotou três gols, seus três primeiros na Copa. Contra todas as expectativas, os azzurri avançavam às semifinais. E, logo na sequência, se confirmariam na decisão com o triunfo por 2 a 0 sobre a Polônia. O Velho tinha razão, por mais que não abdicasse de seu silêncio.

Contra a Alemanha Ocidental, a Itália fez a sua melhor partida na Copa do Mundo. Um verdadeiro passeio no Santiago Bernabéu, em que o gol de Paul Breitner no apagar das luzes maquiou um pouco a real supremacia dos azzurri no confronto, com a vitória por 3 a 1. Na ocasião, aliás, Bearzot demonstrou tantas de suas virtudes. Sem poder contar com Giancarlo Antognoni, um dos jogadores mais técnicos do elenco, o treinador se adaptou à situação. Reformulou o 4-3-3 utilizado durante a maior parte da campanha. Apostou na versatilidade e no talento de suas peças. Na liderança de Dino Zoff, na leitura de jogo de Scirea, no combate de Gentile e Cabrini, na energia de Tardelli, no poder de decisão de Rossi. Na capacidade de um time dedicado, efetivo, atento e intenso. Com vontade de se provar como o melhor. Sobretudo, unido. E assim, finalmente, campeão do mundo.

A imagem de Bearzot no avião a caminho de Roma é emblemática. O Velho fuma o seu inseparável cachimbo, enquanto joga cartas com Zoff, Causio e Sandro Pertini, então presidente italiano. Posta à mesa, reluzente, a taça dourada que conquistara horas antes em Madri. Um símbolo do homem de hábitos simples, apegado ao seu grupo, que não abandonava as suas convicções.

epa02503812 (FILE) A July 1982 file photo shows former Italian head coach of Italian soccer team, Enzo Bearzot (R), while he palyes cards on the airplane with Italian President Sandro Pertini (II from R) and Italian goalkeeper Dino Zoff (L) after the victory of the 1982 Soccer World Championships. Bearzot, who led the team to the 1982 World Cup title, died on Tuesday, 21 December 2010 aged 83, the Italian football federation (FIGC) said. News reports said that Bearzot was ill for several years and died in Milan. The former Inter Milan player Bearzot was in charge of the Squadra Azzurra for a record 104 matches 1975-1986. The World Cup title 1982 in Spain, 3-1 over West Germany in the final, was his biggest success. "The memory of Enzo Bearzot can not be limited to the joy he gave us in 1982 ... Bearzot was able to convey great human and sporting values," said FIGC President Giancarlo Abete. EPA/STR ANSA

Recebido com honrarias na volta à Itália, Enzo Bearzot já não teria mais a mesma pecha de ultrapassado. Renovou o seu contrato com a federação até 1990 e resistiu à queda nas eliminatórias da Euro 1984, em campanha fraquíssima. O ponto final de sua história à frente dos azzurri aconteceu apenas em sua quinta Copa do Mundo, a terceira como técnico, em 1986. A eliminação para a França nas oitavas de final culminou em seu pedido de demissão. Era a hora da renovação. Via um futebol diferente, que não lhe apetecia como antes.

“Para mim, treinar a Itália foi uma vocação que, com o passar dos anos, se tornou uma profissão. Os valores do esporte mudaram ao longo dos anos. Diante do desenvolvimento do futebol e da chegada de patrocinadores poderosos, parece que o dinheiro mudou as traves de lugar. O perfil dos jogadores também mudou, especialmente considerando a lealdade aos clubes, que se transformaram em empresas para produzir lucros. Além do mais, o futebol agora se tornou uma ciência, ainda que nem sempre exata. Mas, para mim, segue, acima de tudo, sendo um jogo”, declarou.

A despedida da Itália após 104 jogos também culminou na aposentadoria de Bearzot. Afastou-se da vida pública, satisfeito em publicar sua coluna no jornal e em se dedicar à literatura clássica, uma antiga paixão. Voltaria à cena apenas em 2002, convidado para ser o diretor técnico da federação italiana. Permaneceu no cargo até 2005, quando a seleção era dirigida por Marcello Lippi, seu jogador nos tempos de sub-23 e que o sucederia como o técnico campeão do mundo pelos azzurri. O Velho viveu até os 83 anos, falecendo em 2010, na cidade de Milão.

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O enterro de Enzo Bearzot ainda reuniria muitos de seus comandados na seleção, prontos para prestar o último tributo. E que escancaravam, sobretudo, a identidade do trabalho ao longo das quase duas décadas em que esteve à frente da Nazionale. Sandro Mazzola – que certa feita recebeu uma camisa de seu falecido pai, Valentino, das mãos do então capitão do Torino – o recordava por sua “humanidade”. Paolo Rossi, “por representar a imagem do italiano genuíno e por ser, mais do que um treinador, um pai”. Gigi Riva, “pela confiança que transmitia a todos e os vínculos fortes que criava com seus jogadores”. Bruno Conti exaltou sua capacidade de criar um grupo, “falando com todos, mas principalmente com os que jogavam menos”. O capitão Dino Zoff destacava da “honestidade cristalina”. Já Antonio Cabrini o tratou como o “Quixote de 1982”, pela maneira como lutou sozinho por seus ideais. Uma metáfora tão digna à Espanha, onde o treinador se consagrara, e à sua paixão pela literatura. Tão condizente à sua personalidade.

Um ano depois da morte de Bearzot, em 2011, a federação criou um prêmio em seu nome para apontar o melhor treinador italiano da temporada. Algo que, três décadas antes, soaria como disparate, mas que hoje faz total sentido. Difícil encontrar um técnico mais reverenciado no país. Tratado com tanto carinho, e por isso homenageado seguidamente nos últimos dias, relembrando os 90 anos de seu nascimento, completados na última terça.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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