Itália

A melhor entrevista de Cassano: “Fui um desastre total nos primeiros 16 anos de vida”

Se há uma década Cassano era visto como uma grande promessa, há alguns anos alguém com um potencial desperdiçado e recentemente como alguém ainda capaz de ajudar as equipes que defende, hoje o atacante da Sampdoria está alcançando uma nova faceta: a de dono de entrevistas fantásticas. Tanto pelas histórias que tem a contar como pela sinceridade com que fala sobre o mundo do futebol e sobre seus próprios equívocos como jogador profissional. O papo da vez foi com o diário AS, da Espanha, e, como não poderia ser diferente, sua passagem pelo Real Madrid foi o grande tema da entrevista, que você pode conferir na íntegra, em espanhol, aqui.

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Recentemente, Cassano reconheceu que a culpa por sua carreira não ter decolado como o esperado foi sua, sem atribuir parte da responsabilidade para antigos treinadores. Ao falar do período em que defendeu a camisa do Real, sua postura não foi diferente. Chamando a si próprio de “tonto”, o italiano afirmou que lamenta não ter aproveitado a oportunidade que teve. “No campo, era o Robinho ou eu. Comecei bem, marcando gols, mas quando você vai para o Real, você pode fazer duas coisas: estar com a família, concentrado, ou ser tonto. Eu fiz a segunda coisa”, recorda-se o atacante, que, em seguida, lastima sua própria postura no clube: “Não pensei que estava no maior clube da história. Só um tonto pode ter o comportamento que tive no Real Madrid”.

Cassano lembra que, quando chegou a Madri, namorava uma garota, mas o relacionamento durou apenas mais um mês depois que assinou com o Real. A visibilidade que tinha por defender um dos maiores clubes do planeta lhe abriu possibilidades, e, ainda muito jovem, o italiano foi levado pelo momento, reconhecendo que era viciado em sexo.

Vício em sexo e comida

“Quando você tem 20 anos e gosta de garotas, tem uma força que lhe permite fazer isso todos os dias. E eu tinha a oportunidade. Eu era Cassano, o jogador do Real Madrid! Se tivesse trabalhado em qualquer outra coisa, não teria conseguido nenhuma, nem minha mãe! Eu sou bom, mas não bonito”, afirmou Cassano, que ainda disse sentir uma melhora em seu rendimento em campo depois de uma noite agitada: “No Real Madrid, não. Eu não jogava, porque estava dez quilos acima do peso, simplesmente isso. Estava com a cabeça em outras coisas. Mas na Roma acho que sim”.

Futebol, sexo e comida. Na entrevista, Cassano descreveu a combinação como “perfeita”. Uma pena para o atacante que o excesso nas duas últimas coisas acabou afetando o desenvolvimento de sua carreira, especialmente os exageros na alimentação. O italiano revelou ter chegado ao Real Madrid com 93 quilos, enquanto seu peso ideal, com 1,75m de altura, é, segundo ele, 83 quilos. “Como eu disse a um amigo, quando se come coisas boas, você engorda. Quando como massa, pão, doce, presunto, aí sou feliz. É óbvio que, se você come muito todos os dias, você é tonto. E eu era um tonto aos 20 anos. Agora não posso fazer isso.”

Apesar de ter consciência de que precisa ser mais cuidadoso com seu corpo aos 33 anos, ainda tem alguns deslizes com a alimentação. “Para você ter uma ideia, comecei esta temporada na Sampdoria com 95 quilos. Agora estou com 83 quilos, mas me custa muito perder peso. Entretanto, consigo engordar sete ou oito quilos em um mês.”

Comer era uma questão tão importante para Cassano que o jogador tinha um amigo à disposição especialmente para lhe ajudar a comer escondido no hotel em que ficava concentrado com o elenco do Real: “Tinha um amigo ali no (hotel) Mirasierra, e às dez ele mandava o que eu queria comer para o quarto. Eu lhe dava 200 ou 500 euros. Era uma pena que ele não estava conosco quando jogávamos fora de casa”.

Apesar de admitir que seu jeito lhe causou muitos problemas durante a carreira, Cassano sente-se feliz desta maneira. Entende porque fez as coisas que fez, a influência de seu passado no modo como levou sua vida como profissional, mas diz que a paternidade lhe conferiu um pouco mais de responsabilidade. “Fui um desastre total nos primeiros 16 anos da minha vida. Pode-se chamar de ser rebelde, ser louco. Então, foi impossível eu mudar isso quando comecei a ser jogador profissional. Sou feliz assim. Mas a minha personalidade me causou muitos problemas. Na Roma, no Real Madrid. Quando jovem, fazia coisas sem pensar. Venho das ruas e tenho uma personalidade muito forte. Pensava que o futebol era a rua, e não é assim. Agora sou consciente, mas quando tinha 22 ou 23 anos, imagina. Então, quando você começa a ter filhos, sua vida muda”, explicou.

Fã de Maradona, Cassano vê Messi acima do Pibe

Como todo fã de futebol, os anos da infância foram aqueles em que o esporte mais lhe fascinou, e, por ser do sul da Itália e ter crescido na época em que Maradona brilhou pelo Napoli, o argentino ainda é seu maior ídolo. Ainda assim, Cassano separa o lado lúdico de assistir a futebol quando criança da frieza de sua análise ao falar sobre quem considera o maior da história. “Agora, para mim, o futebol é só um: o camisa dez do Barcelona. E nada mais. É o primeiro e, em seguida, não há um segundo. Tem que ir para o terceiro, o quarto, e falo de toda a história.” Messi acima de Maradona? “Sim, por favor. Cinco Bolas de Ouro e 26 ou 28 títulos. Agora o futebol é mais difícil e, sobretudo, mais físico que na época do Maradona. Agora jogam contra o Messi e ‘pá, pá, pá’, o pegam. E nada muda para ele. Marca quando quer”, cravou.

Ao comentar a disputa entre o argentino e o português Cristiano Ronaldo pelo posto de melhor do mundo nos últimos anos, o italiano recorre à já clássica narrativa de treinamento x talento natural, que tantas figuras públicas usam ao falar dos dois jogadores que monopolizaram as premiações individuais nos últimos anos. “O Cristiano é como o Nadal, e o Messi, como Federer. Nadal é um fenômeno, mas quando seu físico cai, ele não consegue ganhar tudo. O Federer tem 35 anos e, com a qualidade que tem, sempre estará no topo. Agora o Cristiano está com o Messi, mas em dois ou três anos cairá de rendimento. Messi jogará (em grande nível) até os 35, 36 ou 37 anos”, avaliou.

Relação com Totti

Admirador de Totti, Cassano conta que viveu por meio ano com o Capitano quando chegou à Roma. Defender os giallorossi era um sonho para o atacante, que via a Juventus também como uma potência, mas não se imaginava defendendo os bianconeri. “Sou muito latino, e, na Juve, parecem soldados, e eu não posso com isso. São profissionais e vencem, é verdade, mas eu tenho que estar acima do peso, comer o que quero, xingar alguém.” E para um ainda jovem Cassano, nem mesmo aqueles que admirava eram perdoados. Lembrando-se da briga que teve com Totti, reconhece sua culpa e o fato de que aconteceu sem verdadeiros motivos: “É que eu tinha 19 anos e se me diziam algo… Faltei com respeito a ele e deixei de falar com ele por dois anos”.

Erros do passado à parte, Cassano parece de fato satisfeito, ou ao menos resignado, com o momento em que se encontra em sua carreira. Mesmo encaminhando-se para os últimos anos como jogador, ainda alimenta ambições, como a de vestir a camisa da seleção italiana na Eurocopa deste ano, ainda que reconheça as chances ínfimas disso acontecer. “Sonho com isso, mas acredito que tenho uma chance em um milhão. O Conte não me chamou em dois anos. A equipe funciona (sem mim). Mas este ano me sacrifiquei o quanto pude, voltei a estar em meu peso ideal.”

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Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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