Durante algum tempo, o Catar flertou com a naturalização desenfreada de jogadores estrangeiros para reforçar a sua seleção. Este processo, porém, não se reflete no elenco que disputa a Copa da Ásia em 2019. Alguns jogadores até nasceram em outros países, mas chegaram a clubes catarianos logo no início de suas carreiras profissionais. O português (de origem cabo-verdiana) Ró-Ró, o argelino Boualem Khoukhi e o francês (com raízes argelinas e marroquinas) Karim Boudiaf são exemplos disso, desembarcando na península com 20 anos ou menos. A principal fonte de talentos atual é o forte investimento do governo na formação de atletas, através da Academia Aspire – embora o projeto também se torne uma oportunidade a imigrantes ou descendentes. E o destino, irônico, fez com que um destes jovens fosse carrasco de seu país natal. O iraquiano Bassam Al-Rawi anotou o gol que deu a classificação sobre o Iraque nas oitavas de final.

O defensor de 21 anos teve seu talento aprimorado pela Academia Aspire. Deixou os recorrentes conflitos no Iraque para tentar uma carreira no futebol e, depois da formação na base, se juntou ao Al-Rayyan, um dos principais clubes catarianos. Passaria ainda por empréstimos ao Celta de Vigo B e ao Eupen B, equipes que possuem parcerias com a Aspire. Membro das seleções menores do Catar desde o sub-19, ganhou as primeiras convocações ao nível principal em 2017, quando também passou a se destacar no Al-Duhail, potência local. E, incluído no elenco da Copa da Ásia, calhou de ser o algoz dos Leões da Mesopotâmia. Assinou o gol de falta que garantiu a vitória por 1 a 0.

Al-Rawi não se conteve na comemoração. Extravasou a alegria, mesmo marcando contra o país de origem. E, por conta disso, recebeu uma enxurrada de críticas nas redes sociais. Passou a ser chamado de “traidor” por seus compatriotas, entre outros xingamentos. Contudo, o jovem não ficaria calado. Em sua conta no Twitter, justificou a sua posição e rebateu as acusações. Deixou claro qual o seu sentimento, ao optar por defender a seleção catariana e não a iraquiana.

“Ontem, eu joguei a partida mais importante de minha carreira e marquei o gol mais valioso desde que comecei a jogar. Nasci no Iraque e vim de uma família iraquiana. Sou orgulhoso de minhas origens. Comecei a jogar no Iraque e estudei em escolas iraquianas, então fui para a Academia Aspire. O projeto desenvolveu meu talento e eu acabei no Al-Duhail. O Catar me fez um grande favor e nunca me esquecerei disso”, afirmou Al-Rawi.

“Depois de marcar o gol mais importante de minha carreira, é meu direito de celebrar, como todo amor e apreço que tenho pelo público iraquiano. Sou orgulhoso das minhas raízes iraquianas, mas também sou muito orgulhoso de pertencer ao Catar, representando este amado time”, concluiu o defensor. A mensagem seguiu repercutindo, entre os que entendem a posição do jogador e os que seguem o questionando.

Além de Al-Rawi, a jovem base da seleção catariana possui outros atletas que passaram pela Academia Aspire. Entre eles está Almoez Ali, artilheiro da Copa da Ásia, que nasceu no Sudão e se mudou ainda na infância ao Catar. Abdelkarim Hassan e Hamid Ismail também são filhos de imigrantes sudaneses que se estabeleceram na península. O elenco ainda tem Ahmed Alaaeldin, de origem egípcia, e os irmãos Akram e Ali Afif, de pai descendente de iemenitas nascido na Tanzânia.