A Copa da Ásia viverá uma de suas rivalidades mais intensas nesta sexta-feira. Afinal, quando Irã e Iraque se cruzam em campo, o futebol é apenas um pretexto para evidenciar uma rixa que atravessou milênios. A disputa entre iranianos e iraquianos vêm de seus ancestrais, muito antes da construção dos Jardins Suspensos ou de Pasárgada. Sumérios, assírios, babilônios, persas e outros povos da Antiguidade escreveram a história dos povos que viveram ao redor do Tigres e do Eufrates. Diferenças que se renovaram a partir das divisões do islamismo, na Idade Média. E também na contemporaneidade, com a busca de Hussein, Khomeini e outras figuras importantes pelo poder.

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Neste contexto, o duelo pelas quartas de final da Copa da Ásia serve para decidir qual seleção avança no torneio, mas também para exaltar o orgulho de um povo sobre o outro. Como já aconteceu tantas vezes, a partida desta sexta terá o pano de fundo da política local. Embora seja aliado do atual governo iraquiano, de orientação xiita, o Irã vem patrocinando intervenções militares no país vizinho. A intenção é combater o crescimento do sunita Estado Islâmico, que também coloca em risco os interesses comerciais iranianos. O grupo extremista, inclusive, fuzilou 13 jovens iraquianos pelo “crime” de assistirem à estreia da seleção na Copa da Ásia.

Ainda que a partida não gerar novas brigas ou atentados entre os dois países, a organização da Copa da Ásia deverá se prevenir para o jogo em Canberra.  O técnico do Iraque, Radhi Shenaishil, pediu para que as duas torcidas sejam separadas nas arquibancadas. “Isso não significa que todos os torcedores estão aqui para baderna, mas podemos ter alguns desentendimentos por causa da rivalidade”, declarou o comandante. “Há muita história entre os dois times. Ambos técnicos dirão aos seus jogadores para se importar com a qualidade do jogo e esquecer as emoções que possam aflorar”.

Ao longo das últimas décadas, no entanto, os clássicos entre Irã e Iraque já atravessaram momentos bem mais tensos. O primeiro duelo aconteceu em 1962, época na qual as relações entre os países estremeciam – enquanto o Irã se aliava aos Estados Unidos, os governos à esquerda no Iraque se alinhava com a União Soviética. Até 1976, aconteceram nove jogos entre as seleções, com cinco vitórias iranianas e apenas uma iraquiana. Dois destes clássicos, inclusive, valeram pela Copa da Ásia, pavimentando o caminho dos persas aos títulos em 1972 e 1976.

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A partir de 1979, a Revolução Iraniana desencadeou a guerra entre os dois países. Enquanto Saddam Hussein mantinha os sunitas no poder no Iraque, o Irã vivia a ascensão dos xiitas liderados pelo Aiatolá Khomeini. Em 1980, os dois países entraram em conflito por causa de suas fronteiras, embora a motivação religiosa também pesasse. Após oito anos de batalhas e cerca de um milhão de mortos, os vizinhos entraram em acordo pelo armistício. O fim da guerra impulsionou a realização de um torneio amistoso no Kuait, em 1989, com a presença de sete seleções. O primeiro dérbi em 13 anos terminou com o empate por 0 a 0, e os iraquianos acabaram com a taça da competição ao vencerem Uganda na final.

Com as relações estáveis entre os países, o Iraque venceu os seus rivais na primeira fase da Copa da Ásia de 1996, em uma comemoração na qual houve até mesmo volta olímpica e pôster de Saddam Hussein no gramado. Um ano depois, porém, o Irã viveria uma de suas maiores glórias ao conquistar a classificação para a Copa do Mundo de 1998 – em um episódio que marcou também o levante das mulheres do país contra as restrições impostas pelo governo xiita. Já o troco dos persas na Copa da Ásia aconteceu em 2000, quando o lendário Ali Daei marcou o gol da vitória sobre os iraquianos na primeira fase.

Desde então, o Irã venceu nove clássicos (inclusive o único realizado em Bagdá desde 1964) e perdeu apenas um. O estouro da Guerra do Iraque, em 2003, atrapalhou a organização do futebol no país e obrigou a seleção a mandar os seus jogos quase sempre em campo neutro. Ainda assim, os iraquianos tiveram o gosto de faturar a Copa da Ásia de 2007, conquista que permitiu ao povo local bradar o seu orgulho, em meio à sangrenta intervenção americana e os atentados de grupos extremistas – mesmo que, durante a comemoração do título, a explosão de uma bomba plantada por terroristas tenha matado mais de 50 pessoas nas ruas de Bagdá.

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Nesta sexta, outra vez, o favoritismo é do Irã. Além de presente na Copa de 2014, a equipe treinada por Carlos Queiróz venceu um amistoso disputado no início do mês por 1 a 0, gol de Sardar Azmoun. E a torcida persa, presente aos milhares nos estádios australianos, também se destaca pelo impulso que dá ao seu time. A força de superação que o Iraque demonstrou em suas últimas campanhas, todavia, não deve ser descartada. Que a rivalidade garanta um bom jogo para o clássico de Canberra. E que as rixas milenares se reflitam apenas na bola, dentro das quatro linhas, e não em novos episódios trágicos a milhares de quilômetros de distância.