O  programa Fútbol Para Todos sofreu, nesta quarta-feira, aquele que talvez seja o maior baque desde a sua implementação, em agosto de 2009. A Auditoria Geral da Nação divulgou um documento que aponta que, entre o início do FPT e o fim de 2012, uma série de anomalias foi identificada, uma delas revelando uma discrepância de US$ 20,1 milhões entre o valor acumulado pelo programa e as ordens de pagamentos liberadas. Além da revelação, a AGN questiona diversos pontos do programa estatal, que atua sob a bandeira de “devolver o futebol aos argentinos”.

VEJA TAMBÉM: Transformaram o EUA x México desta quarta em batalha Pokémon

O informe ficou retido por 177 dias. Segundo matéria do jornal La Nación, o governo atrasou o quanto pode o debate sobre a vistoria, tentando evitar a difusão das conclusões do relatório. A investigação começou no ano passado, a partir de denúncia de Graciela Ocaña, do partido Confianza Pública. Dentre os acusados no documento estão três dos cinco chefes de estado de Cristina Kirchner: Aníbal Fernández, Juan Manuel Abal Medina e Jorge Capitanich.

Entre as observações feitas pela Auditoria Geral da Nação está uma crítica à maneira como aconteceu a criação do Fútbol Para Todos. Para a AGN, “o contrato de agosto de 2009, pelo qual a Chefia de Gabinete adquiriu os direitos de exploração de imagens e/ou sons dos jogos dos torneios de futebol realizados pela AFA, não foi tramitado conforme as prescrições do regulamento para aquisição, alienação e contratação de bens e serviços do Estado Nacional”.

O órgão questiona também a Chefia de Gabinete de Ministros por ter firmado o contrato sem mecanismos de controle periódicos para garantir que todos os compromissos assumidos pelos clubes fossem cumpridos. “Isso não permite que o Estado monitore o resultado das ações de saneamento financeiro e reordenamento administrativo dos clubes e determine, no caso, em que momento esta finalidade se encontra cumprida”, lê-se em trecho do informe.  A resposta da CGM não poderia ser mais populista: “a prioridade era transmitir de forma gratuita todos os jogos das competições da AFA para os argentinos.

Embora de fato tenha levado as partidas que antes limitavam-se aos canais pagos e ao pay-per-view “de volta aos torcedores” com transmissões na TV Aberta e na internet, o Fútbol Para Todos desagrada a muitos. Dentre os motivos de insatisfação com o programa está o modo como o governo centraliza os patrocínios da transmissão, já que todos os canais são obrigados a passar as partidas com imagens e áudios originais, com propagandas pré-definidas, incluindo, claro, uma do próprio governo. Ao longo do tempo, o FPT implicou também em queda do poder financeiro dos clubes grandes, já que antes, a cada renovação de direitos de TV criava-se uma concorrência que aumentava a renda e hoje todos os 30 clubes recebem o mesmo dinheiro. É verdade que o momento econômico não permitiria a mesma bonança do início dos anos 2000, mas o atual modelo impede que esses times voltem a lucrar mais, mesmo com uma hipotética melhoria da economia nacional. Um torneio com 30 clubes também não ajuda a aliviar a pressão. O inchaço do campeonato, parte da política do programa, é outra questão frequentemente sob críticas.

Visto também como instrumento político, o Fútbol Para Todos deverá viver agora sua fase de maior turbulência. O próprio La Nación já escreveu sobre como um aumento proposto nas verbas do programa para este ano serviria para neutralizar dirigentes em ascensão nos clubes que pudessem causar problemas nas eleições da AFA. Com o desenrolar desses novos fatos, a pressão contra sua continuidade ou pelo menos contra o modo como é levado deverá apenas aumentar nos próximos meses. Desta vez, o velho discurso de democratizar o esporte não poderá ser a única estratégia de defesa do programa.