Há sete anos, existe uma competição chamada International Champions Cup, que reúne os maiores clubes europeus ao redor do mundo, dos Estados Unidos à Ásia. A ideia não é tão ruim. Sem jogos oficiais, em meio à pré-temporada, os amistosos tornam-se uma atração. Atraem públicos que nem sempre conseguem ver aquelas camisas pesadas, e os clássicos às vezes pegam fogo, como o 7 a 3 do Atlético de Madrid sobre o Real. Mas não passam disso: amistosos. O problema é que o principal investidor por trás da ICC deseja que ela seja levada mais a sério.

Segundo uma reportagem do New York Times, Stephen M. Ross, dono do Miami Dolphins, da NFL, e co-fundador da RSE Ventures, empresa que controla a ICC, viajou a Paris este mês para se reunir com dirigentes dos clubes europeus e cobrar que eles disputem o torneio para vaer. Acontece que, apesar de os jogos reunirem públicos relevantes, o caráter amistoso atrapalha a negociação de melhores contratos de transmissão e com parceiros comerciais. O gasto com o torneio, de acordo com a matéria, teria chegado a US$ 100 milhões, sem perspectiva de lucro no momento.

A reportagem cita fontes anônimas com conhecimento da reunião dizendo que Ross teria dito que o torneio teria que se tornar mais significativo ou a “torneira seria fechada”. O argumento de Ross tenta convencer os clubes de que, se levaram a competição mais a sério, eles podem fazer mais dinheiro. Os dirigentes teriam respondido que concordam que alguma mudança precisa ser feita, mas não houve conclusões na reunião. Uma resposta é esperada para o período entre março e junho.

No entanto, Ross não é nem o primeiro e nem o décimo oitavo a tentar vender aos clubes a ideia de que uma competição fechada entre as principais camisa da Europa seria lucrativa. Assemelha-se à Superliga que o presidente do Real Madrid, Florentino Pérez, vem tentando emplacar, sob a resistência de colegas, ligas nacionais e do presidente da Uefa, Aleksander Ceferin. Um torneio para valer com a mesma natureza, rodando por outros países e incentivado por um outsider, teria menos chances de ser concretizado, embora a reportagem pontue que a ideia de uma espécie de Champions League sediada fora da Europa foi considerada por Gianni Infantino quando o suíço ainda comandava a Uefa.

O New York Times afirma que Ross também está buscando o apoio da Uefa para o seu evento, uma parceria ou mesmo a utilização da marca para acrescentar esse ar oficial que ele deseja, mas por que a entidade europeia incentivaria a criação de um torneio que, na prática, seria concorrente do seu principal produto – a Champions League, cuja ampliação atualmente está sendo considerada? Além disso, há o novo Mundial de Clubes da Fifa, com 24 participantes, sendo 12 europeus, e já está sendo um desafio convencer os clubes europeus a levá-lo a sério.

Sempre que há papo sobre uma nova competição, dois grupos do futebol suam frio: os jogadores e os treinadores. Porque, no fim das contas, são eles quem mais sofrem com um calendário inchado. No começo dessa temporada, a FIFPro, sindicato mundial que representa jogadores profissionais, havia alertado para a sobrecarga de jogos, com sugestões como férias obrigatórias de quatro semanas, uma pausa de duas ao longo da temporada, limite de jogos em intervalos de menos de cinco dias de distância e até mesmo um teto de partidas para cada jogador. Como ela encararia a transformação de amistosos de pré-temporada em um torneio de verdade?

E há os treinadores. Eles já reclamam, especialmente na Inglaterra, do excesso de competições. Recentemente, Pep Guardiola defendeu a eliminação de torneios e foi sarcástico ao ser questionado sobre a possibilidade de expandir a Champions League. “A solução é fazer um ano de 400 dias. Aí conseguimos marcar mais um torneio”, disse. “Você tem que eliminar torneios. Eliminá-los completamente. Menos jogos, menos torneios, menos time, menos quantidade, mais qualidade”. Outro crítico habitual do calendário, Jürgen Klopp foi obrigado a escalar um time de jovens nas quartas de final da Copa da Liga Inglesa porque o seu elenco principal estava viajando para disputar o Mundial no Catar.

Mesmo com caráter amistoso, a International Champions League já atrapalhou o calendário do futebol europeu. Em 2018, o último compromisso do Barcelona, contra o Milan, em São Francisco, aconteceu um dia antes da data marcada para a Supercopa da Espanha, no começo de uma temporada que já havia sido esmagada por causa da Copa do Mundo. A solução foi fazer a competição em jogo único, ao contrário dos tradicionais jogos de ida e volta – tradicionais até ela ser expandida e transferida para a Arábia Saudita -, no Marrocos, à revelia do Sevilla.

Em julho, a empresa que organizou um amistoso entre a Juventus e estrelas da liga sul-coreana ficou frustrada porque Cristiano Ronaldo não entrou em campo embora, segundo ela, estivesse em contrato que ele teria que jogar pelo menos 45 minutos, e torcedores ameaçaram processo por “angústia mental”. Maurizio Sarri disse depois da partida que a ideia era realmente que o português jogasse, mas ele se mostrou cansado depois e foi tomada a decisão de poupá-lo. Absolutamente natural em um amistoso de pré-temporada. Se o jogo fosse para valer, talvez outra medida fosse tomada, colocando em risco o físico de Ronaldo.

Simplesmente não dá para cobrar que os clubes encarem a pré-temporada como se fosse uma competição para valer. Há testes a serem feitos, conceitos a serem desenvolvidos e o essencial é preparar o físico dos jogadores para uma temporada que já é muito desgastante. Em algum momento do ano, isso precisa ser feito e, como implicou Guardiola, ele ainda é composto por apenas 365 dias.