Internazionale e Real Madrid retomam, depois de duas décadas, uma rica história de confrontos continentais

Internazionale e Real Madrid já se enfrentaram em oito temporadas distintas por competições europeias. O clássico continental, porém, andava um tanto quanto adormecido. O embate ainda não havia acontecido neste século, até o reencontro pela atual fase de grupos da Champions League. De qualquer forma, o histórico entre os gigantes é amplo. Nos anos 1960, duas das maiores forças do continente chegaram até a disputar final de Champions. Os cruzamentos voltaram a se tornar frequentes na década de 1980, principalmente nas copas secundárias, com uma ampla hegemonia merengue. Já no duelo mais recente, o talento abundava com Ronaldo, Roberto Baggio, Zamorano, Raúl, Redondo, Roberto Carlos e outros craques.

Anos 1960

O primeiro confronto entre Internazionale e Real Madrid é, justamente, o mais importante. As duas equipes se cruzaram pela primeira vez em 1964, na decisão da Champions realizada em Viena. O favoritismo estava ao lado do Real Madrid. Os merengues tinha sido pentacampeões europeus pouco antes e emendavam naquele momento um tetra espanhol. Seguiam estrelados por Alfredo Di Stéfano, Ferenc Puskás, Paco Gento e José Santamaría. A Inter, por sua vez, era dirigida por Helenio Herrera – velho conhecido dos merengues, ao já ter sido campeão por Atlético de Madrid e Barcelona. Tinha uma equipe fortíssima, em que Luis Suárez era outro ex-blaugrana presente. E os nerazzurri ainda vinham pressionados pela rivalidade, considerando que o Milan havia sido o dono da Champions na temporada anterior.

Aquela seria a confirmação de um esquadrão histórico da Internazionale. Os italianos venceram a partida por 3 a 1. Sandro Mazzola deu seu cartão de visitas com um golaço aos 43, num tiro de fora da área que seguiu direto ao ângulo, deixando estático o goleiro José Vicente. Gento tentou o empate no início do segundo tempo, mas só carimbou a trave. Assim, aos 16, caberia a Aurelio Milani acertar um tiro rasante da entrada da área e ampliar. Felo até descontou para o Real aos 25, num acrobático arremate após cobrança de escanteio. Todavia, seria mesmo uma noite nerazzurra. Seis minutos depois, a zaga espanhola vacilou e Mazzola determinou o triunfo.

O timaço da Internazionale tinha muito talento, apesar da atuação primordial de Mazzola, então com 21 anos e já fazendo uma diferença tremenda à sua equipe. A defesa era repleta de estrelas, liderada pelo líbero e capitão Armando Picchi, mas contando com Giacinto Facchetti e Tarcisio Burgnich no combate pelos lados. Já no setor ofensivo, a armação era providenciada por Suárez e Mazzola, mas Jair da Costa e Mario Corso garantiam doses cavalares de talento nas pontas, enquanto Aurelio Milani era o centroavante. O forte sistema de marcação armado por Herrera, em seu famoso Catenaccio, seria decisivo para anular os veteranos craques adversários e garantir o resultado.

Os destaques daquela partida, além do mais, fogem dos nomes mais óbvios. O zagueiro Aristide Guarneri colou em Puskás e não deixou o Major Galopante fazer muito dentro da área, mesmo depois de anotar sete gols nas sete partidas anteriores pela Champions. Já o protagonista foi o volante Carlo Tagnin, na melhor atuação de sua vida. O cabeça de área se transformou em uma sombra a Di Stéfano, mesmo com toda a movimentação da Flecha Loira, indo incessantemente de área a área. O craque não teve sossego e pouco fez. Aquela foi, emblematicamente, sua última partida com a camisa do Real Madrid.

A Inter seria bicampeã europeia com aquela geração em 1965. Sua hegemonia seria encerrada exatamente pelo Real Madrid, nas semifinais de 1965/66, antes que os merengues recuperassem a Orelhuda após seis anos. Miguel Múñoz permanecia como treinador dos pentacampeões espanhóis, embora Puskás e Di Stéfano tivessem deixado o Estádio Santiago Bernabéu. Gento era o único remanescente dos cinco primeiros títulos da Champions, em geração agora liderada por Amancio, Pirri e Sanchís. Já a Inter mantinha boa parte dos carrascos de 1964, com a adição importante do camisa 10 Joaquín Peiró.

O Real Madrid iniciou sua revanche no Bernabéu. Os merengues pressionaram e saíram com a vitória por 1 a 0, gol de Pirri num lance brigado logo aos 12 minutos do primeiro tempo. Seria uma atuação heroica do goleiro Antonio Betancort. Em tempos nos quais a Champions ainda não permitia substituições, o arqueiro disputaria todo o segundo tempo lesionado. Na volta, no San Siro, os madridistas confirmaram a classificação ao segurarem o empate por 1 a 1. Amancio balançou as redes logo aos 20 minutos, enquanto Facchetti só esboçaria a reação aos 33 do segundo tempo. Na decisão, o Real derrotou o Partizan Belgrado.

Por fim, houve um tira-teima em 1967. Pela terceira vez em quatro temporadas, Real Madrid e Inter se enfrentaram na Champions. E os interistas mostraram que realmente eram mais fortes naquele período histórico, ao conquistarem a classificação nas quartas de final. A Internazionale abriu seu caminho ao garantir a vitória por 1 a 0 em Milão. Mazzola cruzou no capricho e Renato Cappellini desferiu uma cabeçada potente, aos nove minutos do segundo tempo, deixando os italianos em excelente vantagem.

Mesmo diante de 130 mil espectadores no Bernabéu, os nerazzurri conquistariam outra vitória em Madri. Cappellini repetiu o protagonismo ao marcar o primeiro gol, aos 24 minutos, aproveitando um rebote do goleiro José Araquistáin. Já no início do segundo tempo, um gol contra de Ignacio Zoco concluiu o placar em 2 a 0. O goleiro Giuliano Sarti, em grande fase, também seria importante para conter a pressão do Real Madrid enquanto o placar estava zerado. De toda forma, Helenio Herrera não conseguiria conduzir a Inter ao seu terceiro título continental. Na decisão em Lisboa, rugiram mais alto os leões do Celtic, com a histórica virada por 2 a 1 no Estádio Nacional do Jamor.

Anos 1980

Levou um tempo para que Internazionale e Real Madrid voltassem a medir forças nas competições europeias. Em compensação, o reencontro pela Champions 1980/81 seria igualmente histórico. Os interistas haviam encerrado um jejum de nove anos na Serie A. Eugenio Bersellini treinava a equipe que reunia futuros campeões do mundo, como Alessandro Altobelli, Gianpiero Marini, Ivano Bordon e o garoto Giuseppe Bergomi – Gabriele Oriali era ausência naqueles embates. O austríaco Herbert Prohaska era o estrangeiro dos nerazzurri na época. Já o Real tentava recuperar sua representatividade europeia sob as ordens do mítico Vujadin Boskov. Juanito, Santillana, Vicente del Bosque e José Antonio Camacho eram alguns nomes notáveis da época, com o alemão Uli Stielike no meio.

O Real Madrid aproveitou a vantagem de disputar a primeira partida em casa. No Bernabéu, os merengues venceram por 2 a 0. Santillana abriu o placar aos 29 minutos, numa cabeçada indefensável, enquanto Juanito ampliou a vantagem aos dois do segundo tempo, aparecendo sozinho no meio da área. A equipe da casa ainda criou ocasiões para mais, chegando a carimbar a trave com Santillana. Mesmo num ambiente vibrante no San Siro, a Inter não conseguiu a virada necessária. O gol da vitória por 1 a 0 saiu aos 12 do segundo tempo, com o capitão Graziano Bini mandando às redes depois de uma linda troca de passes. Não foi suficiente no placar agregado. Na decisão, porém, os madridistas perderam a taça para o Liverpool.

Aquele seria um aperitivo à década intensa. O reencontro se daria em 1982/83, nas quartas de final da antiga Recopa Europeia. A Inter de Rino Marchesi havia incorporado nomes como Fulvio Collovati, Riccardo Ferri, Hansi Müller, Salvatore Bagni e Juary. Já do lado do Real Madrid, o reforço de maior impacto em relação a dois anos antes estava no banco de reservas, com o time dirigido por Alfredo Di Stéfano. E a Flecha Loira, depois de quase duas décadas, teria seu gosto de revanche contra os italianos.

A primeira partida terminou com o empate por 1 a 1, no San Siro. Oriali abriu a contagem cobrando falta, num tiro rasteiro que passou fraco, ao lado da barreira. Os nerazzurri teriam o segundo tento anulado, num impedimento inexistente de Altobelli. E os merengues se aproveitaram para arrancar a igualdade aos 14 do segundo tempo. Ricardo Gallego chutou de longe e Bordon falhou feio. Seria a deixa para a classificação no Bernabéu. Altobelli até abriu o placar aos visitantes com 20 minutos, numa jogadaça. Só que a segunda etapa guardou a virada do Real Madrid. José Antonio Salgueiro soltou um petardo de falta para empatar aos seis minutos e, aos 11, Santillana de novo apareceu decisivamente. A cabeçada do atacante colocou os espanhóis nas semifinais. Passariam, até a derrota para o Aberdeen na decisão.

Depois das duas finais perdidas, o Real Madrid recuperou seu caminho vitorioso além das fronteiras na Copa da Uefa. Os merengues seriam bicampeões do torneio e, por tabela, ampliaram a freguesia da Inter. Em ambas as campanhas, os italianos ficaram pelo caminho. A primeira vez aconteceu na semifinal de 1984/85. Karl-Heinz Rummenigge era a grande estrela em San Siro. Altobelli, Bergomi, Marini, Bini, Collovati e Giuseppe Baresi seguiam no elenco, agora reforçado por Liam Brady e Walter Zenga. Já no Real eclodia a geração de Emilio Butragueño, Rafael Martín Vázquez, Míchel e Manolo Sanchís. Também seguiam medalhões como Santillana, Stielike e Camacho, com a adição do argentino Jorge Valdano.

O Real Madrid era dirigido por outro antigo ídolo, Amancio Amaro. A partida de ida, entretanto, acelerou a saída do treinador e parecia levar a Internazionale à decisão. Os merengues escalaram uma equipe cheia de garotos (grande marca do trabalho de Amancio) e perderam no San Siro por 2 a 0. Brady converteu um pênalti aos 25, depois de minutos de pressão incessante. O goleiro Miguel Ángel evitava um desastre maior, até que Altobelli concluísse a vitória com muita calma aos 12 do segundo tempo. Antes que a volta acontecesse, Luis Molowny assumiu o comando dos merengues – outra referência do supertime dos anos 1950. E, com uma escalação mais tarimbada, a reviravolta ocorreu dentro do Santiago Bernabéu.

O Real Madrid arrancou a classificação com a vitória por 3 a 0. Como já tinha acontecido nos dois embates anteriores dos anos 1980, Santillana representou o pesadelo à Internazionale. O capitão abriu o placar num lance brigado dentro da área, aos 12 minutos. O tento deu tranquilidade e os merengues mantiveram o abafa, com direito a uma bola na trave na sequência da partida. O duelo também teria sua dose de confusão, com uma pilha atirada contra a nuca de Bergomi. Já aos 42, Santillana fez de cabeça e igualou o placar agregado. Na volta ao segundo tempo, a Inter tentaria descontar e Stielike salvou uma bola espetacular em cima da linha. O herói, por fim, seria o garoto Míchel. Num chute rasteiro, carimbou a classificação aos 12. Os espanhóis levariam a taça, derrotando o Videoton na final.

Um ano depois, o filme se repetiria nas semifinais, de uma maneira até mais intensa. A Inter estava sob a tutela de Mario Corso, agora um ídolo de seu timaço dos anos 1960. Permanecia com Rummenigge, Altobelli, Brady, Baresi, Bergomi, Ferri e Zenga, além de adicionar o veterano Marco Tardelli ao seu meio-campo. Pegava o Real Madrid de Butragueño, Santillana, Chendo, Juanito, Valdano, Camacho, Míchel e outras feras. Luis Molowny dava continuidade ao seu trabalho como técnico. E o mercado de transferências havia sido benéfico, com as contratações do xerife Antonio Maceda e do artilheiro Hugo Sánchez àquela temporada.

A Inter tentou sua vingança e, de novo, ganhou em San Siro com uma diferença de dois gols. O triunfo por 3 a 1 começou logo no primeiro minuto, quando Tardelli se infiltrou na área e bateu de canhota. O Real Madrid poderia ter empatado antes do intervalo, inclusive carimbando o travessão. Mas os nerazzurri voltaram a intensificar a carga na volta ao segundo tempo e, aos nove, Tardelli seria elemento surpresa na área mais uma vez para o segundo tento. Os merengues seguiram batalhando para descontar. Conseguiram aos 42, com Valdano. Contudo, dois minutos depois, Pepe Salgueiro recuou uma bola alta e anotou um golaço contra, encobrindo o goleiro José Manuel Ochotorena.

Caberia ao Real Madrid tentar reescrever a história mais uma vez no Bernabéu. E conseguiram. Devolveram os 3 a 1 no tempo normal e anotaram mais dois durante a prorrogação, fechando a contagem em 5 a 1. Durante o primeiro tempo, a Inter até criou mais chances para sair em vantagem, mas um pênalti presenteado aos merengues permitiu que Hugo Sánchez assinalasse o primeiro aos 44. O segundo tempo começou com uma bola na trave para cada time, até que Rafael Gordillo ampliasse aos 19, de cabeça. Neste momento, os espanhóis passavam pelo gol marcado na Itália.

A Inter voltou ao jogo aos 21, quando Brady descontou em cobrança de pênalti. Todavia, o Real Madrid alargou a diferença aos 30, em mais um penal, desta vez indiscutível. Hugo Sánchez só deslocou Zenga. O placar se manteve até o apito final, forçando a prorrogação. No primeiro tempo extra, Santillana desferiu a cabeçada que rendeu o quarto tento, após um escanteio cobrado por Hugo Sánchez. E a combinação se repetiria ao quinto, agora num contra-ataque puxado por Butragueño. Sánchez rolou e Santillana, o tormento interista, guardou. O bicampeonato do Real Madrid na Copa da Uefa seria conquistado em cima do Colônia.

Anos 90

Internazionale e Real Madrid só se enfrentaram uma vez na fase Champions League, quando acabaram sorteados na mesma chave em 1998/99. Os merengues vinham do título continental em 1998, encerrando o jejum de 32 anos no torneio – desde aquela conquista de 1966. Jupp Heynckes não foi mantido como técnico, mas Guus Hiddink era um nome de peso em seu lugar. Já o remanescente do anos 1980 era o capitão Sanchís. Fernando Hierro, Raúl e Fernando Morientes eram outros espanhóis célebres daqueles tempos, em elenco mais internacionalizado. Bodo Illgner, Fernando Redondo, Roberto Carlos, Clarence Seedorf e Predrag Mijatovic aumentavam a qualidade entre os estrangeiros.

A Inter, por sua vez, investia alto para recuperar o protagonismo perdido desde o início da década. Ronaldo representava isso no ataque, acompanhado por Iván Zamorano. Aquele time ainda contava com a opção de Roberto Baggio, deixado no banco. Na legião estrangeira dirigida por Luigi Simoni, ainda apareciam Javier Zanetti, Aron Winter, Youri Djorkaeff, Taribo West, Paulo Sousa e Diego Simeone. Dentre os italianos, Giuseppe Bergomi vivera a freguesia dos anos 1980 e agora era capitão. Tinha a companhia de nomes como Gianluca Pagliuca e Francesco Moriero, bem como do ainda garoto Andrea Pirlo no banco de reservas.

O Real Madrid voltou a bater a Inter dentro do Bernabéu. Os espanhóis ganharam o primeiro encontro pelo Grupo C por 2 a 0. Os gols saíram apenas depois dos 34 minutos do segundo tempo. Os merengues davam muito mais trabalho a Pagliuca, mas só fizeram o primeiro quando Zanetti derrubou Sávio na área. Pênalti, que Hierro converteu. Já aos 45, num contragolpe, Mijatovic entregou para Seedorf arrancar e bater no contrapé do goleiro.

A resposta da Inter veio, enfim, com a vitória por 3 a 1 no San Siro. Os nerazzurri sufocavam, mas os merengues perderam chances incríveis durante o primeiro tempo. Os gols, novamente, ficaram apenas à segunda etapa. Zamorano anotou o primeiro ao desviar um chute de Ronaldo no meio do caminho. Seedorf empatou pouco depois, concluindo o cruzamento de Sávio. O nome da noite, de qualquer forma, viria do banco: Roberto Baggio. O craque retomou a dianteira num chute rasteiro, com a ajuda de Illgner, aos 41. E o camisa 10 voltou a balançar as redes aos 45, depois de já ter um pênalti negligenciado. Num ataque rápido, o fantasista driblou o goleiro e determinou o triunfo.

A Internazionale ficou com a liderança do Grupo C, mas o Real Madrid buscou a classificação como um dos melhores segundos colocados. Aquela campanha, entretanto, acabaria nas quartas de final a ambos os times – a primeira etapa dos mata-matas. Os italianos sucumbiram ao futuro campeão Manchester United, enquanto os merengues terminaram derrubados pelo surpreendente Dynamo Kiev.