Falar do Internacional no Campeonato Brasileiro nos últimos anos significa falar de um time que sempre tem começado como favorito, mas ao longo do torneio acaba decepcionando. Virou uma piada dizer que o Inter é um dos favoritos ao título, porque o time acabou se complicando e, mesmo quando brigou de fato pelo título, não levou. Mesmo assim, o Inter participou de cinco Libertadores nos últimos dez anos (mesmo número de participações de todo o período anterior de sua história) e ganhou duas delas, além de um Mundial de Clubes. O colorado se tornou um modelo de gestão elogiado, clube organizado, com projeto de sócio-torcedor inovador e operação lucrativa. Mesmo assim, não ganhou um Campeonato Brasileiro, mas ficou perto de levar algumas vezes, com três vice-campeonatos desde 2003.

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Antes de montar times que se tornariam fortes, o Inter passou por um enorme susto. É comum ouvirmos que o rebaixamento ensina muitos clubes a se organizar, que pode ser bom. Não é. O clube passou um enorme sufoco em 2002, quando tinha salários atrasados e times ruins em campo. Foram anos consecutivos com o time brigando para não cair, até que 2002 a ameaça foi bem real, mas o time escapou do vexame nas últimas rodadas. Imaginaram o que teria acontecido se o Inter tivesse sido rebaixado no Balípodo. O texto é ficcional, mas vale a leitura, porque a queda ficou realmente batendo à porta do Beira-Rio.

Garantido na primeira divisão, o time precisava tentar sair do atoleiro. O então presidente, Fernando Carvalho, que assumiu em 2002, mudou a estratégia. Investiu em contratos mais longos – os contratos de curto prazo, como eram feitos anteriormente, se tornaram uma armadilha com a Lei Pelé – e em um trabalho mais intenso nas categorias de base. O clube passou a montar seu elenco com mais jogadores criados em casa. E isso passou a dar certo, porque o time teve nomes importantes formados nas canteiras coloradas. Mais do que isso, o Inter passou a ter um trabalho de captação de jogadores que poderiam ser úteis, sem necessariamente custarem caro. Muitos deles chegando de graça, como fez o São Paulo na sua trilogia de títulos entre 2006 e 2008.

Com Muricy Ramalho no comando do time e apostando nos jogadores da base, o Inter teve, em 2003, um desempenho bem melhor que no ano anterior. Nilmar foi o grande jogador que surgiu em 2002 e esteve no clube até 2004. Foi no ano seguinte que o time conseguiu ser forte o bastante para brigar pelo título, novamente sob o comando de Muricy, que tinha sido campeão paulista pelo São Caetano, em um time bem montano seguindo a fórmula de buscar jogadores com bons olheiros junto às revelações da base.

O time de 2005 tinha o goleiro Clemer, que chegou desvalorizado do Flamengo, o zagueiro Bolívar, contratado junto ao Guarani de Venâncio Aires; o lateral direito Élder Granja, que chegou barato da Portuguesa; Jorge Wagner, que jogou no clube emprestado pelo Lokomotiv Moscou; Edinho, contratado junto ao Boavista, do Rio de Janeiro; Tinga, que foi contratado em uma operação que envolveu parte dos direitos de Cleiton Xavier, na época um jogador da base; Fernandão, que chegou ao Inter de graça depois de passar por Olympique de Marseille e Toulouse na França; e Rafael Sóbis, uma das grandes revelações das categorias de base do clube. Um time montado sem a contratação de estrelas, mas que brigaria pelo título brasileiro em 2005 e seria a base do time campeão da Libertadores no ano seguinte.

Em 2006, mesmo após a conquista da Libertadores, que causa normalmente um relaxamento nos times brasileiros que só pensam no Mundial no fim do ano, o Inter ainda tentou brigar pelo título brasileiro. Esbarrou justamente no rival que bateu na final da Libertadores, o São Paulo, que acabou disparando no final. O time mantinha Clemer, o zagueiro Índio, contratado no ano anterior junto ao Juventude, Fabiano Eller, que veio por empréstimo do Trabzonspor, o lateral Hidalgo, outro que chegou por empréstimo. O lateral direito Ceará, titular da campanha na Libertadores, chegou de graça vindo do São Caetano. Alex, meia que voltou ao Inter em 2013, chegou do Guarani por uma quantia baixa. Iarley veio do México e chegou de graça. Luiz Adriano surgiu nessa época e era um reserva importante do time. Fernandão era a referência no ataque. O título não veio, mas só o Internacional deu calor no final no São Paulo e chegou ao Mundial com moral para enfrentar o Barcelona e ser campeão do mundo.

Internacional nos pontos corridos

2003: 6º

2004: 8º

2005: 2º

2006: 2º

2007: 11º

2008: 6º

2009: 2º

2010: 7º

2011: 5º

A fórmula usada de buscar oportunidades e jogadores de baixo custo ou de graça, em fim de contrato, foi se esgotando, assim como aconteceu com o São Paulo. O time se desfez em 2007, incluindo a saída do garoto prodígio, Alexandre Pato, campeão mundial pelo clube em 2006. A campanha no Brasileiro foi a pior do últimos anos e o time ficou em 11º. Um novo time forte seria montado em 2009, quando o clube seria novamente vice-campeão brasileiro. O time tinha o goleiro Lauro, que veio do Cruzeiro por um valor baixo, mantinha alguns jogadores como Índio e Bolívar e mesclava com jogadores da base como Sandro e Taison. Além deles, o time tinha coadjuvantes importantes contratados por valores baixos, como Andrezinho, que veio do Flamengo, Danilo Silva, que passou por Guarani e São Paulo. Giuliano, ainda jovem, foi contratado do Paraná, mais de R$ 2 milhões. Contratações que mantinham a linha anterior. Mas haveria uma mudança.

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Começava uma política de grandes contratações, que seriam a tônica nos anos seguintes. Kléber, lateral esquerdo que jogou pelo Corinthians e estava no Santos, foi trazido por quase R$ 5 milhões, D’Alessandro chegou por cerca de R$ 14 milhões do San Lorenzo, da Argentina, com status de estrela. Naquele ano, o título ficou com o Flamengo, em uma reviravolta no segundo turno. O Inter bateu na trave de novo. O título brasileiro escapou.

Nesses anos, o Inter teve uma gestão muito elogiada, que organizou o clube, tornou o time uma referência com seu programa sócio-torcedor, lançado em 2006, e o clube passou a ser forte e brigar pelo título. Mas o futebol não tem fórmula pronta e as melhores na estrutura do time, no estádio, nas finanças e o bom olho de contratações não foi suficiente para fazer o time ser campeão brasileiro. O título, que o Colorado persegue desde 1979, não veio, mesmo com o time fazendo tudo certo nesse período.

A política mudou, o Inter passou a ter uma folha salarial cada vez maior, apostando cada vez mais em medalhões e estrelas com salários altos, como foi com Ilan, Zé Roberto (que veio do Vasco), Tinga, Rafael Sóbis (que voltou do Oriente Médio), Mario Bolatti, que veio da Fiorentina, Dátolo, Dagoberto, Jô, Forlán, Juan, Willians, Gabriel, Scocco, Alex, entre outros menos ressonantes. O time não conseguiu mais brigar pelo título.

O Internacional teve tudo para ganhar o título brasileiro. Não ganhou. É verdade que ganhou os maiores títulos da sua história, as Libertadores de 2006 e 2010 e o Mundial de 2006, além da Sul-Americana de 2008. Mesmo assim, ficou a sensação de que o time poderia, nesse período, ter ganhado o Brasileiro. E não ganhou. Em 2014, o time parece apostar novamente em contratações menos badaladas, com alguns jogadores da base e outros que não chegaram como estrelas. Enxugou a folha salarial e tenta repetir a fórmula de sucesso que fez o time ficar tão perto do título. No final do ano veremos se terá sido suficiente, ou se foi mais uma bola na trave do Inter.

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