Internacional e Santos fizeram um jogo de peso no fechamento da rodada do Campeonato Brasileiro. Se não foi o confronto mais técnico, compensou pela intensidade e pelas emoções. Intensidade até exagerada, em partes, pela cena ridícula protagonizada pela arbitragem ao discutir por mais de sete minutos a anulação do gol de Leandro Damião, que daria a vantagem aos colorados no início do segundo tempo. No fim das contas, o “comitê” acertou a marcação, mesmo errando um punhado de outras coisas em sua postura. E o empate por 2 a 2, por mais disputado que tenha sido, não ofereceu o melhor dos mundos a nenhum dos lados.

Foi um jogo aberto desde o primeiro tempo, sobretudo pela postura do Santos, longe de se conter no campo de defesa. Logo os goleiros começaram a prevalecer. Marcelo Lomba realizou um milagre em bomba de Gabigol, tocando com a ponta dos dedos a bola que ainda acertou o travessão, e Vanderlei também fez sua defesaça, para negar a cabeçada à queima-roupa de Edenílson. O oportunismo de Leandro Damião, entretanto, inaugurou o placar aos 43 do primeiro tempo, ao aproveitar a bola que Luiz Felipe havia salvado em cima da linha. Vantagem merecida aos colorados, que cresceram no jogo e foram para o intervalo pressionando. A deixa para que o segundo tempo pegasse fogo.

Se Damião vive sua redenção no Beira-Rio, não é diferente com Gabigol na volta ao Santos. E sua capacidade na definição ficou evidente no segundo tento do jogo, que rendeu o empate ao Peixe. Partiu na lateral direita da área colorada e bateu na bola com capricho, botando curva para tentar tirar do goleiro. Lomba se esticou todo e a redonda, certeira, entrou no cantinho. Prévia da confusão gigantesca que aconteceu do outro lado do campo, pouco depois, e que gera mais reclamações sobre a arbitragem da CBF.

O Inter pressionava. Vanderlei tinha feito mais uma ótima intervenção contra Damião, quando o imbróglio se deu aos nove minutos. Cuesta dividiu com Sánchez na entrada da área e a bola saiu rumo aos pés de Damião. O atacante dominou deu um bonito toque para tirar do alcance de Vanderlei, anotando o segundo. O assistente assinalou o impedimento e o caos se instaurou no Beira-Rio. Sem ter certeza sobre o que marcar, o árbitro Ricardo Marques Ribeiro fez duas conferências, uma com o bandeira e o auxiliar de linha de fundo, outra com o quarto árbitro e o bandeira do outro lado do campo. Tempo passa. Jogadores são afastados da discussão quando tentam argumentar ou pressionar, enquanto os torcedores vaiam. E sem que nada pareça muito claro, o juiz resolve manter a infração – algo que depois de muitos replays em câmera lenta, e alguma dúvida, indica que a bola saiu mesmo do pé de Cuesta por último, com a posição adiantada do centroavante. Certo por linhas muitíssimo tortas.

A insatisfação do Inter era óbvia, mas o time não demorou a se vingar. Um contra-ataque de manual resultou no segundo gol dos gaúchos, aos 25 minutos. Linda trama em velocidade que teve ótimo passe de Edenílson, projetando Nico López. Então, o atacante cruzou para Patrick definir. O Santos, ao menos, não se dava por morto. Cuca botou o time no ataque e teve sua parcela de sorte, diante da lambança de Fabiano. Em uma bola na qual claramente o lateral deveria ter chutado para fora, preferiu proteger para Marcelo Lomba agarrar e, pressionado, acabou mandando contra as próprias redes. Vontade não faltava e ambos os times poderiam ter saído com a vitória. Mas o gosto mais amargo foi mesmo dos colorados, especialmente por outra defesaça de Vanderlei contra Moledo no final.

O depois do jogo é que não terminou com cenas tão bonitas assim. O vice colorado, Roberto Melo, resolveu atribuir a culpa pelo tropeço também à televisão. Sim, à televisão, que decidiu não passar o replay do lance polêmico até que a arbitragem tomasse a sua decisão. Podem até falar que são dois pesos e duas medidas. Contudo, fica cada vez mais óbvio como o VAR oculto é uma regra corrupta dentro do futebol brasileiro. Ricardo Marques Ribeiro parecia aguardar uma interferência externa, que não veio. Se quisesse mesmo saber a opinião de todos da arbitragem, não seriam necessários sete minutos. E a caminhada lenta da primeira à segunda conferência deixa margem aos questionamentos. Pode agradecer pela sorte que teve, o que não apazígua as críticas necessárias. E igualmente esdrúxula é a posição dos dirigentes do Inter, que deveriam seguir brigando por um processo mais limpo e (como já tinham feito antes) pela introdução regulamentada do VAR. Precisam se preocupar mais com a queda de rendimento e com os erros que foram muito mais influentes no empate.

Ricardo Marques Ribeiro, aliás, protagonizaria outra cena bizarra nos corredores do Beira-Rio. Chamado de “safado” por Rodrigo Caetano, o árbitro se exaltou exageradamente. Falou impropérios e quis partir para a briga, enquanto era segurado pelos companheiros de ofício. Só evidencia um pouco mais do despreparo da arbitragem no Brasil. Não é uma questão apenas técnica, de saber como agir e estar orientado da melhor forma para tomar as decisões. Há também uma crise de autoritarismo e vaidade, em que os juízes no país muitas vezes parecem querer aparecer mais do que o jogo. Acham-se pequenos imperadores que comandam o campo e não podem se abrir ao diálogo. Uma margem ampla, que não afeta apenas o futebol, mas que merece uma ampla revisão da CBF. Porém, a politicagem impera na confederação, enquanto a necessidade de uma arbitragem independente e profissional se torna cada vez mais urgente. Punições são relativizadas pelo comando da CBF e não parece haver qualquer movimento para aparar as arestas. Os “sete minutos de espera” são emblemáticos.

Voltando a falar de futebol, o resultado não favorece ambos os times. O Internacional cai para o quarto lugar, com 57 pontos, agora a cinco do líder Palmeiras. E o Santos não consegue encostar no G-6, a três pontos do Atlético Mineiro, com o Peixe ocupando a sétima colocação. Será um jogo lembrado pela indefinição e por todo o seu entorno. A arbitragem ruim, mesmo quando está certa, é o drama de um campeonato em que todos os times têm algo a reclamar do apito – e todos se acham no direito de se dizerem os mais prejudicados.