José Mourinho é uma das grandes figuras do futebol nas últimas décadas, enfileirando títulos, espetadas e marra. A sua chegada à Internazionale, em 2008, foi de um popstar. Sua relação conflituosa com a imprensa causou manchetes, seja pelas respostas atravessadas, seja pelas frases marrentas. A Tríplice Coroa que completa 10 anos neste dia 22 de maio de 2020 foi o capítulo final de uma passagem marcante de Mourinho pelos nerazzurri. Uma passagem que tornaria o português uma lenda na história do clube. E aquela temporada uma das maiores da história do clube.

Massimo Moratti comprou a Internazionale em 1995, retomando o controle do clube que já tinha sido da sua família, de 1955 a 1968. O seu pai, Angelo, foi o presidente que ergueu duas taças da Champions League, um feito magnífico que nunca foi esquecido pela torcida. A Inter é um dos três gigantes italianos, ao lado de Juventus e Milan. Mas os dois rivais tinham muito mais sucesso continental que os nerazzurri depois do sucesso dos anos 1960.

Quando conquistou o seu segundo título europeu, em 1964/65, derrotando o Benfica de Eusebio, a Inter era o time italiano com mais sucesso no continente. Eram dois títulos, contra um do Milan em 1962/63. A Juventus nunca tinha conquistado o principal título europeu. O Milan voltaria a vencer em 1968/69 e empilharia taças europeias, chegando a sete delas em 2007. A Juventus conquistaria duas, em 1985 e 1996. Era um time que chegava frequentemente às fases decisivas.

No âmbito doméstico, a Inter passou 18 anos sem conquistar um único scudetto. Deste tempo, 10 anos foram com o presidente Massimo Moratti. Não tinham faltado esforços. A Inter quebrou recorde de transferências com a contratação de Ronaldo, que se tornaria um ídolo do clube de 1997 a 2002, quando saiu de forma controversa de Milão. A Inter empilhou jogadores caros nesses anos todos, sem conseguir um único scudetto. E os sonhos de Moratti pareciam se esvair em meio a muito dinheiro gasto.

Calciopoli e quebra de jejum

A história do triplete da Inter na temporada 2009/10 começa em 2008. A Inter era a força dominante na Itália naquele momento. O Calciopoli derrubou a maior força, a Juventus, à segunda divisão, tirando inclusive o título da Velha Senhora de 2005/06, atribuído aos nerazzurri posteriormente. Uma decisão controversa e que tornou aquele título um scudetto da vergonha.

O título acabaria com uma seca que durava desde a conquista de 1988/89, no time de Giovanni Trapattoni que ficou conhecido como o time dos alemães por ter Andreas Brehme e Lothar Matthäus, além do artilheiro Aldo Serena. Contamos a história daquela temporada da Inter, que completou 20 anos em 2019, aqui na Trivela.

A quebra do jejum não foi nem devidamente comemorada, nem poderia. O título não foi exatamente ganho, foi atribuído e de forma que não se pode dizer que é exatamente justo. A conquista a ser comemorada só veio no ano seguinte. Na temporada 2006/07, a Inter conquistou o scudetto com facilidade, com 97 pontos, 22 pontos acima da Roma, que teve Francesco Totti como artilheiro da liga com 26 gols. Aí sim, o título foi devidamente comemorado, em campo, com uma dominância que os interistas sonharam.

Chegada de Mourinho

Era 11 de março de 2008 e a Inter recebia o Liverpool em San Siro pelo jogo de volta das oitavas de final da Champions League. Uma dura derrota por 2 a 0 em Anfield obrigava o time de Milão a vencer pelo menos placar, no mínimo. O que aconteceu, porém, foi mais uma derrota, com um gol de Fernando Torres que eliminou a Inter daquela edição do torneio europeu.

O técnico era Roberto Mancini, que na coletiva de imprensa surpreendeu todos ao dizer que tinha conversado com o presidente Massimo Moratti e manifestado a sua vontade de deixar o clube ao final da temporada. A surpresa não ficou só nos jornalistas, mas também no vestiário do time. Mancini tinha renovado o seu contrato até 2012. Alguns dias depois, de cabeça fresca, admitiu que falou no calor do momento. Mudou de ideia, queria continuar no clube. O problema é que o estrago já estava feito e a ruptura iniciada dias antes já estava em curso.

Aquela derrota para o Liverpool causou repercussão. Dois dias depois, o Corriere della Sera afirmou que Moratti queria José Mourinho como técnico e iria fazer isso. Em maio, já surgiam relatos de uma reunião, em Paris, do técnico com o dirigente. O destino parecia selado. Mas o time precisava terminar a temporada. E foi sofrido.

Até então, a Inter tinha uma vantagem de seis pontos para a Roma, segunda colocada. As coisas se complicaram quando na penúltima rodada o time empatou com o Siena e a Roma, ao vencer a Atalanta, ficou a um ponto do líder. A Inter precisaria vencer para não depender de ninguém na última rodada. Mancini precisou colocar Zlatan Ibrahimovic, sem plenas condições físicas, para entrar em campo e dar a vitória – e o título – com dois gols no segundo tempo. A Inter levava o título, mas a sensação era que quase perdeu.

Mourinho chegaria dias depois do fim da temporada em Milão. No dia 2 de junho, em uma coletiva de imprensa pomposa, Mourinho foi apresentado como uma estrela de Hollywood. O técnico desde o começo causou manchetes na imprensa, mas nem sempre por boas razões. Falou frases em italiano logo no seu primeiro dia. O problema é que a expectativa já era alta. Mancini deixava o cargo depois de conquistar dois títulos italianos, o primeiro em 18 anos, e um deles com uma vantagem absolutamente confortável. O que restava a Mourinho era ser espetacular.

Na sua primeira temporada no cargo, Mourinho conquistou o título italiano, mas sofreu na Champions League. Diante do Manchester United, o time sucumbiu. Derrotado em Old Trafford, eliminado nas oitavas de final, terminou a temporada com o título italiano com 10 pontos de vantagem. Como o patamar já era muito alto, pareceu fácil. Era preciso mais. E o relacionamento tumultuado com a imprensa mostrava que a pressão era alta. Havia insatisfações e arestas a serem resolvidas.

A eliminação para o Manchester United deixou Massimo Moratti insatisfeito. “Foi o mais irritado que eu já fiquei e foi o momento que eu realmente disse o que eu pensava”. O técnico poderia sair depois daquela temporada, com o Real Madrid o chamando para trabalhar na Espanha. Moratti, porém, pediu que o português ficasse. “Moratti pediu para ficar e eu disse ‘Sim, porque a razão de por que eu vim para cá foi te dar o sonho da sua vida como presidente’”.

Início da temporada 2009/10

Sneijder abraça Mourinho no ano que trabalharam juntos na Inter

Na sua segunda temporada na Inter, Mourinho fez muitas mudanças no elenco. Adriano tinha saído em abril de 2009, Hernán Crespo e Julio Cruz também deixariam o clube e Luis Figo se aposentaria. Mourinho Wesley Sneijder, sem espaço no Real Madrid; Lucio, que chegou do Bayern de Munique; Goran Pandev, que veio da Lazio; e Marco Branca, diretor de futebol, fez uma aposta arriscada: mandou Leonardo Bonucci, que era uma promessa na época, com 22 anos, para trazer, em um mesmo negócio, Thiago Motta e Diego Milito, sendo que o atacante tinha brigado pela artilharia com Ibrahimovic gol a gol até a última rodada.

Estava longe de ter o nome do sueco, menos ainda o reconhecimento, e já tinha 30 anos. Mas era um jogador bastante consistente e tinha mostrado isso. Em janeiro, no meio da temporada, chegou Pandev, sem badalação e vindo de graça da Lazio, se tornaria titular na reta final. Aliás, todos esses seriam titulares do time que entraria para a história.

A principal transferência, porém, veio de uma saída doída para os torcedores. Zlatan Ibrahimovic foi vendido por € 49,5 milhões e mais Samuel Eto’o para o Barcelona. O elenco ainda tinha jogadores experientes, como Javier Zanetti, já com 36 anos, Ivan Córdoba, com 33, Dejan Stankovic, 31 anos, Esteban Cambiasso e Julio Cesar, ambos com 30 anos.

“Há diferenças perspectivas de jogadores quando eles estão chegando ao final das suas carreiras”, afirmou Mourinho em entrevista ao Athletic. “Há os jogadores que apenas querem estar ali por mais alguns anos nos seus contratos, alguns milhões a mais antes que eles saiam. E há outros caras com uma diferente perspectiva que é: me deixe chegar ao ponto alto da minha carreira, me deixe tentar e fazer alguma coisa que eu nunca fiz. Eu acho que esse era o ponto”.

“Os que eram regulares no time eram fantásticos. Mas aqueles que não eram regulares (Materazzi, Francesco Toldo, Paolo Orlandoni e Cordoba), os que não jogavam muito. Eles estavam sempre lá pelo time, sempre lá para os mais jovens, sempre lá pelo técnico, sempre lá para ajudar. Foi realmente uma conquista fantástica e uma das razões pelas quais eu estava tão feliz. Eu senti que minha alegria e minhas emoções não eram sobre mim, era sobre elas. Não era sobre eu conquistar a minha segunda Champions League, era sobre realizar os sonhos deles”, disse Mourinho.

Eto’o foi uma peça-chave para Mourinho. E conquistar a confiança do camaronês foi um trabalho de bastidores. Ele era o camisa 9 do Barcelona, que tinha conquistado a Tríplice Coroa pelo clube sob o comando de Pep Guardiola. Mas havia conflitos internos e, além disso, Ibrahimovic era muito desejado na Catalunha e correspondia o interesse. Materazzi, um líder da Inter, mesmo sendo reserva, mandou mensagem para o atacante do Barcelona. “Se você vier, ganharemos tudo”.

Mourinho também fez a sua parte. Mandou uma foto da camisa 9 da Inter com a mensagem: “É sua. Esperando por você”. Em uma troca fantástica, a Inter mandou Ibrahimovic para o Camp Nou, recebeu € 49,5 milhões e ainda ganhou Eto’o como substituto. Um jogador provado, experiente, de qualidade, e que ainda repôs a saída de Ibrahimovic. “É estranho que Samuel, durante toda a sua carreira, nunca tenha ganhado uma Bola de Ouro”, disse Mourinho ainda ao Athletic. Ibrahimovic duraria só uma temporada na Catalunha. Eto’o, bem, esteve na maior temporada da história do time azul e preto de Milão.

O mercado da Inter foi muito efetivo em campo. Wesley Sneijder não chegou para a pré-temporada, mas só depois de ver que ia sobrar no Real Madrid, que contratou dois dos melhores do mundo, Cristiano Ronaldo, do Manchester United, e Kaká, do Milan. No dia 29 de agosto, Sneijder chegou a Milão para vestir a camisa 10 da Inter e estreou sem nem treinar contra o Milan. Uma categórica vitória por 4 a 0 contra o rival da cidade em que ele teve uma boa participação.

“Wes foi incrível naquela temporada. No mesmo ano que ele ganhou a Tríplice Coroa, ele joga a final da Copa do Mundo”, disse Mourinho. Sneijder teve o melhor ano da sua carreira: foram seis gols na Champions League e ainda foi artilheiro da Copa do Mundo junto com o alemão Thomas Müller na África do Sul. E, mesmo assim, não ficou nem entre os três melhores na disputa da Bola de Ouro. Messi levaria o prêmio, que teve Andrés Iniesta e Xavi Hernández como companheiros de pódio.

Uma caminhada difícil na Europa

O bom time montado pela Inter não trouxe segurança na Champions League, principal objetivo do time. A Inter foi sorteada no Grupo F, com o então campeão europeu Barcelona. Tinha também Rubin Kazan, da Rússia, e Dynamo de Kiev, da Ucrânia. A estreia do time, no dia 16 de setembro, foi um 0 a 0 com o Barcelona em San Siro. Fora de casa, contra o Rubin Kazan, empatou por 1 a 1, em um frio cortante. Na terceira rodada, novamente em casa, empatou com o Dynamo Kiev.

A situação da Inter na quarta rodada da Champions League, no dia 4 de novembro, era dramática. Sem uma vitória sequer, abria o segundo turno dos jogos dentro do grupo com a faca no pescoço. No intervalo daquele jogo, o Dynamo de Kiev vencia por 1 a 0, com de Andryi Shevchenko. Uma derrota seria praticamente um veredito de uma eliminação precoce, o que seria um fracasso retumbante.

A Inter estava longe de ser um dos favoritos à conquista da Champions. O Barcelona liderava as apostas, seguido pelo Real Madrid, reforçado por dois jogadores recentemente eleitos os melhores do mundo. A Inter passava ao largo disso e, pelo que vinha conseguindo na fase de grupos, não parecia uma avaliação incorreta. Mas aquele intervalo do jogo contra o Dynamo de Kiev, na Ucrânia, mudou tudo.

“Rapazes, neste momento nós estamos sendo eliminados da Champions League. Nós não estamos interpretando o jogo bem. Nós temos que mudar. Então, nós iremos jogar com três atrás: você, Pupi [Zanetti] com Lucio e Maicon. [Walter] Samuel, você vai jogar um pouco mais à frente, ao lado de Thiago Motta no meio-campo. Cambiasso, você vem para o banco comigo. Sneijder, você vai ficar mais à frente, fique calmo, jogue bem à frente e chute algumas vezes. Milito, eu quero que você faça sombra com Sneijder na frente. Balotelli e Eto’o, vocês vão ficar abertos pelos lados. Entenderam? Eu quero vocês aberto. Se vocês forem para lá, o Dynamo irá segui-los e a defesa irá se abrir. Isso vai criar espaço no meio para Wesley e Diego”, disse Mourinho. A Inter melhorou, foi sofrido, mas virou, no fio da navalha, o jogo para 2 a 1.

“As pessoas focam na semifinal e na final, mas nós tivemos uma trajetória difícil. Para começar, nós tivemos Barcelona na fase de grupos, o que obviamente cria uma situação difícil para ser o primeiro do grupo. Então, o objetivo se torna tentar e se classificar, porque é claro que o Barcelona é um time que irá se classificar. Nós tivemos que lutar e tivemos uma boa vitória contra o Dynamo de Kiev naquele grupo, nós tivemos uma partida difícil na Rússia no inverno [empate por 1 a 1 com o Rubin Kazan], não foi fácil”, conta Mourinho.

Depois daquela vitória na Ucrânia, a Inter de Mourinho perderia do Barcelona no Camp Nou por 2 a 0 na rodada seguinte e ainda ficaria arriscado de não classificar. Faria um confronto direto com o Rubin Kazan na última rodada, em Milão. Venceu por 2 a 0, com  gols de Eto’o e Balotelli, e garantiu o segundo lugar no grupo e um lugar nas oitavas de final.

Sneijder marca o gol da vitória da Inter contra o Dynamo de Kiev em 2009

Flexibilidade tática

Mourinho conta um aspecto que ele disse na sua primeira conversa com o time. “Pensar é o segredo. Vocês serão treinados para pensar. Vocês se tornarão melhores ao pensar. Vocês pensarão sobre as táticas que eu der a vocês. Vocês irão jogar futebol pensando. Vocês entendem? Um jogar que não pensa não pode jogar futebol”.

Com isso em mente, a Inter se tornou um time flexível taticamente. Os jogadores entenderam que precisavam ter diferentes papéis dependendo do jogo. Zanetti, por exemplo, jogava tanto no meio-campo como nas laterais. Samuel Eto’o foi o principal símbolo disso. Um centroavante característico ao longo de toda a sua carreira, ao longo da temporada ele precisou se adaptar a um papel atuando mais aberto, fazendo muito trabalho defensivo em alguns momentos.

“Na liga italiana, nós predominantemente jogávamos em um 4-4-2 com um diamante no meio-campo e Samuel [Eto’o] jogando como atacante com Milito”, explica Mourinho. “Mas então eu sabia que, indo para a Champions League, havia times muito bons atacando com os laterais, times que possivelmente se sentiam melhores do que nós, times que não estavam jogando defensivamente, como muitos times na Itália faziam contra nós”, contou Mourinho.

“Eu senti que jogar com times como Chelsea e Barcelona, os melhores times, nós precisávamos dar um equilíbrio diferente ao time. Então eu pensei em jogar com dois meio-campistas em frente à linha defensiva e dar mais largura aos pontas iria criar um controle melhor dos jogos. Mas, para isso, eu precisava ou sacrificar algum dos meus atacantes ou eu precisaria adaptá-los a um papel diferente. No fim, nós estávamos jogando com três atacantes, Milito, Pandev e Eto’o. Mas Milito jogava centralizado, Eto’o vinha da esquerda e Pandev, um jogador canhoto, vinha da direita”, explicou ainda o técnico português.

“Eles criaram muitas chances, todos os três poderiam fazer um gol, todos os três me davam o que o time precisava, que era o equilíbrio defensivo. Nós tínhamos dois jogadores posicionais no meio-campo, então tínhamos Pandev, Sneijder, Milito e Eto’o; quatro jogadores de ataque, mas dando ao time o equilíbrio que nós precisávamos”.

A dureza dos confrontos no mata-mata

Samuel Eto’o comemora o gol da vitória da Inter contra o Chelsea, em 2010

O Chelsea era favorito contra a Inter. Era o ex-time de Mourinho, do qual ele foi demitido no meio da temporada anterior. O elenco era recheado de jogadores de peso, como John Terry, Michael Essien, Frank Lampard, Didier Drogba, Petr Cech, John Terry e ainda contrataram Nicolas Anelka. O técnico era Carlo Ancelotti, contratado junto ao vitorioso Milan que ele tinha levado a dois títulos da Champions, em 2003 e 2007.

Por tudo isso, a Inter sabia que precisava ganhar o primeiro jogo, fosse como fosse. A vitória por 2 a 1 em San Siro veio, mas o gol do Chelsea, conquistado depois da Inter abrir 2 a 0 no placar, era visto por muitos como uma pá de cal nas esperanças interistas de avançarem por causa do gol fora de casa. Uma vitória simples, por 1 a 0, daria a vaga nas quartas de final ao Chelsea.

Só que no jogo de volta, a Inter viveu um momento definidor naquela campanha. O time segurava um 0 a 0 em Stamford Bridge em um jogo muito tenso. Aos 78 minutos, 33 do segundo tempo, Eto’o marcou um gol que deu a vitória por 1 a 0 e a classificação à Inter de Mourinho. O português eliminava o seu ex-time. A Inter derrubava um dos favoritos ao título. Finalmente, se colocava entre os candidatos.

O sorteio foi benevolente com a Inter. O adversário dos italianos acabou sendo o CSKA Moscou, que tinha também dado um pouco de sorte no sorteio eliminado o Sevilla nas oitavas de final. A Inter não deu chance para o azar, aproveitou a porta aberta pelo destino e eliminou os russos com duas vitórias por 1 a 0. Mais uma barreira superada. A semifinal seria o próximo passo dos comandados por Mourinho.

Na semifinal, o adversário seria o Barcelona. Aquele mesmo, que foi adversário na fase de grupos, que venceu com certo conforto o jogo naquela mesma temporada no Camp Nou. Aquele time, que tinha tirado Ibrahimovic de San Siro e que tinha o novo melhor do mundo, Lionel Messi.

O jogo de ida teve um fator inesperado. O vulcão Eyjafjallajokull entrou em erupção e criou uma nuvem de fumaça pela Europa, o que impediu vários voos. Por isso, o Barcelona precisou ir até Milão em um ônibus. O Barcelona ainda saiu em vantagem com um gol de Pedro, mas a Inter virou com uma grande atuação coletiva e gols de Sneijder, Maicon e Milito, sacramentando um placar de 3 a 1 (com o último desses gols em impedimento, ainda que em uma posição muito difícil).

O time mereceu um resultado contundente contra um time que era o favorito, mais uma vez. E um resultado ainda melhor do que tinha sido contra o Chelsea, nas oitavas de final. A grande atuação foi minimizada pelos efeitos da viagem do Barcelona, mais desgastante do que ir de avião.

Sneijder comemora o gol da Internazionale contra o Barcelona (Foto: Getty Images)

O jogo de volta seria um dos mais épicos da história da Champions League. Thiago Motta tomou o segundo cartão amarelo depois de uma simulação de Sergio Busquets, que rolou no chão. Expulso, deixou a Inter com um a menos. Seria uma loucura jogar da mesma forma que foi o primeiro jogo. Por isso, a Inter se defendeu como nunca. Eto’o, aberto pela esquerda, precisou defender como um lateral.

A Inter não queria a bola. Tentou controlar os espaços e, assim, controlar o jogo. O Barcelona teve 86,4% de posse de bola. No final do jogo, Gerard Piqué, adiantado como um centroavante, conseguiu marcar o único gol do jogo. Foi insuficiente. Com unhas e dentes, os nerazzurri perderam por 1 a 0, mesmo atuando por mais de 60 minutos com um jogador a menos. No placar agregado, venceram por 3 a 2. Os jogadores tinham conseguido o que parecia um milagre: pararam o melhor time do mundo, fora de casa, e garantir um lugar na final da Champions League.

“O que eles fizeram em Barcelona, jogando com 10 jogadores por mais de uma hora… Isso vai além da tática, além da organização defensiva. É muito mais fundo que isso. Isso vai além do futebol. Vai para o lado humano disso”, diz Mourinho, que ao final do jogo, correu para dentro de campo, com o dedo apontando para o alto, onde estavam os torcedores da Inter. O Barcelona ligou a irrigação do gramado. O assistente de Mourinho na época, José Morais, descreveu como “o melhor banho da sua vida”.

“Eu nem senti. O jogo acabou, todo mundo reagiu de maneiras diferentes. Havia pessoas chorando. Havia pessoas de joelhos. Tínhamos pessoas completamente exaustas no chão. Nós tínhamos pessoas correndo e eu corri para os nossos torcedores porque eu sabia o quanto significava para eles. Então, quando nós estávamos aproveitando, eles [Barcelona] não reagiram da melhor forma, o que não reflete a dimensão do clube, um clube onde eu fui tão feliz no período que eu trabalhei lá, um clube que eu sei que tem muita classe. Mas às vezes, quando nós estamos decepcionados nós podemos ter reações emotivas. Não é problema, de modo algum, é apenas uma boa memória”.

Mourinho comemora a classificação diante do Barcelona, no Camp Nou

Na Itália, domínio: Copa da Itália e scudetto

Naquele momento, a Inter tinha retomado a liderança da Serie A, que tinha sido perdida no começo de abril. Não só estava em primeiro novamente na corrida pelo scudetto, como tinha garantido um lugar na decisão da Copa da Itália, depois de vencer por duas vezes a Fiorentina. Com isso, os nerazzurri tinham uma chance única: ganhar os três títulos possíveis na temporada e conquistar uma tríplice coroa, algo inédito no futebol italiano.

A caminhada começou no dia 5 de maio. Em Roma, a Inter enfrentava a sua grande adversária doméstica na temporada: a Roma. Em um jogo apertado, Diego Milito fez o gol da vitória por 1 a 0, que deu o primeiro título daquela temporada da Inter, o de campeão da Copa da Itália.

O próximo passo era garantir a conquista do Campeonato Italiano. A temporada estava apertada. A Roma tinha tomado a liderança no começo de abril e a Inter dividia atenções com a Champions League. Mas o time de José Mourinho mostrou personalidade. Depois do empate por 2 a 2 com a Fiorentina, no dia 10 de abril, a Inter não deu mais sopa para o azar. Venceu todos os jogos até o fim da temporada italiana. Foram cinco jogos, cinco vitórias. Uma derrota da Roma a três rodadas do fim, para a Sampdoria, no Estadio Olimpico, permitiu ao time de Mourinho retomar a ponta.

No dia 16 de maio, na rodada final da Serie A, a Inter tinha dois pontos de vantagem para a Roma. Precisava de uma vitória para não depender de outros resultados, já que perdia no confronto direto com a Roma. Assim, na rodada final, fora de casa contra o pequeno Siena, era preciso vencer. Com um gol do decisivo Diego Milito, a Inter venceu por 1 a 0 e conquistou o seu 18º título da Serie A. Faltava só um jogo na temporada.

A final da Champions e a consagração de Milito

Milito chuta para marcar o segundo gol da Inter contra o Bayern na final da Champions 2010

A Inter vinha de dois títulos domésticos e tinha o sonho de conseguir a taça que não conquistava havia 45 anos. Só que do outro lado, o sonho também existia. O Bayern tinha conquistado o título da Copa da Alemanha e da Bundesliga. Assim como a Inter, chegava para a final da Champions League, em Madri, com o sonho de uma Tríplice Coroa.

O Bayern tinha conquistado o título europeu na temporada 2000/01, em uma inesperada final contra o Valencia. Desde então, nunca mais voltou ao topo do continente, mesmo com um amplo domínio na liga doméstica. Dos nove títulos em disputa desde a temporada que conquistou a Europa, o Bayern tinha vencido cinco, incluindo 2009/10, quando superou a concorrência do Schalke 04 na corrida pela salva de prata.

O time bávaro tinha como técnico o holandês Louis van Gaal e teve reforços importantes. Contratou o centroavante Mario Gómez, do Stuttgart; Arjen Robben, do Real Madrid; Ivica Olic, do Hamburgo; e promoveu um jogador de 19 anos que passaria a brilhar intensamente a partir daquela temporada: Thomas Müller.

O clube alemão também passou por maus bocados ao longo da competição europeia. Na primeira fase, passou em segundo lugar no grupo A, atrás do Bordeaux. Tinha se classificado trucidando a Juventus na última rodada da fase de grupos, em uma goleada por 4 a 1 que jogou a Velha Senhora para a Liga Europa.

No mata-mata, a situação foi muito tensa. Depois de uma vitória por 2 a 1 contra a Fiorentina em Munique, conquistada com um gol de Miroslav Klose aos 44 minutos do segundo tempo, a volta foi emocionante. A Fiorentina abriu 2 a 0 com gols de Juan Vargas e Jovetic, placar que seria suficiente para classificar os italianos. O Bayern descontou com o volante Mark van Bommel, o que igualava tudo no placar agregado.

Jovetic marcou o terceiro gol da Fiorentina e dava a vaga para o time de Florença, levando o Estádio Artemio Franchi abaixo. Só que o Bayern tinha Arjen Robben. O camisa 10 fez um gol à sua característica, puxando da direita para o centro e soltando um petardo de pé esquerdo. A derrota por 3 a 2 classificava o Bayern às quartas de final.

As quartas de final foram contra o então forte Manchester United. Depois de uma vitória por 2 a 1 em Munique, mais uma vez os bávaros tinham que decidir fora. Em 10 minutos, a vantagem tinha sido trucidada pelos comandados de Alex Ferguson, que já venciam por 2 a 0. No final do primeiro tempo, o Manchester United chegou a fazer 3 a 0. Só que antes do intervalo Olic descontou, recolocando o Bayern no jogo.

No segundo tempo, mais uma vez Robben salvou. No rebote de um escanteio, mais uma vez o holandês fez sua jogada característica, puxou da direita para o meio e soltou uma bomba para marcar e decretar o placar de 3 a 2. Mais uma vez, o time alemão avançava pelos gols fora de casa.

A semifinal foi o momento mais tranquilo da trajetória do Bayern. Venceu duas vezes o Lyon, por 1 a 0 em casa e por 3 a 0 na França, e garantiu o seu posto na decisão do título, em Madri. Era hora de encontrar a Inter de Mourinho. O time alemão tinha potencial, mas os italianos estavam prontos para escrever um novo capítulo da história.

Diante de 73.490 pessoas, a Inter venceu o confronto por 2 a 0, com dois gols de Diego Milito. O argentino marcou o primeiro aos 35 minutos do primeiro tempo e aos 25 minutos do segundo tempo. O placar, tranquilo, não pareceu em risco em nenhum momento. Milito fechava a temporada mágica com 30 gols e tendo marcado os tentos decisivos nas três competições, Copa da Itália, Serie A e Champions.

A Inter, então, tinha tudo: a desejada Tríplice Coroa se tornou uma realidade. A taça da Europa era de novo da Inter. Moratti tinha cumprido o seu sonho, dando ao clube um título europeu, como seu pai, Angelo, fez com outro técnico estrangeiro, o argentino Helenio Herrera, comandante da chamada “Grande Inter”. Curiosamente, um mestre da defesa. Uma fonte que Mourinho talvez tenha bebido algum dia.

Milito, o jogador mais decisivo do time naquela reta final, recebeu muitos elogios de Mourinho. “Ele foi fenomenal. Quando nós falamos sobre a tríplice coroa, nós falamos especialmente sobre as últimas três partidas onde tudo é decidido. Ele marcou o gol na final da Copa, o gol da vitória contra o Siena e nossos dois gols na final da Champions League em Madri. Incrível”, disse o treinador.

Mourinho se torna uma lenda da Inter

José Mourinho, quando era técnico da Internazionale, em 2010 (AP Photo/Antonio Calanni, File)

Aos 57 anos, Mourinho tem uma leva imensa de títulos no seu vitorioso currículo. Ganhou títulos em Portugal, na Inglaterra, na Itália, na Espanha. Quando ele fala da Inter, porém, o sorriso aparece no rosto de um treinador tão conhecido por ser marrento, por suas respostas atravessadas e por vezes mal humoradas.

“Eu estava no melhor da minha carreira quando eu me sentia em casa, onde eu podia sentir as emoções do meu grupo, onde eu estava 200% com o meu coração”, contou Mourinho em uma entrevista à Gazzetta dello Sport. “É por isso que, no dia 22 de maio em Madri, eu estava contente em viver a alegria dos outros, desde Moratti até as pessoas trabalhando no clube”.

“Eu já tinha ganhado uma Champions League. Eu costumava pensar primeiro em mim, depois nos outros. Na Inter, nunca foi assim. Em uma família, quando você se torna um pai você entende que alguém é mais importante que você e então você vai para segundo lugar”, contou ainda o treinador.

“Dez anos depois, nós estamos todos juntos de novo. Outro dia mesmo eu falei com Alessio. No meu tempo, ele era o motorista. Onde e quando acontece de um treinador que saiu, 10 anos depois ainda fala com o motorista? Nunca. Isso é a Inter para mim, isso são as minhas pessoas”, continuou.

Mourinho sequer voltou para Milão depois do título. A equipe comemorou sozinha. Ele ficou em Madri, onde já tinha um acordo com o Real Madrid. Assinaria contrato poucos dias depois com a equipe da capital da Espanha. Nem sequer voltou ao vestiário depois da vitória em campo. A única despedida foi um abraço emocionado em Marco Materazzi, um reserva que era muito próximo do treinador.

“Se eu tivesse voltado de Madri para Milão, com o time ao meu redor e os torcedores que teriam cantado ‘José, fique conosco’, talvez eu nunca tivesse saído”, revelou Mourinho. “eu queria ir para o Real Madrid, eles me queriam no ano anterior. Eu fui para a casa de Moratti para contar para ele e ele me impediu de sair. Eu já tinha rejeitado o Real Madrid quando eu estava no Chelsea e você não pode rejeitar três vezes o Real Madrid”, contou.

“Eu decidi que iria sair depois da segunda partida semifinal contra o Barcelona, porque eu sabia que ganharíamos a Champions League. Eu preparei Moratti: sem palavras, a temperatura do nosso abraço em campo fez ele entender o que eu queria. Ele disse: ‘Depois disso, você tem o direito de sair’. Foi correto fazer o que eu queria, não ser feliz. Na verdade, eu era mais feliz em Milão do que em Madri”, revelou Mourinho.

Por mais títulos que Mourinho tenha, o carinho que o técnico português tem pela Inter e por tudo que significaram aqueles dois anos no clube é algo além do futebol. E estará sempre no coração do técnico. E ele no coração dos torcedores, algo que ele mesmo já pôde sentir a cada vez que voltou a Milão. Ele escreveu uma história fantástica e única. São apenas oito clubes que conseguiram conquistar a Tríplice Coroa. E só o Barcelona a conquistou duas vezes, a última delas em 2014/15. Mourinho saiu da Inter, mas entrou na galeria de lendas. De lá, ele não sai nunca mais.