A Internazionale foi criada como uma dissidência do Milan, que não aceitava jogadores estrangeiros. O nome do clube vem daí, com o intuito de integrar imigrantes e pessoas de outras nacionalidades que viviam na Itália na época. Nesta terça-feira, o clube talvez viva o seu momento mais internacional. O presidente Massimo Moratti assinou a venda de 70% das ações do clube para o grupo de Erick Thohir, empresário da Indonésia que negociava a aquisição há algum tempo. A venda fará entrar dinheiro nos nerazzurri, mas não significa que o clube se tornará um Chelsea ou Manchester City. Não imediatamente, ao menos.

Assim como outros clubes italianos, a Inter sentiu a crise econômica da Itália. Há alguns anos o país tem sofrido e o impacto no futebol tem afetado os clubes nos últimos anos. Mesmo no caso dos grandes, Juventus, Milan e Inter, que possuem donos ricos, a capacidade de investimento diminuiu. Os times italianos como um todo caíram de nível e isso se viu nas competições europeias. Em 2010, a vitória da Inter na Liga dos Campeões veio de forma inesperada. Os 2 a 0 na final contra o Bayern impediram que o país perdesse uma vaga na principal competição europeia naquele ano. Mas a queda seria inevitável na temporada seguinte – e se mantém assim até agora, com três, ao invés de quatro vagas para a principal competição de clubes da Europa.

O Milan consegue chegar à fase do mata-mata da Liga dos Campeões sistematicamente, mas não tem força para ir além das quartas de final, com alguma sorte. Na temporada passada, caiu nas oitavas, contra o Barcelona – já tinha caído nas quartas no ano anterior para o mesmo Barça. A Juventus parou nas quartas na temporada passada, quando voltou à competição. O time se reforçou e é o único time italiano capaz de chegar a uma semifinal se tiver alguma sorte no sorteio. Pensar além disso ainda é um sonho. Os times italianos ficaram para trás nas contratações, perderam suas estrelas e vivem situação complicada, com seu campeonato menos valorizado que outros como Premier League, Bundesliga e La Liga.

Não é só uma questão financeira, mas de organização, de estádios, de modelos de negócio. Os públicos na Itália são ruins, os estádios obsoletos e ps clubes sofrem para conseguirem aumentar suas receitas. A Juventus foi a primeira a tomar uma atitude quanto a isso e construiu o seu próprio estádio. Roma e Inter já têm planos nesse sentido para um futuro próximo. Não devem ser os únicos a fazer isso a médio e longo prazo.

A entrada de Thohir não irá mudar radicalmente a Inter. Massimo Moratti é especulado para continuar como presidente. O brasileiro Leonardo tem grandes chances de voltar a trabalhar no clube como diretor esportivo, provavelmente no lugar de Marco Branca, que ocupa o cargo atualmente. A suspensão que o brasileiro tinha recebido na França, de 18 meses, se estendia para outros países europeus, mas foi revogada justamente com o argumento que a liga francesa não poderia manter o gancho se ele deixou os clubes do país. Vale lembrar também que Leonardo é casado com uma apresentadora de TV italiana que mora em Milão e o ex-jogador diz que a cidade é “sua casa”.

Segundo o jornalista Gianluca Di Marzio, os planos imediatos de contratações não mudam. O técnico Walter Mazzarri quer um lateral e não faz questão de manter Álvaro Pereira, que deve sair caso surja uma proposta. Os laterais esquerdos argentinos Emiliano Insúa, reserva no Atlético de Madrid, e Cristian Ansaldi, do Zenit, são especulados para chegar. Na direita, especula-se Sime Vrsaljko, que está no Genoa, mas a negociação deve ser apenas para a próxima temporada. No meio-campo, as negociações por Radja Nainggolan devem ser retomadas com o Cagliari, assim como as tratativas com Fernando, do Porto, que tem contrato até o fim da atual temporada e pode chegar de graça para a próxima.

Thohir quer uma Inter jovem, renovada. Coincidentemente, os contratos de diversos dos veteranos do clube se encerram no fim da temporada: Luca Castelazzi, Walter Samuel, Cristian Chivu, Javier Zanetti, Esteban Cambiasso e Diego Milito. Wallace, lateral direito que veio emprestado pelo Chelsea, e Rolando, emprestado pelo Porto, devem voltar aos seus clubes ao final da temporada. Somando os veteranos sem contrato e os jogadores emprestados, a Inter pode ter que repor oito jogadores no elenco. A política de contratação de jovens deve continuar, mas com o orçamento maior na janela de transferências de julho de 2014, podem pintar nomes um pouco mais consagrados. Mas não dá para esperar grandes estrelas do futebol mundial, como era comum acontecer até o início dos anos 2000.

O indonésio Thohir tem ligação com o esporte em outras áreas. É dono de parte do DC United, clube americano da capital Washington. Foi vice-presidente do Comitê Olímpico da Indonésia e foi chefe de delegação da Indonésia na Olimpíada de 2012. Sua atividade principal é ser o líder da empresa de investimentos Mahaka Group, baseado em Jacarta. Trabalha no setor de entretenimento e mídia, incluindo TV, rádio, mídias digitais e jornais. Rosan Roeslani é também indonésio e empresário de diversos ramos, como bancário e financeiro, infraestrutura, imobiliário e turismo. Também é um dos donos do DC United, junto com Thohir. Por fim, Handy Soetedjo é sócio de Thohir no Mahaka Group, e empresário que atua nos setores de energia, como carvão, petróleo e gás natural, além do setor imobiliário e de mídia. Ainda no esporte, esteve envolvido na compra do Philadelphia 76ers, franquia da NBA.

“Erick Thohir, Rosan Roeslani, Handy Soetedjo e a família Moratti irão trabalhar juntos para garantir um futuro vencedor e fazer o clube ainda mais competitivo na Itália, na Europa e no resto do mundo, alinhado com a filosofia do clube desde a sua concepção em 1908 quando seus fundadores decidiram chamar a si mesmos de ‘irmãos do mundo'”, diz o comunicado da Internazionale sobre a venda.

Por tudo isso, a linha de trabalho não deve mudar muito, ainda que o orçamento possivelmente deva aumentar. Moratti deve continuar tendo alguma força nas decisões, mesmo que Thohir tenha a palavra final a partir de agora. Boa parte dos€ 270 milhões pagos por Thohir serão usados para sanar as finanças do clube, o que é mais um motivo para não esperar grandes gastos a curto prazo. O investimento no estádio deve ser acelerado para estar pronto em 2017, como era o plano inicial. Nesse tempo até lá, os investimentos no clube devem ser para manutenção do elenco e reforços para construção de um time que dure, seguindo algo parecido com o que faz a Juventus. Isso, claro, se a pressão por resultados não mudar os planos, como aconteceu muitas vezes nos primeiros anos de Massimo Moratti no comando do clube.