Paz e Internazionale são palavras que não combinam há, pelo menos, dois anos e meio. Após a saída de José Mourinho, a equipe tem passado por momentos conturbados e, agora, no auge da renovação, não é diferente. Uma temporada cheia de altos e baixos, no entanto, pode acabar de forma melancólica, depois das lesões de Palacio e Cassano e as baixas chances de chegar à Liga dos Campeões. O clube busca minimizar os danos e guardar o que aconteceu de bom para a próxima temporada.

Em qualquer processo de renovação, a irregularidade anda ao lado. Não há como mudar totalmente uma estrutura já consolidada e começar uma outra, praticamente do zero, sem passar por percalços. Na Serie A, quatro equipes passam por processo de renovação: além de Inter, também Fiorentina, Milan e Roma. Todas elas tiveram momentos de baixa – algumas, como Inter e Roma, não conseguiram se livrar da irregularidade.

Antes de tudo, é importante comentar de que forma os clubes estão construindo as suas renovações. Milan, Fiorentina e Roma conduzem um processo em que dinheiro não é lá problema. Os rossoneri venderam Thiago Silva e Ibrahimovic, mas contrataram Balotelli por cerca de  20 milhões. El Shaarawy, contratado no ano anterior, custou € 10 milhões. Além disso, Allegri foi mantido no comando do time.

Já a Fiorentina investiu em um dos técnicos mais promissores do campeonato com a contratação de Montella, e deu a ele um novo elenco – ao todo, foram contratados 18 jogadores, incluindo Borja Valero, que se juntou a Jovetic como dono do time. O Milan começou o campeonato muito mal, se acertou em meados de outubro e, com a chegada de Balotelli, se credenciou à vaga na Liga dos Campeões. A Fiorentina, ao contrário, começou voando e teve fase de queda durante dois meses de 2013, até voltar a se estabilizar.

A Roma, por sua vez, contratou um novo time quase inteiro para a última temporada – foram quase € 100 milhões gastos, ao todo. No entanto, apostou mais alto duas vezes, com as contratações das incógnitas Luis Enrique (apenas treinou o Barcelona B, na segundona espanhola) e Zeman (fora da Serie A há mais de cinco anos). Não vem colhendo os frutos e dificilmente voltará à LC agora. As chances de voltar à Liga Europa existem, mas a Roma só se equipara em tropeços à Inter – justamente a equipe que tem passado por um processo mais similar ao seu nos últimos anos.

De semelhante à equipe romana, a Beneamata tem a aposta em um técnico pouco rodado (Stramaccioni) e a falta de resultados convincentes. Hoje, os interistas têm a segunda pior defesa entre os 10 primeiros colocados, perdendo só para a Roma, e também o segundo pior ataque entre as 6 primeiras equipes do campeonato – só o da Lazio marca menos.

Por outro lado, o clube não goza de muita verba para contratações. O presidente Moratti busca diminuir as despesas e a sociedade só contrata quando vende jogadores de alto valor no mercado – alguns, talvez, tenham demorado demais para serem negociados. Foi assim que as vendas de Balotelli, Júlio César, Maicon, Coutinho, Pandev e Sneijder financiaram as chegadas de Palacio, Kovacic, Pereira e Guarín, os únicos jogadores contratados por valores superiores aos 10 mi nas duas últimas temporadas.

O clube tem buscado gastar pouco ou nada e o perfil dos jogadores já acertados para 2013-14 diz muito: Campagnaro, Andreolli, Laxalt e Botta não custaram à Inter mais que € 4 milhões somados. Apenas Icardi, que deve acertar com os nerazzurri ao fim da temporada, pode custar mais – fala-se em  13 mi, que a Inter busca abater com a inserção de jogadores no negócio.

É, de certa forma, curioso ver como a Inter pensa tanto no futuro mesmo com um presente absolutamente indefinido. Stramaccioni, dizem os jornais italianos, só não permanece caso Mourinho deseje retornar à Milão – nem mesmo Mazzarri, que pode sair do Napoli, faria Moratti mudar de ideia. Não só porque o salário de Strama é menor que o dos outros ou porque ele já indicou as contratações que foram feitas, mas porque o chefão nerazzurro acredita que Stramaccioni é um treinador em evolução, que acabou atrapalhado por diversos erros internos (lesões, erros de mercado, má gestão do caso Sneijder) e externos (erros de arbitragem, sobretudo). No ano mais difícil para a Inter pós-triplete, na visão de Moratti, o jovem técnico tem feito o que pode.

Alguns pilares do time que Strama provavelmente comandará ano que vem já estão definidos: Handanovic no gol, Ranocchia e Juan em busca de mais afirmação e solidez no centro da zaga, Kovacic e Guarín no meio, Palacio e Milito (e Icardi?) no ataque. Há um esqueleto de time montado e mesmo se a equipe ficar fora das competições europeias, uma revolução não será necessária. Algumas peças – Cassano, a mais importante delas – podem sair, mas a tendência é que a equipe mantenha a maioria dos jogadores.

No entato, se a Inter pensa no futuro, o presente revela que a sociedade de Moratti perdeu cerca de 60 mi de euros nesta temporada, por causa da ausência na LC – o que significa que mais um ano fora da competição pode comprometer mais as finanças do clube. Alguns sites apontam para a possibilidade de que a Inter venda jogadores mais valorizados, como Handanovic e Guarín, para reinvestir em jogadores mais baratos, mas isto não parece, de fato, entrar nos planos do clube. Mesmo que a não participação na Champions faça com que o clube seja menos atrativo para grandes jogadores.

O presente revela outras coisas, também. Os problemas do departameto médico que tanto atrapalharam Cúper, Mourinho e até mesmo Benítez, Leonardo e Ranieri atrapalham, mais do que nunca, Stramaccioni. Hoje a equipe tem o incrível número de 9 jogadores indisponíveis – por incrível que pareça, já foi maior: chegou a 13. Além disso, Samuel, Silvestre e Álvarez, à disposição de Stramaccioni, também passaram muito tempo afastados. O grande número de desfalques, quase sempre de jogadores importantes, sempre dificultou o trabalho do técnico em dar um padrão técnico e tático mais sólido ao time em campo.

Hoje, com quase todos os jogadores do ataque lesionados, um erro de mercado ficou ainda mais evidente. O clube se desfez de Livaja para ter Schelotto – reserva, jogou apenas 7 partidas na Serie A. Hoje, o atacante croata seria fundamental para dar opção a um ataque com quatro jogadores, todos acima dos 30 anos – ou seja, normalmente mais propensos a lesões e a sofrerem desgaste físico pelo excesso de partidas. Para corrigir erros de mercado, a Inter já ensaia contratar novamente Gabriele Oriali, que formou ótima dupla com Marco Branca, atual diretor esportivo do clube, entre 2005 e 2010.

Após os escandalosos erros do árbitro Gervasoni, a Inter voltou a reclamar da arbitragem, que errou em lances capitais em diversos jogos dos nerazzurri, sobretudo sem marcar pênaltis claros – a Beneamata teve apenas três pênaltis em seu favor durante 2012-13, mais apenas que Catania (2) e Palermo (0).

Certamente, caso os árbitros errassem menos, o ambiente seria melhor não só em Appiano Gentile, mas em qualquer centro de treinamentos do mundo. É verdade também que a Inter poderia ter alguns pontos a mais. E, certamente, é verdade também que o elenco está lidando mal psicologicamente com a falta de competência dos juízes e poderia não buscar tantos álibis para explicar seus fracassos. Nem tudo está perdido e alguns problemas, como a abordagem falha de algumas partidas e os inúmeros erros de posicionamento na defesa podem começar a ser corrigidos. A equipe ainda joga uma semifinal de Coppa Italia contra a Roma e tem sete jogos para buscar uma vaga europeia.

Não se abalar demais quando há dificuldades é algo que acontece com pessoas inexperientes – como boa parte daquelas que está no elenco interista. Não é do dia para a noite que a experiência de Zanetti, Cambiasso, Samuel, Milito, Cassano, Palacio e Córdoba (auxiliar de Stramaccioni) vai passar para jogadores com menos trajetória no futebol. Os erros ensinam muito a qualquer um e é com eles que os atletas e o treinador da Inter deverão aprender para evoluírem e reerguerem o clube. O exemplo mais claro está a menos de 150 quilômetros de Milão, em Turim, com a Juventus que ressurgiu e, depois de sua pior temporada em 50 anos, caminha para o bicampeonato nacional.

Pallonetto

– A arbitragem na Itália continua falhando muito. Gervasoni, que dirigiu Inter 3-4 Atalanta, e Tagliavento, diretor de Fiorentina 2-2 Milan, influenciaram diretamente nos resultados das partidas e ficarão um mês na geladeira. Em um país que viveu tantos problemas de manipulação de resultados, seria importante a tomada de atitudes mais transparentes e rigorosas por parte dos dirigentes, como, por exemplo, obrigar os árbitros a se qualificarem mais.

– No mesmo jogo, Balotelli xingou um dos árbitros auxiliares e acabou recebendo gancho de três jogos. O Milan irá recorrer, mas por enquanto ele está fora das partidas contra Napoli, Juventus e Catania.

– Totti se tornou o maior artilheiro do Dérbi de Roma em jogos disputados pela Serie A. O capitão romanista tem 9 gols, e se igualou a Delvecchio e Dino da Costa. O brasileiro Dino da Costa ainda é o recordista geral, com 11 gols – dois deles marcados pela Coppa Italia.

– Briga por permanência na Serie A esquentou de vez: Genoa, Palermo e Siena estão empatados com 27 pontos e dois deles irão cair. Lanterna, com 21 pontos, o Pescara está quase confirmado na próxima segundona.

– Seleção Trivela da 31ª rodada: Marchetti (Lazio); Astori (Cagliari), Von Bergen (Palermo), Benatia (Udinese); Ilicic (Palermo), Hamsík (Napoli), Bonaventura (Atalanta), Álvarez (Inter); Vucinic (Juventus), Denis (Atalanta), Di Natale (Udinese). Técnico: Giuseppe Sannino (Palermo).