Os primeiros anos da década de 2000 foram dramáticos para a Internazionale. O time buscava o esperado scudetto, que não vinha desde a temporada 1988/89, mas tinha batido na trave algumas vezes. Além disso, os títulos eram raros pelo lado nerazzurri de Milão. Depois da conquista da Copa da Uefa, na temporada 1997/98 – a primeira de Ronaldo pelo clube -, não houve mais taças.

O time chegou a bater na trave na conquista da Serie A em 1997/98, em 2001/02, quando chegou líder à última rodada a perdeu na última rodada com uma derrota para a Lazio, e 2002/03, quando foi vice-campeã. A Copa da Itália tinha sido conquistada pela última vez em 1981/82. Até aquela temporada de 2004/05, com um craque brasileiro no ataque: Adriano.

O brasileiro tinha 22 anos e estava voando. Fazia jus a ser um dos jogadores mais desejados por aqueles que se aventuravam jogando Winning Eleven, ou PES, dependendo em que parte do mundo você estava. O jogo mais recente do game da Konami na época era o Winning Eleven 8 (como conhecíamos aqui na América do Sul e nos Estados Unidos), ou PES 4, para os europeus. Adriano era uma estrela. Os videogames da moda eram o Playstation 2 e o Xbox.

A fama de Adriano não era sem motivo. O atacante fez uma temporada excelente: em 42 jogos, 28 gols marcados, além de cinco assistências. Na Serie A, que a Inter terminou em terceiro lugar, foram 16 gols. Mas seria em outra competição nacional, a Copa da Itália, que a Inter teria uma imensa alegria para sua torcida.

A fila de títulos já durava seis anos e, por isso, a trajetória na Copa da Itália foi ganhando importância ao longo da temporada. A Inter tinha sido eliminada da Champions League em um duelo com o rival Milan, em um jogo que não terminou – depois de um 2 a 0 na ida, o Milan vencia por 1 a 0 na volta e o jogo foi abandonado por um rojão atirado no goleiro Dida, aos 27 minutos do segundo tempo. A partida não foi retomada e foi atribuído o placar de 3 a 0 para o Milan como punição à Inter.

Àquela altura, a Inter estava longe da disputa pelo título da Serie A, com Juventus e Milan com 67 pontos e a Inter com 53, na 30ª rodada. Restava brigar para garantir a vaga na Champions League, mas era só isso. E tinha a Copa da Itália, que acabaria se tornando uma competição muito importante para os interistas, por tudo que viria a significar.

A Inter entrou na disputa da Copa da Itália nas oitavas de final e, naquela época, os duelos eram sempre em ida e volta. No dia 21 de novembro de 2004, a Inter bateu o Bologna por 3 a 1 em casa, gols de Christian Vieri, Álvaro Recoba e Julio Cruz. No dia 12 de janeiro de 2005, mais uma vitória por 3 a 1 e classificação do time, com três gols de Obafemi Martins.

Nas quartas de final, a adversária foi a Atalanta. No dia 27 de janeiro, a Inter venceu fora de casa por 1 a 0, com de Martins. Na volta, em 16 de fevereiro, 3 a 0, com gols de Recoba, Belozoglu Emre e Julio Cruz. As semifinais aconteceram em maio. No dia 12, empate por 1 a 1 com o Cagliari – com Gianfranco Zola marcando pelo Cagliari e Martins pela Inter. Na volta, em San Siro, Vieri marcou dois e Kily González fez outro na vitória por 3 a 1.

A grande final seria disputada em junho daquele ano. A Serie A terminou no dia 29 de maio, com a Juventus campeã, com 86 pontos, o Milan em segundo, com 79, e a Inter em terceira, com 72. A Udinese conquistou a vaga na Champions daquele ano, com o quarto lugar. A Roma não fez uma boa temporada e terminou em oitavo lugar. Por isso, a final valia muito para ambos os lados.

O primeiro duelo, em Roma, teve casa cheia: 73.437 pessoas foram àquela partida no Estádio Olímpico. Os dois times tinham grandes nomes. No lado romanista, o experiente Christian Panucci, o zagueiro Cristian Chivu, futuro interista titular no Tríplice Coroa de 2010, o meio-campista Simone Perrotta, futuro campeão do mundo pela Itália, além de um ataque com o brasileiro Mancini (aquele mesmo, ex-Atlético Mineiro), Antonio Cassano e o grande craque, Francesco Totti. Como técnico, Bruno Conti, o lendário jogador do clube.

O lado interista tinha uma base já muito forte, sedenta por títulos. No gol, Francesco Toldo. Javier Zanetti ocupava a lateral direita, com Marco Materazzi e Sinisa Mihajlovic na zaga. Dejan Stankovic e Steban Cambiasso estavam no meio-campo, com Zé Maria atuando como ponta aberto pela direita e Kily González pela esquerda. No ataque, o rapidíssimo Obafemi Martins e o brasileiro e astro daquele time, Adriano. O técnico interista era Roberto Mancini.

Logo aos quatro minutos, Adriano marcaria o primeiro gol, mas seria anulado pelo árbitro Pierluigi Collina por uma suposta falta. Aos seis minutos, a Roma finalizaria uma bola na trave, um tanto sem querer, com Antonio Cassano, depois de cruzamento de Totti.

Aos 29 minutos, Adriano recebeu uma boal da defesa, girou em cima da marcação, avançou e do meio da rua, arriscou uma bomba de pé esquerdo que venceu o goleiro Gianluca Curci. O goleiro ainda conseguiu tocar na bola, mas foi bem direcionada e muito forte. Não teve jeito: Inter 1 a 0. Pouco depois, aos 35 minutos, cobrança de falta para dentro da área e Adriano, desta vez de cabeça, marcou o segundo: 2 a 0 para a Inter na capital.

A Roma chegaria perto de marcar com Montella, que marcou impedido, depois perdeu uma chance frente a frente com Toldo. Cassano também desperdiçou. Este acabaria sendo o placar do primeiro jogo. Ficaria tudo para o jogo de volta, desta vez em Milão.

Foi no dia 15 de junho de 2005 que o segundo jogo da final seria disputado. Diante de 72.034 pessoas, a Inter entrou em campo com Ivan Córdoba na lateral e Julio Cruz no ataque, porque Adriano já tinha se apresentado à seleção brasileira para a disputa da Copa das Confederações. Sim, os tempos eram outros e se jogava em momentos que os jogadores estavam à disposição das seleções. E naquela Copa das Confederações de 2005, bem, vocês lembram: Adriano arrebentou. 

O segundo jogo, então, disputado em San Siro, só teve um gol. A Roma não conseguiu criar tanto quanto na primeira partida. Aos seis minutos do segundo tempo, Cristiano Zanetti sofreu falta e Sinisa Mihajlovic cobrou com perfeição: golaço do sérvio, que garantiria a taça. Até porque com aquele gol, a vantagem no placar agregado era de três gols.

A Inter, enfim, voltava a levantar uma taça. A primeira de uma série que viria pela frente. A importância daquela conquista foi maior do que o título em si. Um time que gastava tanto e que tinha tantas expectativas altas precisava de conquistas. E aquele foi um momento que mudou os anos que viriam a seguir.

Zanetti falou da importância daquele título em uma carta publicada recentemente:

Você conhece a frase ‘ganhar ajuda você a ganhar de novo’? Quando Iván Córdoba ergueu a Coppa Italia em 2005, era como o troféu da Champions para nós. Algo importante começou ali, uma conscientização: estávamos no caminho certo, que poderia durar por algum tempo – por temporadas, anos. Chega o dia em que você diz: ok, não queremos perder mais. E, na verdade, fomos a Turim e ganhamos a Supercopa Italiana, em um jogo que parecia nunca ter fim.

A disputa da Supercopa da Itália descrita por Zanetti, foi conquistada um pouco depois. Na temporada seguinte, o time voltaria a conquistar a Copa da Itália. Viriam depois os títulos italianos, de Copa da Itália e da Champions League, na temporada 2009/10. A Inter só conquistaria outro título depois da Tríplice Coroa em 2010/11, justamente a Copa da Itália.