O cancelamento da temporada do Campeonato Egípcio pelo segundo ano consecutivo provocou um novo período de incertezas no futebol do país. O panorama atual é desesperador: os clubes, agora em sua maioria sem nenhuma fonte de renda, fazem o que podem para cortar gastos. A federação, que não vê mais um centavo de patrocínio entrar em seus cofres, vive situação financeira igualmente instável e não pode “socorrer” os clubes. O reflexo disso já começa a ser notado no campo: Al Ahly e Zamalek, os dois maiores clubes do país, estão de mal a pior na Liga dos Campeões Africana.

Tudo parece conspirar contra os egípcios. O Ahly, por exemplo, sofreu sua maior derrota como mandante na história da Liga dos Campeões ao perder por 3 a 0 do Orlando Pirates, da África do Sul, no último fim de semana. O jogo, por sua vez, não foi exatamente “em casa”: por conta da turbulência política na capital do Egito, Cairo, o Ahly e os outros clubes egípcios estão mandando seus jogos em El-Gouna, resort que fica a 430 km de Cairo.

Como se não bastasse, o estádio não conta com iluminação artificial, o que força a realização dos jogos pela parte da tarde. Até aí nenhum grande problema, não fosse o fato de coincidir com o Ramadã, período no qual os muçulmanos não podem comer entre o amanhecer e o anoitecer. E como praticamente todos os jogadores do Ahly são muçulmanos, os jogadores simplesmente entram em campo em jejum. No jogo contra o Pirates, por exemplo, ficou muito claro como isso se refletiu na parte física, com o time sul-africano mandando no jogo e aplicando um resultado desmoralizante.

O Zamalek, por sua vez, também tropeçou na rodada. Viajou até o Congo e perdeu para o AC Léopards por 1 a 0. E os resultados dentro de campo não são nem os maiores dos problemas. O clube atravessa uma crise delicadíssima, com salários atrasados e jogadores importantes deixando o clube de forma unilateral, incluindo o artilheiro do time, Abdoulaye Cissé. O Ahly, outrora sinônimo de poder financeiro no Egito, também precisou se desfazer de vários jogadores. O elenco, inclusive, ameaçou fazer greve no mês passado por conta de salários em atraso.

Se a situação dos clubes grandes já não é das melhores, é de se imaginar que os pequenos vivem um período caótico. O Wadi Degla, por exemplo, simplesmente dispensou todos os seus jogadores por conta da incerteza de quando o futebol local será retomado. A federação, que parou de receber dinheiro de patrocinadores, cogita pedir apoio financeiro do Ministério do Esporte.

A crise pode tomar proporções ainda maiores caso respingue na seleção egípcia. Bob Bradley, treinador dos “faraós”, terá trabalho em motivar um grupo que convive com todos esses problemas. Enquanto o país não consegue se reorganizar, o futebol vai pelo mesmo caminho. Neste momento, não há nenhuma perspectiva de que essa situação pode melhorar.

Curtas

– Nos outros jogos da segunda rodada da Liga dos Campeões, o Espérance derrotou o Coton Sport por 2 a 0 e o Sewé Sport, da Costa do Marfim, bateu o Recreativo do Libolo por 3 a 1. Pela Copa das Confederações da África, segundo maior torneio do continente, o principal jogo da rodada foi a vitória do Mazembe sobre o FUS Rabat por 3 a 0.

– Didier Drogba está de volta à seleção da Costa do Marfim. O atacante não era convocado para a seleção marfinense desde a disputa da Copa Africana de Nações e fará seu retorno no amistoso contra o México, que acontecerá em Nova York no próximo dia 14.

– Aspirante à presidência da Federação Camaronesa de Futebol (Fecafoot), Marlene Emvoutou foi presa por fraude. Ela foi transferida para a mesma prisão onde está Iya Mohammed, antigo presidente da entidade e que teve sua reeleição anulada pela Fifa por conta das acusações de desvio de verbas de uma empresa pública. O futuro do futebol camaronês é preocupante.

– Tal como antecipado na última coluna, Isha Johansen foi eleita presidente da Associação de Futebol de Serra Leoa (SLFA). Ela é apenas a segunda mulher a presidir uma federação de futebol em todo o mundo na atualidade, bem como Lydia Nsekera, de Burundi.

– Sua primeira missão no poder será retomar a liga nacional de Serra Leoa, já que os clubes realizaram um boicote ao torneio por conta da anulação da candidatura de todos os adversários de Johansen na corrida presidencial, incluindo a do ídolo Mohamed Kallon.

– Após a polêmica sobre pagamento de bônus que ameaçou a participação da Nigéria na Copa das Confederações, a Federação Nigeriana de Futebol (NFF) reiterou sua decisão de diminuir o “bicho” a ser pago aos jogadores. A justificativa da NFF é a crise financeira vivida pela entidade, que já resultou em demissões e redução de salários de diversos funcionários.

– Yannick N’Djeng está de volta ao Espérance. O atacante retorna ao clube após passar apenas seis meses no Sion, da Suíça, que o comprou junto ao clube tunisiano por 1 milhão de euros no início do ano. O Espérance parece determinado a resgatar a base campeã africana de 2011, já que ainda repatriou o ótimo meia Oussama Darragi.