Mario Gómez pode não ser um jogador unânime. Ainda assim, o centroavante construiu uma carreira respeitadíssima. Passou por todas as seleções de base, disputou uma Copa e três Euros, foi ídolo em diferentes clubes. Sobretudo, marcou muitos gols, quase 300 na carreira. E, aos 31 anos, o matador quer ainda mais. Que não viva o melhor momento no Wolfsburg, o alemão mira o seu futuro na Copa do Mundo de 2018. Continua sendo um dos homens de confiança do técnico Joachim Löw.

Nesta semana, Gómez resolveu recapitular sua história no futebol. E assinou um belíssimo texto no Players’ Tribune, site que publica exclusivamente artigos escritos por atletas e que, na última semana, deu espaço a Ronaldinho Gaúcho. O centroavante ressaltou a importância do pai, um espanhol fanático por futebol, em sua relação com o esporte e relembrou os velhos ídolos, como Okocha e Romário. Além disso, também transitou por diversos momentos da carreira. E fez uma verdadeira ode ao que é ser um goleador. Abaixo, separamos alguns dos melhores trechos. O artigo na íntegra pode ser conferido por este link.

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Meu pai sempre conta esta história particular sobre a minha primeira partida de futebol. Eu tinha quatro anos e não sabia o que estava realmente fazendo. Tudo o que eu sabia é que eu tinha a bola nos meus pés e queria marcar um gol. Então, comecei a driblar e todos os meus companheiros começaram a gritar meu nome.

“Mario! Mario! Mario!”

Eu levava a bola cada vez mais perto do gol.

“Marioooooooo!”

O que há de errado com eles? Por que querem que eu passe? Nenhum dos defensores queria me desarmar. Eu tinha o caminho aberto para o gol.

“Mario!”. Até os pais estavam gritando meu nome agora. “Você está indo para o gol errado! Mario, não!”.

Eu não entendia que tinha um lado certo para ir. Eu apenas vi o gol e queria chutar a bola dentro dele. Eu não tenho essa cena na minha memória, então vocês precisarão aceitar as palavras do meu pai. Mas há duas coisas que eu sei. Uma, é que quando eu tenho a bola nos meus pés, eu sempre quero mandá-la para o fundo das redes. Em segundo lugar? Bem, eu sempre estive inclinado a fazer as coisas do meu próprio jeito. Especialmente quando se trata de futebol.

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Eu não gostava de assistir ao futebol na TV. Era sempre chato para mim. Por que se sentar na frente da tela, quando você pode sair de casa e jogar de verdade?

“Papai, vamos lá fora!”, eu dizia, puxando seu braço. “Vamos jogar!”. Uma noite, quando eu tinha sete ou oito anos, ao invés de me mandar sair, ele me fez sentar ao seu lado.

“Eu quero que você veja isso, Mario. Só assista”

“Não! Isso é chato”

Meu pai apontou para a televisão: “Veja! Olha lá! Agora!”.

Quando eu olhei, vi um jogador do Eintracht Frankfurt na tela. Ele driblou o goleiro, e então um defensor, e depois outro defensor (apenas brincando com eles) até mandar a bola com facilidade para as redes.

“Uau!”, eu disse. “O que ele fez?”

“Viu? Ele é o Jay-Jay Okocha. Não há ninguém como ele”

Desse momento em diante, eu sonhei em jogar como Jay-Jay. Ele era o meu ídolo. Ele movia a bola como um artista. Ele fez coisas com a bola que eu não podia nem mesmo imaginar. Depois de ver aquele drible e aquele gol, eu via o show da rodada com meu pai a cada domingo. Eu também comecei a ver os jogos com ele.

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Ao lado do meu pai, assistia a muitos jogos do Campeonato Espanhol e não havia jogo mais importante que El Clásico. Sempre que Real Madrid e Barcelona se enfrentavam, todos os meus tios e primos vinham a nossa casa. Camisas do Raúl enchiam a nossa sala, assim como os gritos e cantos durante os 90 minutos. Minha família inteira torcia para o Real Madrid, mas, como eu disse, quando o assunto é futebol, ninguém pode me ditar o que fazer. Então, eu decidi torcer pelo Barcelona. Parte disso era para ser diferente, mas também porque eu amava ver os jogadores brasileiros: Ronaldinho, Rivaldo e o meu preferido, Romário. Seu nome era mágico para mim. Mas, mais do que isso, eu admirava a agilidade de Romário e o espaço que ele era capaz de criar para si mesmo.

Eu queria ser Romário. Mas, quando eu fui ficando mais velho, percebi que o tipo de atacante que eu queria ser não era exatamente o tipo de atacante que eu poderia ser. Eu era maior e mais forte que a maioria dos garotos, então eu me tornei muito mais um autêntico camisa 9. Alguns garotos têm talento para o drible, mas eu tinha para fazer gols. Fosse com meu pé esquerdo, o direito ou minha cabeça, eu era bom naquilo.

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O primeiro técnico que realmente mudou a minha carreira foi Giovanni Trapattoni. Quando ele chegou ao Stuttgart, ele não disse uma palavra aos jogadores mais jovens. Nada. Ele era amigável, mas ficava no “bom dia” e, assim que acabávamos o treino, no “boa noite”.

As semanas passavam. Nada. Nem um sorriso. Nem um cumprimento.

E então, depois de umas quatro semanas, ele chegou. Giovanni pediu para eu ir a sua sala depois do treino. Eu não tinha ideia do que ele queria.

“Ouça, Mario”, ele disse. “Eu tenho observado você há semanas e estou realmente impressionado, mas penso que nós podemos trabalhar algumas coisas. E, se nós corrigirmos isso, então você será o próximo atacante da seleção alemã”.

Depois de semanas de silêncio, Giovanni de repente quebrou a minha essência como jogador em poucas palavras. E, a partir desse dia, depois de cada treino, ele ficou até mais tarde comigo e com um grupo de jovens jogadores apenas para trabalhar estes detalhes. Giovanni foi a primeira pessoa a me fazer sentir como um jogador profissional. E, embora ele tenha deixado o Stuttgart depois de poucos meses, ele deixou uma impressão profunda em mim. Nas rodadas finais da temporada e na seguinte, eu cheguei ao meu ápice, assim como o time. O Stuttgart ganhou a Bundesliga e eu fui chamado para a seleção, exatamente como Giovanni havia dito.

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Eu penso que muitas pessoas menosprezam atacante como eu, o verdadeiro camisa 9 que joga dentro da área. Quando criança, até eu gostaria de ser como Romário. O futebol sempre passa por mudanças, os clubes sempre querem atacantes menores, que se movimentem bastante.

Mas eu posso viver com isso. As pessoas podem me dizer “ah, você não jogará mais do que três ou quatro anos”, que eu não ligo. Porque, enquanto o futebol está sempre mudando seu estilo de jogo, uma coisa nunca parece mudar: todos precisam de um jogador em campo que esteja no lugar certo e na hora certa para colocar a bola na rede, mesmo que não seja tão elegante e ágil quanto Romário.

Eu passei por muitos clubes e trabalhei com muitos técnicos, vivi meus altos e baixos. Mas uma coisa nunca mudou, e é a sensação de marcar um gol. Não importa onde eu estou jogando ou quão velho eu esteja, esse é o momento pelo qual eu tenho vivido há 20 anos. É o momento pelo qual eu vivo cada semana.

Eu gostaria de poder descrever isso. Eu gostaria que cada um pudesse sentir isso. O único momento em que eu tive um sentimento mais forte no meu coração foi quando casei com minha esposa no ano passado.

Marcar um gol é uma explosão de sentimentos. É imediato – bam! Antes de você chutar a bola, você sente como se tivesse 200 quilos. Então, a bola deixa o seu pé, rompe os ares e balança as redes.

E, nesse momento, não tem mais peso algum.