Se hoje a Premier League é repleta de jogadores do Brasil, algo acentuado nos últimos anos, nem sempre a liga inglesa teve essa abertura para brasileiros. Em parte, é justamente por isso que as passagens de Juninho Paulista pelo Middlesbrough, inicialmente entre 1995 e 1997 e, posteriormente, entre 2002 e 2004, foram tão especiais. E é graças à idolatria da torcida do Boro pelo ex-meia que um outro brasileiro está tendo sua chance de conquistar seu espaço no mesmo clube.

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Através de seus contatos na ex-equipe, Juninho, hoje presidente do Ituano, arquitetou uma parceria da equipe do interior com o Middlesbrough, em 2013, que, ocasionalmente, levaria jogadores das categorias de base do Galo de Itu para o nordeste da Inglaterra. Um desses atletas, João Morelli, atacante de 19 anos, conseguiu se fixar no sub-21 do Boro e, com dedicação e os pés no chão, espera poder repetir ao menos parte do sucesso do ídolo no clube inglês.

Em entrevista à Trivela, João contou que chegou ao Middlesbrough em outubro de 2014, com mais três companheiros de base do Ituano, para algumas semanas de teste. Após o período, agradou à comissão técnica do time sub-21 do Boro e teve sua permanência estendida por mais um semestre. Ao fim da temporada passada, assinou um vínculo de um ano com o time inglês. “O Juninho Paulista, dono do Ituano, é muito influente aqui, um ídolo muito grande no Middlesbrough, quase um rei, e surgiu a oportunidade de fazer um intercâmbio, mandando alguns jogadores para cá. Antes de mim, houve dois jogadores, aí vim com mais três. A intenção era mesmo o intercâmbio, uns três meses, com a opção de eles ficarem com o jogador, claro. Eu fui conquistando meu espaço, jogando amistosos, indo bem e marcando gols contra times grandes”, relembra o atacante.

A sorte também esteve ao lado de João, já que, após as semanas de teste, Paul Jenkins, treinador do time sub-21 do Middlesbrough, viu no jogador justamente as qualidades de que precisava para reforçar seu ataque. “Sentimos que ele mostrou potencial nas técnicas e habilidades pelas quais estávamos procurando naquela posição. Tem uma boa técnica com a bola, melhorou sua habilidade de manter a bola e mostra um bom nível de finalização durante os treinos”, explicou o técnico, em entrevista à Trivela.

Mesmo 20 anos após a primeira passagem de Juninho, a impressão deixada pelo ídolo entre funcionários e torcedores do Middlesbrough ainda ressoa, tanto é que, ao contar que era brasileiro, as primeiras perguntas dirigidas a João eram justamente sobre o conterrâneo: “Todo mundo me perguntava se eu o conhecia. Quando disse que vinha do clube dele, ficavam impressionados. O público mais velho fala muito dele. Os mais jovens, das categorias de base, nem tanto. Mas o público de mais idade fala muito”.

Juninho

Costuma-se sempre falar no choque de culturas entre o estilo de jogo do futebol inglês e o do restante do mundo. Muito mais físico do que em outras ligas, o jeito britânico é algo que o diferencia dos outros até mesmo nas categorias de base, “desde os garotinhos treinados”, como define João. Em comparação com o Brasil, a importância dada à tática e a coletividade da equipe foram os aspectos que mais chamaram a atenção do jovem atacante. “Quando vim para cá, não falava nada de inglês, isso foi uma coisa que tive que penar um pouco para me adaptar. Em relação ao futebol, é muito diferente do Brasil, a filosofia, o jeito de jogar. Eles visam outras coisas a mais, então a gente tem que aprender coisas que, no Brasil, temos alguma noção sobre, mas que aqui isso é muito maior. Nos três primeiros meses, foi bem difícil, porque o futebol é diferente. Você tem que trabalhar duro. Mas agora já consegui me adaptar ao futebol daqui”.

A maturidade com que João lidou com as adaptações não passou despercebida pelo técnico Paul Jenkins, que destacou, em especial, o fato de que o brasileiro estava não apenas enfrentando um novo ambiente, mas também uma nova cultura. “O João teve que mostrar um bom nível de mentalidade desde que chegou à Inglaterra. Não é fácil para jovens jogadores serem tirados de sua zona de conforto, ainda mais quando é para um país estrangeiro. O inglês dele melhorou bastante e ele se adaptou bem ao grupo”, avaliou.

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A integração dos times de base com o principal também é um ponto em que o futebol inglês está à frente do brasileiro. No Middlesbrough, por exemplo, João está constantemente participando de atividades ao lados dos jogadores mais experientes, complementando treinos, especialmente nos dias após os jogos, quando alguns atletas ganham um descanso. Essa aproximação, aliás, permite ao técnico do time principal, Aitor Karanka, manter um olhar mais atento aos talentos que possam brotar das categorias de base. Jenkins conta que Karanka está ciente do progresso do brasileiro no time sub-21: “Temos avaliações regulares com todos os jogadores, em relação a seu progresso, e estabelecemos metas para as semanas seguintes”.

Com contrato até o final desta temporada, João tem esperança de que o que tem feito desde que chegou ao Middlesbrough seja suficiente para mantê-lo por mais tempo, possivelmente podendo fazer parte do elenco principal que, muito provavelmente, estará de volta à Premier League em 2016/17. “Pelo que venho fazendo, pela evolução que venho tendo, é uma questão de tempo. Estou mostrando meu futebol. Eles veem, às vezes elogiam, e, se eu renovar, é uma questão de tempo. Tenho chances de subir para o primeiro time, não sei quando, mas é uma questão de tempo”, analisou o jogador.

Os elogios de Jenkins ao atacante e a confiança do próprio atleta em seu taco são corroborados pelos números de João. O brasileiro estreou com assistência pelo Boro e, mesmo tendo se juntado ao time no meio da temporada, terminou 2014/15 com três gols e uma assistência. A campanha atual é ainda melhor, com sete gols e cinco assistências em 15 partidas.

Pelo potencial que demonstra e, claro, por ser brasileiro, João faz alguns torcedores do Middlesbrough sonharem com um “novo Juninho”, mais por sua origem e ligação com o ídolo do que por características ou posição. Algo que, para o atacante, serve mais como motivação do que pressão. “Às vezes, vejo comentários nas redes sociais, essas coisas de ficar falando ‘espero que seja o próximo Juninho’, ‘espero que seja bom como o Juninho’, mas não encaro isso como pressão, mas sim como motivação. Para eu querer ser igual ou melhor, ou chegar perto do que ele foi. Então, é gostoso ouvir isso”.

Seu futuro no Boro pode estar indefinido no momento, mas isso não impede o garoto, respaldado por suas atuações, também sonhar em um dia replicar, de alguma forma, o sucesso de Juninho. Como um brasileiro no dia a dia do Middlesbrough, João sente bem o que o meia representou para o clube inglês e como a torcida pode ser acolhedora. Seguir o mesmo trajeto não seria uma má ideia. “Por estar aqui, no mesmo time em que ele conquistou isso, é uma motivação. Vejo que ele é muito bem lembrado, respeitado, um ídolo para todos. Então, claro que quero seguir os passos dele, por ter passado pela mesma situação que estou tendo aqui, vindo do Brasil. Ele conquistou todo mundo”.