O futebol apresentado pela Espanha desde a chegada de Luis Enrique credenciava o time a uma vitória contundente nesta segunda-feira, no Estádio Benito Villamarín. Sob a motivação de garantir a vaga antecipada na fase final da Liga das Nações, a Roja recebia uma Inglaterra que ainda não havia acertado os ponteiros desde o fim da Copa do Mundo. E se o futebol se faz um esporte tão especial, é justamente pela capacidade enorme de surpreender, como bem aconteceu na Andaluzia. Graças a um primeiro tempo letal, abrindo três gols de vantagem, os Three Lions venceram por 3 a 2. Noite especial sobretudo ao trio de frente, com as combinações inteligentes na construção de um resultado elástico. O triunfo encerrou uma sequência de 27 jogos de invencibilidade dos espanhóis, que também não perdiam em casa desde 2003. Além disso, pela primeira vez na história, os ibéricos tomaram três tentos em casa durante um jogo oficial.

Luis Enrique escalou uma Espanha que, se não tinha exatamente o melhor possível, contava com uma equipe respeitabilíssima – incluindo David de Gea, Sergio Ramos, Sergio Busquets, Thiago Alcântara, Marco Asensio, Rodrigo Moreno, entre outros. Já a Inglaterra de Gareth Southgate confiou em alguns jogadores em ascensão, como Joe Gómez, Harry Winks e Ross Barkley. Destaque à potente linha de frente, composta por Marcus Rashford, Raheem Sterling e Harry Kane. A trinca transformou-se no trunfo dos Three Lions, que possuíam apenas um titular acima dos 25 anos de idade – o lateral Kieran Trippier.

Dominando a posse de bola, a Espanha mandava no jogo durante os primeiros minutos e logo começou a criar suas ocasiões de gol. Aos quatro minutos, Marcos Alonso só não abriu o placar porque a bola explodiu em Jordan Pickford, realizando um milagre involuntário na Andaluzia. O problema é que o controle espanhol por vezes lembrou os tempos mais enfadonhos do tiki-taka, sem que os anfitriões abrissem brechas na bem armada defesa inglesa – protegida na cabeça de área por um gigantesco Harry Kane. E a objetividade do outro lado fez toda a diferença, com lances verticais do ataque, em velocidade, explorando muito bem os espaços às costas da zaga.

O primeiro gol saiu aos 15 minutos. A jogada começa em Pickford, lançando para Kane no meio. O centroavante deu uma ótima enfiada para Rashford na esquerda e este já emendou a Sterling passando em velocidade do outro lado. Marcos Alonso só acompanhou e o atacante desferiu um chute feroz, sem chances de defesa para De Gea. A Espanha tentava responder, mas sem criar lances mais claros. E viu a situação se complicar ainda mais aos 28, em outro ataque que surgiu a partir de um chutão de Pickford. Kane brigou pela bola no campo ofensivo e, mesmo cercado por três adversários, deu um passe com curva sublime a Rashford. O atacante dominou e não teve problemas para tirar do alcance de De Gea.

O segundo tento baqueou um pouco mais os espanhóis, que seguiam impotentes na linha de frente e errando várias conclusões. E o cenário se complicou de vez aos 37, mais uma vez com a participação de Kane. Lançado por Barkley com precisão, o camisa 9 deu um tapa de primeira na pequena área e passou para Sterling, aparecendo no meio para arrematar. Apesar do jejum de gols pela seleção, a mobilidade do centroavante é uma virtude enorme, aproveitando as arrancadas dos pontas. Demonstra seu talento além da capacidade de definição, e isso acaba sendo uma das principais características de jogo desta Inglaterra mais vertical.

Mesmo sem alterações, a Espanha voltou ao segundo tempo bem mais agressiva, finalmente enchendo o pé contra a meta de Pickford. Faltava acertar o alvo. Somente o iluminado Paco Alcácer para fazer a diferença neste sentido, logo depois de deixar o banco. O centroavante substituiu Iago Aspas aos 10 minutos e aproveitou uma cobrança de escanteio para descontar aos 12. O segundo gol quase saiu na sequência. Pickford se enroscou com a bola e foi desarmado por Rodrigo dentro da área. Tentou segurar o atacante, sem sucesso, até conseguir dar um carrinho na bola para evitar o pior. Apesar da penalidade ser possível pelo início da jogada, a arbitragem não marcou.

Mais contida, a Inglaterra cozinhava o jogo e evitava que a Espanha se aproximasse demais de seu gol, reforçando o sistema defensivo com Kyle Walker. Somente durante os dez minutos finais que a pressão realmente se intensificou, com uma porção de chances que a Roja não aproveitou da melhor maneira. E nos longos sete minutos de acréscimos, depois que Álvaro Morata carimbou o travessão, o segundo gol saiu no último lance, com Sergio Ramos conferindo de cabeça às redes. O árbitro apitou o fim do jogo pouco depois e precisou lidar com as reclamações dos anfitriões, seja pelo pênalti não marcado ou pela relutância em aumentar o tempo extra.

A situação no Grupo 4 da Liga das Nações está completamente aberta. A Espanha tem seis pontos e pode se garantir com uma vitória sobre a Croácia. A Inglaterra tem quatro e necessita também bater os croatas, além de depender de um tropeço dos espanhóis. Já os vice-campeões do mundo são os únicos com duas partidas pela frente, dependendo de dois triunfos para se garantir na fase final. Os revezes anteriores, sobretudo a derrota em casa para a Roja, limitaram as possibilidades dos Three Lions. Todavia, o time de Gareth Southgate volta a apresentar sua possibilidade de crescimento. E com a presença de um craque multifacetado como Harry Kane. Abnegado e fazendo muito mais do que um mero centroavante, ele foi o cara do placar histórico no Benito Villamarín.


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