O título inglês do Leicester foi tão espetacular justamente pelas circunstâncias extraordinárias em que ele aconteceu: impossível de ser planejado, de ser previsto, e muito difícil de ser replicado. Não se pode extrair uma fórmula precisa dessa campanha, uma cartilha para zebras seguirem ao redor do mundo, mas diretoria, comissão técnica e jogadores tiveram méritos incontestáveis, que deveriam ser estudados e aprendidos por clubes brasileiros que estão há anos – ou décadas – sem conquistar o título nacional.

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Vale a ponderação de que o Campeonato Brasileiro, que começou no último final de semana, distingue em pontos fundamentais com a Premier League. Os ingleses distribuem mais equilibradamente o dinheiro da televisão, mas, ao mesmo tempo, a hierarquia financeira é rígida. Existem blocos com objetivos diferentes e há pouca mobilidade entre eles. Todos os clubes têm investidores por trás, menos ou mais abastados.

No Brasil, contas caóticas, desorganização e gestões amadoras passam a sensação de uma anarquia que nem sempre se reflete na tabela. Nenhum clube, além dos 12 considerados “grandes”, foi campeão brasileiro na época dos pontos corridos. Com exceção ao bem estruturado Atlético Paranaense, o último intruso a se classificar para a Libertadores por meio da liga nacional foi o Goiás, em 2005. Não existe, por outro lado, uma divisão em patamares tão clara quanto na Inglaterra.

“No Brasil, as forças são menos dominantes”, afirma o comentarista da ESPN Brasil, Rafael Oliveira. “Por menor capacidade técnica e coletiva dos times e por histórica incompetência para transformar as diferenças econômicas em degraus mais definidos. O equilíbrio é maior, mas o nível exigido para estar entre os melhores é mais baixo”. Ele acredita que o título do Leicester é um exemplo de que é possível quebrar a ordem natural das coisas e que nem sempre uma arrancada tem prazo de validade. “É natural desconfiar do azarão que larga bem. Inevitável. O Leicester mostrou que é possível. Raramente acontecerá de novo, mas é também exemplo de força psicológica. Mentalidade vencedora, mesmo que jogo a jogo, e sem assumir publicamente o discurso de real candidato”.

Claudio Ranieri falou diversas vezes do aspecto psicológico da arrancada ao título, de como o time manteve a concentração ao longo de toda a temporada, e o técnico italiano adotou um discurso muito humilde até a reta final. Começou a falar abertamente de título depois de assegurar a permanência na Premier League e encaminhar vagas europeias. “O mérito foi manter o foco”, completa o especialista do Esporte Interativo, Vitor Sérgio, que também louva o ótimo trabalho de prospecção de jogadores do Leicester. “Tudo encaixou no momento certo. No mais, pela trajetória, não vejo muito como ser exemplo. Não foi um trabalho planejado que redundou no êxito”.

Leonardo Bertozzi, da ESPN Brasil, também cita o bom trabalho de scouting do clube, que encontrou Mahrez e Kanté – e mesmo Vardy, anos atrás – em lugares onde nem sempre os grandes vão procurar. “Nomes como Mahrez e Kanté não caíram do céu, foram fruto de observações meticulosas”, afirma. “Obviamente, não era provável que todas as peças se encaixassem tão perfeitamente”. Ele também aplaude a convicção da diretoria nas suas escolhas, principalmente pela aposta em Ranieri, na época da contratação, um profissional em baixa. “Também não era provável que um técnico de currículo questionável como Ranieri fosse o homem capaz de criar o ambiente ideal”, analisa. “Mas é o imponderável que faz dessa conquista algo tão espetacular e difícil de ser repetida”.

Ranieri foi contratado depois da demissão de Nigel Person, por questões extra-campo, o que não configura uma continuidade no trabalho do treinador. Mas, por outro lado, Raphael Rezende, do SporTV, identifica a manutenção de uma filosofia, e, principalmente, do elenco na janela de janeiro, apesar da grande visibilidade que os jogadores mais importantes tiveram. “Falo de dar todas as condições para que a comissão técnica complete ciclos, atingindo o fim da temporada com salários em dia e elenco mantido”, explica. “Qual time no país (Brasil) seria estruturado o suficiente para manter seus principais jogadores durante uma temporada de sucesso estrondoso como essa do Leicester? A incapacidade administrativa gera essa fragilidade dos clubes no Brasil, que acabam usando as transferências como forma de equilibrar o caixa”. A ausência de uma janela de contratações bem definida para negócios internos ou externos, como acontece no futebol europeu, também contribui para essa instabilidade.

Paulo Vinicius Coelho, da Fox Sports, acha que o Leicester não ensina nada para os clubes brasileiros, exceto que é possível vencer jogando bem e de maneiras diferentes. “O Leicester é diferente do Barcelona e do Real Madrid. Não é modelo. Mas é um tipo de jogo que deve ser respeitado”, diz. E Mauro Beting, seu companheiro de canal, acrescenta: “Sim, se pode. Sim, é possível. Uma linda história, de tão inverossímil. É tudo lindo, e mais bonito que o futebol do time de Ranieri. Time de transição veloz, sem posse de bola, ligação direta e direita, e bem trabalhada. História praticamente impossível de ser repetida. Lá ou cá”.

Inspiração ou ilusão?
A torcida do Leicester faz a festa (Foto: AP)
A torcida do Leicester faz a festa (Foto: AP)

Como disse Mauro Beting, a epopeia leicesteriana passa esperança aos clubes que nunca puderam sonhar com as maiores glórias do futebol brasileiro. Por outro lado, também serve como uma ilusão. A falsa expectativa de que o feito pode ser repetido frequentemente pode atrapalhar bons trabalhos, aumentar a pressão – se o Leicester conseguiu, por que seu time não consegue? – e causar turbulências injustas. A linha é tênue, mas a maioria dos comentaristas que consultamos acredita que o conto de fadas de Ranieri e companhia serve de inspiração.

Mauro Beting, Fox Sports: inspiração

“Deve ser sempre inspiração. Dentro e fora de campo, em qualquer atividade ou esporte. Ilusão é achar que é possível acontecer sempre. E ilusão é também para os grandes entenderem que isso segue sendo muito difícil. Mas é possível, sim”.

Vitor Sergio, Esporte Interativo: inspiração

“A distância de elenco do topo para a briga contra a degola (que era a zona “prevista” para o Leicester) na Inglaterra é muito maior do que no Brasil. Se lá foi possível, acho que aqui também é. Mas uma conjunção de fatores tem que ajudar, como ajudou o Leicester.”

Rafael Oliveira, ESPN Brasil: inspiração

“Não acho errado enxergar como um pouco dos dois. Mais como inspiração do que como ilusão. Porque, para o Leicester, falar em título antes da temporada também era uma enorme ilusão. Claudio Ranieri gargalhou quando Gary Lineker fez a pergunta em tom de brincadeira em agosto. E é justamente isso que vira inspiração para os clubes menores pelo mundo. Se foi possível no campeonato mais badalado do planeta, por que não em outras competições? Não só pode, como deve ser uma inspiração”.

Leonardo Bertozzi, ESPN Brasil: mais ilusão

“A diferença estrutural é muito grande. O Leicester tem, como a maioria de seus adversários, um mecenas importante por trás, e a divisão dos direitos de TV da Premier League é mais justa. A classificação de um time menor para a Libertadores já é cada vez menos provável por aqui. Aconteceu nos primeiros anos do Brasileirão de pontos corridos, mas hoje é um sonho difícil de realizar.”

Raphael Rezende, SporTV: ilusão

“Quando se trata de futebol brasileiro, até porque é um reflexo do que acontece no país como um todo, costumo olhar para o copo sempre meio vazio. Me parece ser mais ilusão que inspiração o que aconteceu com o Leicester, por mais que uma não exclua a outra necessariamente. E aí entra a busca pelo equilíbrio competitivo que inexiste na distribuição dos direitos de televisão nessa temporada no país. A distância entre o que mais arrecada e o que menos arrecada respeitou em 2015/2016 uma proporção de 1,55 por lá, enquanto aqui atinge em 2016 expressivos 8,5. A espanholização só não deve se confirmar em campo nesse próximo triênio porque a regulamentação (Profut) tem um texto falho, que ainda não impede clubes de adotarem práticas nocivas à saúde financeira para atingir os resultados no campo nesse momento de readequação.”

Paulo Vinicius Coelho, Fox Sports: nenhum dos dois

“Não acho nem inspiração nem ilusão. Acho que já houve casos no Brasil assim. Digo, brigar para não cair em um ano e ser campeão no seguinte. Caso do Fluminense de 2009 para 2010. A diferença é que o Flu sempre foi grande e nos parecia diferente brigar para não cair, não para ser campeão”.