Andrés Iniesta costuma ser uma pessoa serena, em campo ou fora dele. É raríssimo ver o craque se envolvendo em polêmicas ou tomando atitudes midiáticas. O respeito que construiu vai muito além do talento dentro de campo, também por seu caráter e por sua lealdade às cores que vestiu. O que não significa, necessariamente, que o veterano possui sangue de barata. Nesta semana, Iniesta concedeu uma longa entrevista ao programa Salvados. Entrou em assuntos mais espinhosos, dando sua opinião mais contundente sobre posturas que discordou, mas sem precisar atacar ninguém por isso.

O principal ponto girou ao redor de José Mourinho. Segundo o meia, os discursos do treinador em sua passagem pelo Real Madrid tiveram influência negativa, ultrapassando os limites daquilo que deveria ser tratado como futebol: “Você não precisa ser do Barcelona ou do Real Madrid para saber que essa situação foi desagradável. O componente chave nisso foi Mourinho. Quem não quer ver, vai além do radicalismo. Você não via a rivalidade de sempre, via além disso, via ódio. Cultivava-se esse ambiente e era insuportável. A tensão entre Barcelona e Real Madrid provocada por Mourinho causou muitos danos à seleção e aos companheiros”.

Além do mais, Iniesta não escondeu seu descontentamento com Fernando Hierro, por ser barrado no jogo contra a Rússia, durante a Copa do Mundo: “Não tenho boas recordações do Mundial, evidentemente. O que começa mal, normalmente termina mal. Esportivamente, o episódio com Lopetegui não foi positivo. E a última partida foi a gota d’água. Comecei no banco e não entendi a decisão. Eu disse a Hierro. Eu respeito a posição, porque precisava respeitar, mas não concordava. O técnico falou comigo antes e depois, mas não entendi a decisão. Acredito que não tinha argumentos para fazer isso. Estava emputecido, porque não me importava com o que me dissesse”.

O craque falou sobre sua relação com o futebol e também com o Barcelona, depois de quase ter ‘virado a casaca’ ao Real Madrid em certo momento de sua infância: “Minha adolescência esteve muito marcada pelas diretrizes para me tornar um jogador de elite. Ao final, o difícil na vida é poder curtir com seu trabalho. Eu fui amadurecendo num ritmo forçado. Quando era pequeno, torcia para o Albacete e para o Barcelona. Mas um dia, o Barça nos fez sete gols e eu peguei birra. Entrei em um período de confusão, torcendo pelo Real Madrid. Mas quem dera se eu pudesse encerrar minha carreira no Camp Nou. O problema é que já não estava em condições de me oferecer 100% ao clube”.

Por fim, abordou sua luta contra a depressão e como a ajuda médica foi fundamental para se reerguer: “Aconteceu tudo depois de conquistar a Tríplice Coroa. O gol contra o Chelsea, a Champions, três títulos, um ano incrível… Mas no verão, não era assim. Você começa a se encontrar mal, algo raro, e não sabe como classificar isso. Começa um processo interior, a pensar, mas não sabe o porquê. Você entra em uma bola de neve e se encontra muito vazio. Também influenciou a morte de Dani Jarque”.

“Uma tarde de pré-temporada, estava na minha casa e chamei o médico, para saber o que fazia, porque não sabia o que ia se passar. Disse a ele que necessitava de ajuda, porque não saía dessa situação. Desejava que chegasse a noite para tomar um remédio e descansar. Não tinha nem esperanças, nem desejos, nem sentimentos. Quando você sofre de depressão, não é você. Quando está tão vulnerável, é difícil controlar os momentos da vida. Estive em tratamento com a psicóloga, sempre me lembrarei da vontade que tinha de me consultar, chegava até 15 minutos antes”, complementou. Saudável, recuperou-se para marcar ainda mais seu nome na história do futebol.