Fernando Torres despediu-se oficialmente do futebol na última sexta-feira (23), em uma acachapante derrota de seu Sagan Tosu por 6 a 1 para o Vissel Kobe, dos amigos David Villa e Andrés Iniesta, pela J-League. Apesar da frustração do resultado, o atacante recebeu uma emocionante homenagem após o apito final, com os conterrâneos permanecendo em campo para a cerimônia. A mais bonita das despedidas, no entanto, veio antes do jogo, em carta escrita por Iniesta ao ex-companheiro de seleção espanhola e publicada no jornal El Mundo.

Nela, o ex-barcelonista caprichou nas palavras para recordar o início da dupla, longe dos holofotes, mas cheia de sonhos brilhantes. Sonhos estes que atingiram seu ápice naquele passe de Torres a Iniesta, no gol que deu à Espanha seu primeiro título de Copa do Mundo, em 2010.

Craque com a caneta como sempre foi com a bola, Iniesta condensou bem o significado de dividir uma trajetória com o Niño Torres. Confira abaixo, na íntegra, a carta – que você pode ler em espanhol aqui.

Que estranho. Não me diga que não é, Fernando. É muito estranho, eu diria belamente estranho. Aqui estamos nós, prestes a jogar seu último jogo como profissional. Eu ainda tenho tempo. Aqui estamos. Do outro lado do mundo. É como se a vida, caprichosa como ela é, nos tivesse trazido até o Japão para dizer adeus. O futebol nos uniu mais de 20 anos atrás, quando éramos crianças. Bom, você será para sempre El Niño. E ele nunca irá nos separar. Conhecemo-nos quando tínhamos sonhos utópicos. Aquele gol nos deu o título do Europeu Sub-16 na Inglaterra. Nunca vou me esquecer do seu gesto, dedicando a mim a vitória. Assisti ao jogo na televisão, porque tive que voltar para casa por causa de uma lesão.

Você se lembra, Fernando, daquela camisa autografada em Trinidad e Tobago, com uma promessa que parecia irrealizável? Mas nós conseguimos. E, desde então, sempre estivemos juntos. Viena, Joanesburgo… Aquele passe inesquecível do Xavi para dar razão ao sábio, ao professor, Luis (Aragonés). Aquele cruzamento seu para que todos marcássemos o gol mais importante de nossas vidas. Separados, mas sempre juntos. E até o último instante. Acima de camisas ou clubes. Vivíamos em cidades distintas. Você, em Madri, e eu, em Barcelona. Mas jamais fomos inimigos. Apenas amigos que vestiam camisas diferentes, fundidos, sim, em uma pele vermelha. Ou Rojita, como quisermos chamar.

Porque a nossa história, embora muitos não saibam, vem de longe. De longe. Pouco importou que um dia você quebrou fronteiras no caminho para a Premier League, onde eles descobriram o talento de um Niño único, primeiro no Liverpool e depois no Chelsea. Quando você voltou para casa no Atlético, eu estava animado como todo mundo, porque o futebol, além dos sucessos ou fracassos esportivos, tem uma maneira de entender a vida. E você, Fernando, dignificou este esporte. Nosso esporte. Eu não falo dos gols que você marcou, pois eu perdi a conta há muitos anos, nem dos títulos que você conquistou em sua maravilhosa carreira. Eu falo sobre o seu comportamento, sobre o seu respeito pelo jogo, pelo companheiro de equipe, pelo adversário e, claro, pela bola.

Essa que começamos a passar juntos em campos anônimos, longe de holofotes e câmeras, compartilhando milhares de experiências antes de ganhar uma Copa do Mundo para o nosso país. Quando nos encontrarmos novamente na Espanha, mostrarei a você aquela camisa, aquele tesouro que ninguém mais descobriu. Embora, é verdade, não há tesouro maior do que a sua amizade, Fernando.

(O futebol) Foi uma aventura maravilhosa. Levou-nos a todos os cantos do mundo. E olha onde estamos hoje. Em Tosu, você e eu jogamos um jogo de futebol. Mais um. Mas não é só mais um. É o seu último jogo. Quem diria?! Você enfrenta o ousado (David) Villa e eu. Depois, vai voltar para casa. Os seus estão à sua espera, embora tenha de saber que o futebol vai ficar mais triste hoje do que ontem. Aproveite tudo o que vier agora e seja feliz. Mas que estranho, Fernando. Você ainda não partiu, e eu já sinto sua falta.