Em meio ao título do Cruzeiro e a maior manifestação já feita nos gramados do Brasil, o assunto acabou encoberto. Mas deverá continuar repercutindo bastante pelos próximos dias. O Flamengo criou um imbróglio tremendo ao aumentar de maneira exorbitante os preços dos ingressos para a decisão da Copa do Brasil, de R$ 250 a R$ 800. Causou a insatisfação dos torcedores e até mesmo uma ação do Procon – acusado de agir a favor da oposição e que também não é de todo santo, se aproveitando da ocasião para tentar mostrar serviço à população.

Após as apreensões realizadas em sua sede, o Fla terá que prestar esclarecimentos sobre a questão. Se for convincente em suas explicações sobre o aumento, os preços não deverão sofrer alterações. O problema é que as declarações dos dirigentes rubro-negros têm passado muito longe da coerência. Populismo e análises rasas marcam o discurso, ainda que as reclamações sobre meias-entradas, cambistas e impulso das finanças façam sentido.

O que não cola no discurso dos cartolas flamenguistas? Analisamos cinco declarações de personagens envolvidos com o caso. E, além de apontar algumas incoerências, também sugerimos alguns caminhos diferentes que poderiam ser tomados.

“No jogo contra o Goiás, 74% dos ingressos foram vendidos de meia. Isto se deve à falta de controle na entrada. Os ingressos acabaram em dois dias e os cambistas venderam a R$ 170 o mais barato”, Luiz Eduardo Baptista, vice-presidente de marketing, ao Globo Esporte.

O dirigente tem razão em parte de sua declaração, embora apresente números imprecisos. Segundo o boletim divulgado pela CBF, as meias-entradas representaram 60% dos ingressos vendidos no Maracanã. Somados também os sócio-torcedores, o número chega a 76%. Não é um percentual do total, mas um percentual dos ingressos vendidos (excluindo as gratuidades).

Isso não anula a responsabilidade do clube (e não só do Flamengo) em buscar um controle maior da venda de meias-entradas falsificadas. O tempo curto não permite uma medida tão contundente quanto a tomada no Rock in Rio (onde foram conferidos os dados das carteirinhas antes de o bilhete ser enviado ao comprador), mas uma campanha a longo prazo pode ajudar na criação de um mecanismo de controle mais eficaz – um cadastro junto a instituições, por exemplo. O problema é que ninguém parece interessado a pensar no curto prazo.

Ainda assim, a crítica de Baptista é desmedida. Ao incluir os sócio-torcedores no bolo de sua conta, ele dá um tiro no pé. Afinal, não é esse o público-alvo da diretoria rubro-negra? Então por que o clube resolveu dar descontos de 40% para os sócios, estimulando a meia-entrada? Esses 10% podem fazer a diferença entre estimular ou não a adesão de novos flamenguistas ao programa.

Maracanã estava cheio nas semifinais da Copa do Brasil (Foto: Flamengo)
Maracanã estava cheio nas semifinais da Copa do Brasil (Foto: Flamengo)

“O programa de sócio-torcedor é um grande sucesso, ultrapassamos os 50 mil membros e mais de 70% vêm do Rio de Janeiro. Esses sócios devem comprar quase dois terços das entradas se a tendência dos últimos jogos persistir”, Baptista, ao Globo Esporte.

O crescimento do programa de sócio-torcedores do Flamengo tem sido notável. Porém, o clube perdeu uma ótima oportunidade de utilizar o sistema para atrair novos associados – e, assim, buscar uma contribuição momentaneamente menor, mas duradoura e rentável em longo prazo. O Atlético Paranaense, que se envolve na questão há tempos, destinou todos os seus ingressos aos sócios, que não precisaram pagar nada – já arcam o custo na adesão ao programa. O Corinthians, na final da Libertadores de 2012, deu privilégio aos sócios na compra das entradas, mantendo o preço de R$ 50 e dando descontos a partir desse valor.

Ao invés de pensar em uma maneira de beneficiar os seus sócios, criando alguma critério que também abrangesse os que chegaram por último (afinal, o programa é recente), os cartolas rubro-negros tiraram 10% de desconto e não criaram prioridades na fila. Se dois terços dos ingressos serão vendidos a uma categoria, provavelmente será à meia entrada, não aos sócio-torcedores. E o clube ainda deverá se contentar se não perder associados, já que muitos ficaram descontentes pela ação.

“É uma injustiça realmente, os preços aumentaram, mas final é diferente, vale sempre mais. Tem muitos exemplos. Passagens aéreas 6h da manhã é um quinto do preço de uma passagem à noite. Apesar de toda essa gritaria, os ingressos vão esgotar”, Fred Luz, diretor de marketing, ao Sportv.

Uma analogia completamente furada. São duas questões completamente diferentes. Se o viajante não quiser pagar o preço da passagem, tem opções de horário, de companhia aérea. O torcedor, não. O torcedor quer ver um jogo apenas, não dá para trocar por outro, e ele está emocionalmente vinculado a um clube, não é uma compra objetiva em que você escolhe a empresa como em uma passagem aérea. O clube tem monopólio da paixão do torcedor e determina quanto custará o ingresso. Quem estiver disposto a pagar, vai ao Maracanã. Quem não, perderá uma oportunidade única. Pensando como Luz, não haverá uma reedição da final às 6h da manhã para poder gastar menos e ver seu time campeão.

Os ingressos vão esgotar? Tudo indica que sim. O Flamengo tem uma massa de torcedores imensa, que certamente abrange 60 mil interessados em pagar R$ 250 para ver a final. O problema maior é são os descontentes, afastados do estádio por não poder nem concorrer pelas entradas. Assim, a diretoria acaba afastando uma massa consumidora considerável. E, mais importante, perde a adesão de muitos que ajudam a empurrar o time nos momentos de maior dificuldade, exatamente quando o clube apela para ingressos mais baratos – a recuperação no Brasileiro de 2007, com ingressos a R$ 10, é o maior exemplo disso.

Hernane comemora seu gol contra o Goiás (Foto: Flamengo)
Hernane comemora seu gol contra o Goiás (Foto: Flamengo)

“O Flamengo não fez nada de errado. O bilhete médio da final do Atlético Mineiro com o Olimpia foi de R$ 250. Por que o Atlético pode e o Flamengo, não?”, Fred Luz, ao Sportv.

OK, essa é a tão proclamada ‘Lei da Oferta e da Procura’. O capitalismo prega isso. A ideia é que, mesmo com preços tão altos, o Maracanã fique lotado. O problema é a maneira como esse processo se deu, o aumento abrupto entre a final e os jogos anteriores na Copa do Brasil. O ingresso mínimo (sem meia entrada ou desconto aos sócio-torcedores) custou R$ 60 contra o Cruzeiro, R$ 80 contra o Botafogo e R$ 100 contra o Goiás. Se cobrassem R$ 120 ou R$ 150 contra o Atlético Paranaense, o lucro seria alto e as reclamações, mínimas. E é sobre este ponto que o Procon resolveu agir: “elevar sem justa causa o preço do bem ou serviço valendo-se de posição dominante no mercado”.

Quanto à comparação, outro erro crasso de Fred Luz. Ele que equiparar o PREÇO MÉDIO da final da Libertadores com o PREÇO MÍNIMO da final da Copa do Brasil. Contra o Olimpia, o Atlético Mineiro cobrou R$ 100 e R$ 500 pelas entradas inteiras. Segundo o boletim da partida, foram 46.965 pagantes cujo dinheiro foi revertido ao Galo – outros 7.592 compraram através da Minas Arena. Assim, o valor médio pago ao clube foi de R$ 225,64. Excluindo-se a meia-entrada, o preço médio foi de R$ 301,52. Em compensação, o preço médio na final da Copa do Brasil, tirando os descontos e gratuidades forçadas por lei, é de R$ 341,90. A renda total da decisão do Fla pode até ser menor, mas só porque a quantidade de meias-entradas e de ingressos a sócios (R$ 50 cada) no Mineirão foi baixa, 15,7% do total vendido pelo clube. Outra comparação que Luz prefere não fazer é com o Corinthians de 2012, que manteve os R$ 50 como ingresso mais barato para a final da Libertadores.

E, de qualquer modo, a comparação segue descabida por si só. A Libertadores era uma obsessão para Corinthians e Atlético Mineiro, um título sonhado há décadas e a final representa uma oportunidade única na vida dos torcedores. Mesmo assim, os ingressos dos alvinegros foram mais baratos que os cobrados pelo Flamengo, que vai disputar a Copa do Brasil, título que o próprio Rubro-Negro já conquistou em 2006 e menos importante que o Brasileirão que o clube conquistou há menos tempo ainda, em 2009.

“Não vai ser com a renda que vamos contratar, mas também vai ajudar. Tudo isso faz parte de uma política de geração de recursos. Estão tentando nos impedir da maneira covarde”, Eduardo Bandeira de Melo, presidente.

O presidente do Flamengo está certo em defender uma política de geração de recursos. Até porque aumentar o faturamento em bilheteria reduz a dependência das cotas de TV (não que o Flamengo possa reclamar disso) e da venda de jogadores ao exterior. Mas o clube erra ao usar a final da Copa do Brasil como ferramenta dessa política.

É óbvio que o jogo pode representar uma renda importante a um clube cheio de dívidas, que precisa pensar no planejamento da próxima temporada, mas concentrar tudo em uma noite ele perde a oportunidade de construir uma base de renda nas outras 30 ou 40 partidas que o clube organiza por temporada. Por exemplo, envolvendo o programa de sócio-torcedores de maneira contundente, promovendo privilégios reais. Ou então, estimulando o consumo dos torcedores que forem ao estádio. Pagariam menos pelo ingresso, mas se sentiram impelidos a comprar produtos relacionados à final dentro do estádio.

Agindo com agiu, a diretoria do Flamengo criou um tumulto desnecessário. Centralizou demais o debate em torno do ingresso, sem pensar no bem-estar do torcedor conciliando com suas próprias finanças. Faltou se planejar melhor sobre a questão e, sobretudo, ter uma visão um pouco mais ampla a longo prazo. E quem se sente mais lesado com isso é justamente a massa que o torna o clube tão grandioso.