A rivalidade mais antiga entre seleções voltou a pegar fogo na última terça-feira. Na vitória da Inglaterra por 3 a 1 sobre a Escócia, em Glasgow, torcedores do time da casa vaiaram o hino God Save The Queen, e a retaliação inglesa veio com palavras ainda mais duras, com direito até a associações com grupos terroristas, que acirram as tensões entre as torcidas britânicas às vésperas dos ingleses viajarem a Dublin para enfrentarem a Irlanda pela primeira vez em 20 anos.

LEIA MAIS: Como a rivalidade Escócia x Inglaterra começou por orgulho, e descambou para a violência

A torcida da Inglaterra cantou “Fuck the IRA”, e você pode estar se perguntando qual o problema de gritar contra um grupo terrorista e separatista irlandês, que vira e mexe desafia o governo britânico. Nesse caso, mau gosto à parte, o contexto: a partida foi disputada no estádio do Celtic, clube de raízes irlandesas de Glasgow. Não precisaria ir muito longe para interpretar que houve uma associação genérica entre o povo da Irlanda (e da Escócia) com o terrorismo.

Isso se torna ainda mais perigoso porque em 7 de junho de 2015 a seleção inglesa enfrenta a Irlanda fora de casa pela primeira vez desde a confusão de Lansdowne Road, em 1995, que começou com os mesmos elementos que vimos na última terça-feira no Celtic Park e teve 20 pessoas feridas, invasão de campo e cadeiras atiradas como mísseis. Ingleses, inflamados pelo grupo neo-nazista Combat 18, fizeram a saudação Sieg Heil e cantaram “não se renda ao IRA”. Irlandeses responderam vaiando o God Save The Queen. Coincidência, não?

Não espanta que esta quarta foi um dia de contenção de danos para a federação inglesa. O primeiro passo dela foi se distanciar um pouco da tradicional banda que embala a torcida em todas as partidas da seleção desde 1996. A ligação com esses músicos é bastante próxima porque a entidade os financia e inclusive faz um trabalho de lobby para que eles conseguissem entrar em estádios de outros países com os instrumentos.

A banda foi acusada de embalar o cântico de ódio dos ingleses em Glasgow. A FA afirmou que mandou um representante para pedir que parassem de tocar quando percebeu o que estava acontecendo e ameaçou romper os laços entre eles. Os músicos defenderam-se dizendo que estavam tocando outra música (“Follow England Away”), e a melodia foi apropriada pelos idiotas. Em um comunicado no qual pede desculpas pela atitude dos seus torcedores, a entidade parece ter aceitado essa versão.

HILLSBOROUGH: Por que a tragédia aconteceu, e o que mudou depois dela

“Pedimos desculpas por qualquer ofensa causada por uma seção da torcida inglesa na partida contra a Escócia. A FA não tolera músicas inapropriadas e ofensivas e quer se encontrar com grupos de torcedores para discutir problemas mais amplos. Nós consistentemente pedimos que torcedores demonstrem respeito e não cantem músicas que podem insultar os outros – particularmente do ponto de vista religioso e político”, afirmou.

Um pouco menos grave, mas ainda assim bastante indelicado, foram os gritos de “britânicos até morrer”, em alusão à derrota dos independentistas no referendo da Escócia. Uma tiração de sarro muito desnecessária, ainda mais meses depois de a torcida inglesa ter pedido para que os escoceses votassem contra a separação em uma partida das Eliminatórias da Eurocopa, em Basileia. Quem foi convencido deve estar se arrependendo da sua escolha.

O principal problema, porém, é reviver essa rivalidade política exacerbada entre os países da região, tão típica dos grupos ultra-nacionalistas do final do século passado. A história mostra que essa história dificilmente termina bem, e a partida que a Inglaterra disputará contra a Irlanda em Dublin ano que vem passa a correr o risco de virar palco da reprise de uma peça de teatro trágica que pensávamos ter ficado para trás.