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Revisitando glórias e também traumas, West Ham despediu-se de Upton Park com um épico

Foram 112 anos de história. Que, a partir desta terça, transformam-se apenas em lembranças. O West Ham chegou a Upton Park em 1904, em uma caminhada que inclui ídolos, títulos e paixão da torcida. No entanto, a mudança para o Estádio Olímpico de Londres obrigou os Hammers a se despedirem da velha casa. Uma noite emotiva na Green Street, que também contou com momentos de tensão, mas terminou de maneira épica: em jogo de duas viradas no placar, a equipe de Slaven Bilic bateu o Manchester United por 3 a 2 e estragou as pretensões dos Red Devils rumo à Liga dos Campeões. Mas isso pouco importou aos anfitriões. Seu desejo era mesmo fechar com linhas gloriosas o último capítulo de seu livro em Boleyn Groud. O que aconteceu, conforme cada um dos torcedores sonhava.

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Upton Park possui um passado riquíssimo. O antigo terreno pertencente à Igreja Católica se tornou um templo para o West Ham a partir de 1904. Assim como outros palcos do futebol inglês, o estádio chegou a ser atingido pelos bombardeios nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, mas o setor afetado foi reconstruído. Já nos anos 1960, teve a honra de abrigar a grande geração da história dos Hammers, que consagrou a Inglaterra em seu único título mundial: Bobby Moore, Geoff Hurst e Martin Peters. Jogando naquele gramado, os londrinos encaminharam três títulos da Copa da Inglaterra e um da Recopa Europeia. E até sonharam com um feito também na temporada de despedida, com a classificação inédita para a Liga dos Campeões, o que acabou se perdendo na reta final da campanha.

Só que a história de Green Street não se conta sem se relembrar dos frequentes episódios de violência protagonizados por sua torcida. O que se repetiu também no último dia, como se aquele capítulo não pudesse ser suprimido. Vândalos atacaram o ônibus do Manchester United e quebraram a proteção de uma das janelas. Enquanto isso, outros incidentes menores foram registrados nas ruas próximas a Upton Park. Por conta da depredação, a partida precisou ser retardada em 45 minutos, colocando em risco os planos da diretoria para a cerimônia após o apito final.

De qualquer maneira, a noite seguia especial. Muitos torcedores faziam de sua última visita ao estádio um ritual. Não queriam deixar de tocar nada, deixar de passar em cada canto especial para suas lembranças com o clube. Na recepção às equipes em campo, o celeste e o grená tomaram as arquibancadas, enquanto se cantava alto o hino do Hammers. Conforme a tradição, centenas de bolhas de sabão tomavam os ares. Brilhavam pela última vez nos olhos lacrimosos de tantos presentes.

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Quando a bola rolou, West Ham e Manchester United honraram a ocasião. Os londrinos saíram em vantagem logo aos 10 minutos, com Sakho, e tinham condições de aumentar a vantagem, diante da postura bastante ofensiva. Michail Antonio teve um tento anulado, enquanto Andy Carroll parou em De Gea no um contra um. E o time da casa pagou caro pela quantidade de chances perdidas. Na volta do intervalo, os Red Devils balançaram as redes em suas únicas duas finalizações no segundo tempo. Martial se encarregou de virar o placar, marcando após boas combinações envolvendo Rooney e Rashford.

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A noite inesquecível, porém, não poderia terminar em dor de cabeça para os Hammers. Grande craque do time na temporada, Payet chamou a responsabilidade. E, nos 15 minutos finais, criou a oportunidade para os dois gols que consumaram a nova virada. Primeiro, descolou um lançamento magistral para Antonio fazer mais uma de suas comemorações inventivas. Depois, serviu Reid, que celebrou conforme a noite pedia: com uma vibração explosiva, junto aos companheiros e próximo à torcida. Os três pontos, se não valem mais a Champions, ao menos aproximam os londrinos da Liga Europa.

E o apito final serviu de sinal para que as emoções terminassem de se aflorar. Enquanto o time dava a volta olímpica, os torcedores tratavam de cantar a plenos pulmões. Depois, o gramado tornou-se palco para a realização de homenagens, incluindo a presença de alguns velhos ídolos, como Trevor Brooking e Paolo Di Canio. Noite encerrada com os fogos saindo do estádio para tomar os céus de Londres.

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“Acho que estava escrito nas estrelas. Nós marcamos três gols fantásticos. Mostramos determinação pura. Estou muito emocionado. Deslumbrado. É a melhor atmosfera em que joguei em toda a minha vida. Esse clube é uma família. É mais que um clube de futebol. Por isso tem tantos torcedores. Eu criei uma família aqui, cada um dos torcedores que eu encontro fora do estádio. Obrigado a cada um de vocês”, afirmou o capitão Mark Noble, criado na base dos Hammers e entre os profissionais desde 2004.

Nem todos os torcedores do West Ham querem deixar Upton Park. Sentem como um pedaço de si acabasse perdido. Mas que, no fim das contas, poderá ser revisitado nas esquinas da memória. A ida para o Estádio Olímpico de Londres, ao que tudo indica (e as ótimas vendas dos carnês de temporada já comprovam), será um passo importante ao futuro. Que não impede os Hammers de olharem para trás e relembrarem com orgulho todas as alegrias atravessadas na Green Street.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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