Premier League

Precoce como prodígio e como veterano, Rooney deixa o Manchester United com status de lenda

Apenas 16 anos tinha Rooney, que não podia dirigir, mas podia encerrar a sequência invicta de 30 partidas pela liga do Arsenal, com um golaço de fora da área, quando apareceu, definitivamente, para o futebol inglês. Apenas 31 anos tem Rooney, que, apesar de ainda poder jogar em alto nível por muito tempo, sem nunca ter sofrido uma lesão debilitante, passou, nas últimas temporadas, a sensação de que já é um veterano aproximando-se do fim da carreira. Precoce, tanto no começo, quanto neste potencial ponto de inflexão de sua vida.

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Rooney, maior artilheiro da história, pentacampeão inglês, campeão europeu, campeão mundial, campeão da Copa da Inglaterra, campeão da Copa da Liga, campeão da Liga Europa, campeão de quase todos os títulos que disputou com a camisa do Manchester United não é mais jogador do Manchester United: neste domingo, acertou o seu retorno para o Everton, clube que revelou o adolescente que, durante quase uma década, foi o talento mais promissor do futebol inglês.

A volta de Rooney para Liverpool, segundo relatos da imprensa inglesa, faz parte do acordo que inevitavelmente levará Lukaku para Old Trafford. O atacante belga já fala como jogador do United, o clube já informou que acertou o valor da compra com o Everton e faltam apenas detalhes para um anúncio oficial. Faz parte, também, da tentativa de Rooney reviver o brilhantismo que uma vez teve na reta final da carreira, em outra cidade, em outro clube, com outras ambições. Ou na mesma cidade e no mesmo clube em que tudo começou.

Naturalmente para uma carreira que já dura 15 anos, a de Rooney tem fases: em sequência, foi o garoto prodígio do futebol inglês, um adolescente contratado por milhões de libras, coadjuvante de Cristiano Ronaldo, líder do Manchester United e reserva no último ano. Estreou com a camisa vermelha fazendo três gols contra o Fenerbahçe, marcou em decisão de Champions League, decidiu dérbi de bicicleta e entrou em campo nos acréscimos de uma final já decidida, a da Liga Europa, mais como uma homenagem do que pelo que poderia contribuir para a equipe naquela altura.

Rooney teve, sim, uma lesão que parece ter sido um divisor de águas na sua carreira, não necessariamente por causa dela, já que não perdeu tantos jogos assim. Mas, em março de 2010, o atacante estava voando, na sua melhor fase individual, quando precisou parar por algumas semanas. Marcou 34 vezes naquela temporada e foi eleito o melhor da Inglaterra, na votação dos jogadores, pela primeira e única vez da sua carreira. Na temporada seguinte, lideraria o United a mais um título inglês, antes de entrar no ocaso de sua forma física e técnica.

Ele também não se ajudou. Ao fim desta temporada, veio a primeira tentativa de sair do Manchester United. Acreditava que o clube havia tomado o rumo errado e ficou tentado pelas milhões de libras que jorravam no rival City. Acabou ficando, com contrato renovado e o dobro do salário. Na aposentadoria de Alex Ferguson, mais uma vez buscou uma transferência, por considerar que estava sendo usado fora de posição. A chegada de David Moyes colocou panos quentes na situação e ele acabou ficando. Por pouco. “O Chelsea ficou próximo de contratá-lo”, disse Moyes ao Sunday Times. “José Mourinho estava interessado, mas nós não queríamos fazer nenhum negócio. Eu tive que lutar para garantir que ele ficasse”.

Os dois episódios contribuíram para abalar a idolatria de alguns torcedores do Manchester United, aqueles que podem concluir que Rooney usou o clube para buscar contratos mais favoráveis e não mostrou lealdade o suficiente. Compreensível. O fato, porém, é que Rooney vestiu a camisa do clube durante 13 anos, sempre correndo, sempre se esforçando e marcando gols importantes, mesmo quando seu status era mais de peça de elenco do que de estrela. E, no fim, ele cumpriu a promessa que fez ano passado. “Eu devo tudo ao United e ao Everton por me darem oportunidades no futebol. Fico feliz em poder dizer que, independente do que aconteça no futuro, eu nunca vou jogar por outro clube da Premier League”, afirmou.

A vertiginosa queda de rendimento de Rooney começou efetivamente na última temporada de Ferguson no comando e seguiu claudicante, alternando bons e maus momentos, nos reinados de David Moyes, Van Gaal e José Mourinho. Mesmo assim, renovou por seis anos, com vencimentos recordes, em 2014, para garantir que não seria mais uma mudança drástica de um clube em transformação. Virou capitão da equipe e passou a exercer mais influência nos vestiários. E um pouco menos em campo, embora tenha sido titular com Van Gaal.

Mas não foi com Mourinho: das suas 39 partidas com o técnico português, apenas 25 foram desde o começo. “Nunca é fácil ver um grande atleta jogando menos futebol do que gostaria e, quando ele pediu para voltar ao Everton, eu não pude ficar no caminho dele. Sua experiência, concentração e determinação farão falta e desejo o melhor para ele no futuro”, afirmou Mourinho.

Grandes jogadores voltando para casa geralmente é o sinal do começo do fim e, de certa forma, é o caso para Rooney. Mas também pode ser o começo de um novo capítulo, tanto para ele, quanto para o Everton, que vem demonstrando ambição no mercado de transferências e contratando jogadores interessantes, como Klaasen, Pickford, Michael Keane e Sandro Ramírez. Em Rooney, Ronald Koeman encontra um vencedor, um experiente e uma qualidade rara. “(Vencer títulos com o Everton) seria o ápice”, disse o atacante ao site do Everton. “Eu realmente acho que este clube está indo na direção correta, trazendo o tipo certo de jogadores. Quero ser parte disso e, espero, de um time do Everton de sucesso”.

É assim que as lendas acabam hoje em dia: um comunicado na internet, nas primeiras horas do domingo, colocou fim a uma relação rara no futebol da atualidade. Rooney não é Totti, associado única e exclusivamente a um clube, mas sempre será sinônimo de Manchester United. Tem alguns anos pela frente para talvez também ser de Everton.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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