Premier League

O golaço de Salah ficará na memória, mas o Liverpool sai muito insatisfeito do dérbi

O Liverpool tinha um clássico para aproveitar as incertezas do Everton. Que os Toffees viessem se recuperando nas últimas rodadas, a superioridade dos Reds em relação aos seus rivais nos últimos meses é evidente, especialmente depois da demonstração de força na Liga dos Campeões contra o Spartak Moscou. E o jogo em Anfield não foi muito diferente do que se imaginava, com o time de Jürgen Klopp dominando a posse de bola, embora bem menos agressivo do que poderia ser. O golaço de Mohamed Salah, em fase irretocável, acabou sendo insuficiente aos anfitriões. A insatisfação imperou com o empate por 1 a 1 contra os arquirrivais, principalmente pela maneira como  tudo aconteceu, graças a um pênalti contestável. A igualdade impediu a equipe de ganhar posições na tabela.

Antes do jogo, muitos torcedores do Liverpool não aprovaram a escalação de Jürgen Klopp. O treinador manteve a sua rotação do elenco, mas para isso deixou alguns de seus principais jogadores no banco de reservas. Philippe Coutinho, Roberto Firmino, Emre Can e Georginio Wijnaldum eram apenas opções para o decorrer do jogo. Enquanto isso, Sadio Mané e Mohamed Salah precisaram se virar com companheiros menos renomados, como Dominic Solanke e Alex Oxlade-Chamberlain. Do outro lado, Sam Allardyce era bem mais cauteloso no Everton. Vinha com Oumar Niasse e Dominic Calvert-Lewin na linha de frente, com duas linhas de quatro na marcação.

Em atmosfera fantástica em Anfield e sob a incessante neve que caía, o controle de jogo era do Liverpool desde os primeiros minutos. O time de Jürgen Klopp se impunha no campo de ataque, mas tinha pouco espaço para criar chances de gol. As linhas de marcação do Everton eram firmes e as opções dos Reds não demonstravam grande inventividade para ameaçar a meta de Jordan Pickford. Mané e Salah até tentavam, mas não conseguiam dar continuidade às jogadas. Além disso, os Toffees mantinham a segurança no espaço aéreo, afastando os cruzamentos. Se havia um alívio aos Reds era que os visitantes também não ameaçavam, sem conectar os contra-ataques.

O clássico dependia de uma jogada individual para mudar o seu destino. E ela aconteceu aos 42, graças ao brilhantismo de Salah. O egípcio foi capaz de um lance primoroso na ponta esquerda. Primeiro ganhou a disputa com Cuco Martina. Depois, deu um corte seco em Idrissa Gueye. Com o caminho aberto, acertou um chute cruzado de enorme felicidade, na gaveta de Pickford. Festa em Anfield. Nos acréscimos, os Reds ainda desperdiçaram uma chance claríssima de ampliar. Mané puxou o contra-ataque, mas foi individualista demais na conclusão. O lance acabaria custando caro.

O panorama do jogo não mudou muito no segundo tempo, por mais que Big Sam tenha voltado com duas alterações no Everton. O Liverpool permanecia no controle e assustou de novo, em cabeçadas de Salah e Joe Gómez. O problema é que, se não sofria riscos, o time da casa não fazia por merecer o segundo gol. Até parecia que o placar permaneceria inalterado. Klopp logo passou a fazer suas substituições. Provavelmente, gerou mais alguns chiados quando colocou Roberto Firmino – mas não pelo brasileiro, e sim pela saída de Mohamed Salah, de longe o que mais tentava. E o egípcio faria falta, principalmente depois que os Toffees empataram, aos 30. O pênalti nasceu em um lance fortuito e contestável, em disputa de bola de Dejan Lovren na qual Calvert-Lewin caiu. O árbitro foi na dele e, na cobrança, Rooney encheu o pé no meio do gol, vencendo Simon Mignolet. Em noite apagada, o camisa 10 assinalou o primeiro tento de sua carreira no Merseyside Derby.

Os 15 minutos finais, mais os acréscimos, marcaram o desespero do Liverpool. Klopp logo botou Philippe Coutinho em campo, na vaga de Chamberlain, antes de apostar também em Danny Ings. Os Reds pressionavam muito ao redor da área do Everton, mas não conseguiam penetrar. O camisa 10 vermelho, aliás, monopolizava as jogadas e chamava a responsabilidade para tentar resolver, mas o time só conseguia arrematar de média distância, sem tanto perigo.  Na melhor chance, Firmino não conseguiu completar cruzamento. E ainda houve a reclamação de um toque de mão de Sigurdsson não marcado pelo árbitro.

O Liverpool tem sua razão para questionar a maneira como o empate saiu. Mas também precisa reconhecer os seus erros. Primeiro, Klopp, pela ortodoxia com a rotação que deixou de valorizar o clássico como deveria. Depois, pela falta de incisividade da equipe, que criou poucas chances para o tamanho da supremacia que teve. Os Reds acumularam 79% de posse de bola e finalizaram 23 vezes, contra apenas três do Everton. Ainda assim, apenas três arremates foram em direção à meta de Pickford.

O resultado mantém a situação do Liverpool praticamente inalterada. É o quarto colocado, com 30 pontos, sem conseguir se igualar ao Chelsea (32), à frente do Arsenal (29) e vendo a distância para o Tottenham (28) encurtar. Volta a campo na quarta, para um jogo teoricamente fácil contra o West Bromwich, que não necessitava de tantos cuidados. Já o Everton aparece na metade da tabela, em décimo, com 19 pontos. Não corre os mesmos riscos dos tempos de Ronald Koeman, mesmo que o desempenho seja bem inferior ao tamanho do investimento para esta temporada.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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