Premier League

Há 30 anos, o Everton faturava sua última liga e encerrava período de grandes glórias

Por Emmanuel do Valle, jornalista e dono do blog Flamengo Alternativo

Ao apito final em Carrow Road, na noite de segunda-feira, 4 de maio de 1987, a torcida do Everton celebrou mais uma conquista de um clube que vinha se acostumando a levantar taças nos últimos quatro anos. Os Toffees não sabiam, no entanto, que seu nono título da liga, confirmado com aquela vitória fora de casa sobre o Norwich há exatos 30 anos, encerraria o último período de protagonismo do clube no futebol inglês, levado a cabo por um time coeso, ainda que menos estelar que alguns adversários, e de muito caráter dirigido pelo antigo ídolo do clube Howard Kendall.

O contexto da temporada

Dos dois últimos títulos da liga inglesa conquistados pelo clube azul de Liverpool, ambos nos anos 80 e sob a batuta de Kendall, o da temporada 1984/85 – que veio acompanhado pela Recopa Europeia – é o mais incensado. Foi de fato uma campanha magistral: a taça veio quando ainda faltavam cinco jogos para o fim da campanha e com recorde de pontos ganhos da história do campeonato até ali (90 ao todo, 13 a mais que Liverpool e Tottenham), 18 jogos de invencibilidade (com 16 vitórias) do Boxing Day de 1984 até o começo de maio de 1985, dobradinha de vitórias sobre o arquirrival Liverpool e goleadas memoráveis de 5 a 0 sobre os fortes times do Manchester United e do Nottingham Forest. Um passeio.

The Everton team celebrate after their 2-0 victory over Queens Park Rangers had clinched the First Division League Championship at Goodison Park, 6th May 1985. Back row(left-right): Kevin Richardson, Alan Harper, Neville Southall, Gary Stevens, Andy Gray, Derek Mountfield, Kevin Ratcliffe, Paul Bracewell, Peter Reid, Adrian Heath, Ian Atkins. Front row: Pat Van Den Hauwe, Graeme Sharp, Trevor Steven and Kevin Sheedy. (Photo by Bob Thomas/Getty Images).
Time do Everton, campeão em 1985

Perto disso, a conquista de 1986/87 foi bem mais discreta em feitos. Mas se os resultados não parecem tão expressivos quanto os de dois anos antes (à parte de ter novamente terminado com boa vantagem de pontos sobre os adversários e com o ataque mais positivo e a defesa menos vazada), a história daquele título revela uma resiliência impressionante: basta dizer que o clube havia acabado de vender Gary Lineker – centroavante alçado ao estrelato mundial ao se sagrar artilheiro da Copa do México – ao Barcelona e teve de lidar ao longo da campanha com uma lista de desfalques por lesões que beirava o absurdo.

VEJA TAMBÉM: Os 25 anos do último título do Leeds, uma surpresa às portas da revolução com a Premier League

A começar pelo gol, onde o galês Neville Southall – ídolo, capitão e apontado como o destaque do título de 1985 – sofrera contusão séria em março, ainda na temporada anterior, e demoraria a estrear na campanha atual, sendo substituído temporariamente pelo reserva Bobby Mimms. Gary Stevens, lateral-direito da seleção inglesa, voltara da Copa do Mundo do México também apresentando problemas físicos. A eles se juntavam na lista de desfalques da defesa o quarto-zagueiro Derek Mountfield e o lateral-esquerdo Pat Van Den Hauwe.

No meio-campo, a exemplo de Gary Stevens, o armador Peter Reid, verdadeiro termômetro do time, era outro que integrara a seleção inglesa no México e voltara lesionado. Mas pior mesmo era o estado do volante Paul Bracewell: sua fratura na perna às vésperas da Copa do Mundo não só o tirou do Mundial como também o deixaria de fora da temporada inteira, sem entrar em campo uma única vez. O Everton tinha um elenco fisicamente despedaçado.

A formação da equipe

Para repor as perdas, o técnico Howard Kendall tratou de ir ao mercado – mas sem alarde: para a lateral, posição na qual nada menos que quatro jogadores do elenco estavam lesionados, Kendall pescou o veterano Paul Power, 32 anos, há mais de uma década no Manchester City, e que também podia atuar pela meia-esquerda. Além dele, trouxe do Stoke o ponta Neil Adams.

VEJA TAMBÉM: Há 60 anos, os Busby Babes viviam sua última glória antes do desastre aéreo de Munique

No meio-campo, para ajudar a suprir a ausência de Bracewell, viria Ian Snodin, do Leeds. E, por uma pechincha, o meia Kevin Langley aportou em Goodison Park vindo do pequeno Wigan, da terceira divisão. Teria impacto imediato, com gols importantes no início, enquanto os titulares não retornavam. A única contratação a envolver grandes valores foi a do promissor zagueiro Dave Watson, 24 anos, com passagem pela seleção, e trazido do Norwich por um milhão de libras, quantia recorde paga pelo clube até então.

everton2
Os campeões pelo Everton em 1987

Assim como jogadores chegaram durante a temporada, outros também saíram sem cerimônia. Em fevereiro e março, os atacantes Warren Aspinall e Paul Wilkinson foram recrutados por Aston Villa e Nottingham Forest, respectivamente. Como reposição, Howard Kendall pagou apenas 300 mil libras por Wayne Clarke ao rival do Villa, Birmingham City. Clarke retribuiria com cinco gols em suas dez partidas na reta final da campanha – entre eles o da vitória crucial de 1 a 0 sobre o Arsenal em Highbury.

VEJA TAMBÉM: Dez histórias do Brighton na outra vez em que o clube frequentou a elite inglesa

Outra consequência da crise de lesões foi fazer com que reservas das temporadas anteriores passassem a ser bastante utilizados. O caso mais emblemático é o do curinga Alan Harper, que podia atuar em qualquer posição da defesa e do meio, versatilidade que o levou a ser titular em 29 das 42 partidas da temporada, mais do que a soma das duas anteriores – sempre havia alguma lacuna na escalação a ser preenchida.

Se várias das posições sofriam com desfalques e tiveram que ser solucionadas com os reforços baratos e emergenciais, outras camisas tiveram seus donos incontestáveis durante toda a campanha, mantendo a regularidade não só física como técnica, e salvaguardando a experiência e a mentalidade vencedora daquela equipe. Eram os casos do zagueiro galês Kevin Ratcliffe, do ponta-direita Trevor Steven, do meia-esquerda irlandês Kevin Sheedy, do meia-atacante Adrian Heath e do centroavante escocês Graeme Sharp.

sheedy
Kevin Sheedy

Ratcliffe era um dos líderes do elenco. Steven era o responsável pelas jogadas de linha de fundo e os cruzamentos na medida. Sheedy, meia lúcido e criativo, jogava fechando da esquerda para o meio, ajudando na armação. Heath, espécie de “12º jogador” do time de 1985, era agora bem mais requisitado entre os titulares, tanto no meio quanto no ataque. E Sharp, mesmo com tanta rotatividade entre seus parceiros de ataque, manteve a eficiência das temporadas anteriores.

VEJA TAMBÉM: Há 50 anos, Escócia carimbou a faixa de campeã do mundo da Inglaterra

Apesar das muitas mudanças na escalação jogo a jogo, a equipe se mostrou incrivelmente coesa, jogando um futebol essencialmente coletivo. Este teria sido, aliás, um dos motivos que levaram Howard Kendall a aceitar a proposta do Barcelona por Lineker. Na temporada anterior, o atacante marcara nada menos que 40 gols pelo clube, somando todas as competições nacionais. Mas os Toffees terminaram de mãos abanando. Para o treinador, o erro havia sido jogar em função de seu camisa 9, dependendo demais do poder de decisão de um só jogador. Sem Lineker, os gols foram de fato bem mais distribuídos ao longo da campanha do título – e, é bom lembrar, o time ainda terminou com o melhor ataque da competição.

A campanha

De início, o Everton não parecia sentir os desfalques. O começo de temporada foi bastante tranquilo, com quatro vitórias e três empates nos primeiros sete jogos, incluindo triunfos sobre o Nottingham Forest (2 a 0) e um trepidante Manchester United (3 a 1), então em penúltimo lugar na tabela e em um dos últimos jogos antes de Ron Atkinson ceder seu posto a Alex Ferguson. Pelo fim de setembro, no entanto, os Toffees começaram a navegar em águas mais turbulentas.

O fim da invencibilidade, diante do Tottenham em White Hart Lane (2 a 0), foi seguido pela única derrota em casa da campanha, para o Arsenal (1 a 0) e logo depois outro revés diante do Charlton, em Selhurst Park, por 3 a 2. A equipe se recuperou derrotando o Southampton fora e o Watford em casa, mas ao perder para o West Ham em Upton Park e em seguida empatar em seus domínios diante do Chelsea, despencou para o oitavo lugar na classificação, a posição mais baixa que ocuparia naquela temporada.

A arrancada começou em 29 de novembro, com um 3 a 1 sobre o Manchester City em Maine Road. Nas seis partidas seguintes, exceto por uma derrota como visitante para um bom time do Luton, o Everton venceria sempre por placares elásticos: 4 a 0 diante do Norwich, 3 a 0 sobre o Wimbledon, 4 a 0 contra o Newcastle em St. James’ Park no Boxing Day, 5 a 1 em cima do Leicester dois dias depois e, por fim, 3 a 0 no Aston Villa na rodada de 1º de janeiro de 1987. Foi o suficiente para retomar a confiança e o fôlego.

Virando o ano na segunda colocação, quatro pontos atrás do líder Arsenal, o Everton ficou à espreita. A partir da metade de janeiro, enquanto os Gunners se embrenhavam numa cansativa reta final da Copa da Liga (na qual acabariam levantando seu primeiro caneco em oito anos, derrotando o Liverpool na decisão em Wembley), deixavam o caminho livre para o Everton ultrapassar, ficando dez partidas sem vencer pela liga, ao passo que os Toffees seguiam sua marcha.

Num rápido soluço, na virada de fevereiro para março, quando jogou três vezes fora de casa (contra Oxford, Manchester United e Watford) e somou apenas dois pontos, o Everton passou a ter nova companhia na briga pelo título: era o arquirrival Liverpool, que se aproveitara da hesitação dos ponteiros para chegar ao topo da tabela, credenciando-se a mais uma vez arrancar rumo à conquista da liga – algo bastante frequente em se tratando dos Reds naqueles tempos.

brian-stein-luton-dave-watson-everton_3781259
Dave Watson disputa a bola com Brian Stein, do Luton

Mas pelo fim de março, os papeis se inverteram. A poucos pontos de distância e com jogos a menos, o Everton mostrou que não estava para brincadeiras. Enfileirou sete vitórias seguidas e, bem no meio dessa sequência, recuperou a ponta ao derrotar o Chelsea em Stamford Bridge por 2 a 1 na rodada de 4 de abril – véspera da decisão da Copa da Liga, na qual o Liverpool seria derrotado pelo Arsenal.

Daí em diante, o Everton só fez aumentar a distância na ponta. A vantagem chegou a ser tão confortável que os Toffees puderam se dar ao luxo de desperdiçar duas chances de confirmar o título com mais rodadas de antecedência. Primeiro, naquela que seria a melhor das ocasiões, contra o próprio Liverpool em Anfield (os Reds venceram por 3 a 1). Depois ao empatar sem gols em casa contra um Manchester City que acabaria rebaixado ao fim da temporada.

Mas não houve maior desespero: dois dias depois do tropeço contra os Citizens, a equipe de Howard Kendall visitaria o Norwich. Voltou de lá com uma vitória por 1 a 0 e a taça na mão. O gol do título, marcado de pé direito pelo lateral-esquerdo Pat Van Den Hauwe, saiu logo no primeiro minuto, em jogada confusa após cobrança de escanteio. A viagem de volta, cruzando o país de leste a oeste, foi uma extensa comemoração. Em seus últimos 26 jogos, desde o triunfo contra o Manchester City lá no fim de novembro, o Everton acumulou nada menos que 19 vitórias.

O título e o fim da era Kendall

Com aquela nona taça, os Toffees passavam à frente do Arsenal, assumindo a segunda colocação entre os maiores campeões da liga. Ficavam apenas atrás do rival Liverpool, cujos títulos se multiplicaram a partir de meados dos anos 70 (e já chegavam a 16 naquela altura). Um pouco mais atrás vinham Manchester United e Aston Villa, com sete canecos cada um.

O lado triste da conquista foi que ela representou a saída de Howard Kendall do comando da equipe, insatisfeito por não poder alçar voos maiores no continente em virtude do banimento dos clubes ingleses das copas europeias pela Uefa, ainda vigente na época. A medida já havia tirado do Everton a chance de disputar a Copa dos Campeões em 1985/86 e (pelo menos) a Recopa em 1986/87, em ambos os casos com boas chances de título, e voltaria a deixar o clube de fora da principal competição da Europa.

everton celebrate vs norwich - 1987
Jogadores do Everton comemoram o gol contra o Norwich

O destino de Kendall seria a Espanha, mais precisamente o País Basco, onde comandaria o Athletic Bilbao. Curiosamente, era um dos três treinadores britânicos em atividade na primeira divisão do futebol espanhol no início da temporada 1987/88, com Terry Venables vivendo os últimos meses de seus três anos e meio no Barcelona e o galês John Toshack ostentando a recém-conquistada Copa do Rei com a Real Sociedad. Em seu primeiro ano, Kendall levaria o Athletic ao quarto lugar na liga, conquistando vaga na Copa da Uefa.

VEJA TAMBÉM: Relembre a grande obra de Howard Kendall: o timaço do Everton nos anos 1980

Enquanto isso no Everton, o lugar de Kendall seria assumido por Colin Harvey, seu assistente e ex-companheiro no histórico trio de meio-campo do clube conhecido como “Santíssima Trindade” no fim dos anos 60 e início dos anos 70, juntamente com Alan Ball. Sob o comando de Harvey, o Everton terminou a temporada seguinte numa boa quarta colocação (que certamente valeria vaga na Copa da Uefa, não fosse o ainda vigente banimento dos clubes ingleses).

Aos poucos, porém, o clube foi se afastando das primeiras posições, voltando a figurar entre os quatro primeiros apenas quase duas décadas depois, na temporada 2004/05. Nesse interim, conquistou a FA Cup em 1995, derrotando o Manchester United na decisão, vingando-se da derrota de dez anos antes. Mas o título da liga nunca mais foi comemorado pelos Toffees nos últimos 30 anos.

Outros tempos

A classificação final daquele ano também merece um comentário à parte: com os rivais Everton e Liverpool ocupando as duas primeiras posições, seguidos pela dupla do norte londrino Tottenham e Arsenal na terceira e quarta colocação, respectivamente, o restante dos dez primeiros colocados trazia nomes bastante incomuns à realidade atual, com vários clubes que hoje disputam as divisões inferiores do futebol inglês fazendo bonito.

VEJA TAMBÉM: Dez histórias que fizeram a temporada 1985/86 especial para o Campeonato Inglês

O Norwich, que chegara a ser líder por uma rodada em meados de outubro, a partir de dezembro acomodou-se entre os sete primeiros colocados pelo resto da temporada, terminando em quinto. Em sexto vinha o Wimbledon, em sua temporada de estreia na elite, uma década após ser admitido na Football League. O Luton, por sua vez, chegou a ocupar a terceira posição na reta final, no início de abril, ameaçando se intrometer na briga pelo título com os rivais de Merseyside. Terminou em sétimo, mas mesmo assim comemorou: era a melhor colocação de sua história.

O oitavo colocado foi o Nottingham Forest de Brian Clough, que, se não era mais uma potência continental, pelo menos se acostumara a cumprir boas campanhas, terminando quase sempre na metade de cima da tabela. O Watford, comandado pela última vez por Graham Taylor, fez campanha de recuperação após ser ameaçado pelo rebaixamento no início, terminando num bom nono lugar. E o Coventry, que brilharia dali a algumas semanas vencendo o Tottenham na prorrogação para conquistar a FA Cup, o único título de sua história, fechava o Top 10 de 1987.

Everton 1987 - álbum - página dupla - reduzida maior
Bônus: o álbum de figurinhas do Everton campeão em 1987

Mostrar mais

Emmanuel do Valle

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo