Premier League

Drinkwater vai ao Chelsea para escrever a sua história além do conto de fadas

O coração do Chelsea de Antonio Conte está no meio-campo. O funcionamento da equipe depende fundamentalmente do trabalho feito por seus dois jogadores centrais no já consolidado 3-4-3. N’Golo Kanté não foi o melhor jogador da última Premier League à toa. Assim como teve companheiros com predicados distintos, jogando principalmente ao lado de Nemanja Matic e Cesc Fàbregas. A saída do sérvio para o Manchester United acabou sendo uma perda sentida (e um tanto quanto difícil de entender) dos Blues, pensando na exigência de uma temporada em que também estarão à Champions. No entanto, a qualidade se manteve em Stamford Bridge. Depois de Tiemoué Bakayoko, Danny Drinkwater desembarcou em Londres como mais uma ótima opção ao setor. Assinou por cinco temporadas, em negócio que custou €38 milhões a Roman Abramovich.

Drinkwater reeditará ao lado de Kanté a dupla que fez história no Leicester. As Raposas sabiam da vontade do meio-campista em encontrar novos rumos para a carreira e não dificultaram sua transferência. Porém, assim como procederam em relação a Riyad Mahrez, apenas exigiram que algum clube cumprisse as suas pedidas financeiras. Sinceridade e reciprocidade em um mercado no qual isso não foi comum, em vários clubes da Europa. Nos últimos minutos da janela de transferências, os Blues cobriram os valores e oficializaram a compra do inglês.

Os predicados de Drinkwater são mais do que conhecidos e se complementam bem ao jogo de Kanté. É um meio-campista de bom porte físico, que prima pela qualidade nos passes e chega à frente para finalizar, especialmente com suas pancadas de fora da área. Pode não ser tão intenso quanto o francês, mas tem resistência para aguentar o árduo trabalho no setor. Além disso, sua visão de jogo permite que o time aplique um estilo bastante vertical. Exatamente o que pode ser útil ao Chelsea de Antonio Conte.

A chegada de Drinkwater ainda deixa quatro cartas valiosas na mão do treinador, quando for montar o seu meio-campo. São quatro jogadores com características diferentes, que podem moldar o time conforme o adversário. E que tendem a manter um nível técnico bastante alto dos Blues nas diferentes frentes que disputarão. A permanência no banco de reservas durante algumas partidas poderá gerar alguma insatisfação, e caberá a Conte gerir isso. Além disso, apenas Kanté parece pronto para ganhar a pecha de “titular” neste momento. Entretanto, os londrinos ganham muito com a rotação se ela for bem utilizada.

E ainda há outro ganho fora do que acontece com bola rolando. Drinkwater será mais um ‘homegrown player’, atendendo as demandas do regulamento da Premier League em ter sido formado por um clube local. Apenas 17 jogadores que não se enquadram nas determinações impostas pela liga (ter sido inscrito na federação inglesa ou galesa por três temporadas inteiras ou 36 meses antes do aniversário de 21 anos) são permitidos por elenco. Por isso mesmo o Chelsea se voltou a tantos jogadores ingleses nesta reta final do mercado de transferências, embora a maioria das investidas não tenham se concretizado – e as frustrações dos Blues nesta janela deverão ser tema de outro texto aqui na Trivela em breve.

Ao Leicester, a perda de um campeão não mina a gratidão das Raposas pelos serviços que Drinkwater prestou no Estádio King Power. Trazido do Barnsley quando o clube ainda estava na Championship, o meio-campista passou cinco temporadas e meia no clube. Foi fundamental no acesso, na inimaginável conquista da Premier League e na boa campanha da Champions. Tem o seu lugar no hall de maiores ídolos. Além disso, há outras opções que suplantam sua ausência. Vicente Iborra chegou há algumas semanas e o Leicester (teoricamente) formalizou o namoro antigo com Adrien Silva. A diretoria chegou a um acerto com o Sporting, mas a regularização dos papéis retardou o anúncio oficial – que, segundo o jornal Leicester Mercury, ainda deve acontecer.

Em suas redes sociais, Drinkwater aproveitou para se despedir carinhosamente de todos no Leicester: “Foi uma jornada e gostaria de agradecer vocês. Jogadores, comissão técnica, torcedores… Pelas medalhas, pelos amigos, pelas experiências e, mais importante, pelas memórias. Eu comecei como jogador no clube de vocês e saio como um torcedor. Boa sorte”.

Já em sua apresentação ao Chelsea, ressaltou suas reais intenções em Stamford Bridge: buscar novas taças. “Minhas emoções todas vieram a tona nas últimas horas. Houve frustração, empolgação, fique nervoso. Estou grato que a transferência aconteceu. O Leicester foi grandioso para mim, mas quero seguir em frente e conquistar mais títulos. O Leicester entendeu isso e onde melhor para conseguir que o Chelsea? Estou em uma boa idade. Ganhei muita experiência e espero mostrar isso”, declarou o meio-campista de 27 anos.

Sem dúvidas, o Chelsea representa uma chance para Drinkwater se estabelecer em alto nível. O volante já tem figurado em algumas convocações da seleção inglesa, mas tem bola para ser disputar a titularidade da equipe, considerando a concorrência em sua posição. Uma boa temporada em Stamford Bridge também poderá servir de passaporte à primeira Copa do Mundo do meio-campista, e com mais visibilidade do que teria se permanecesse no Estádio King Power.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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