Premier League

Como Rúben Neves, cobiçada promessa portuguesa, foi parar na segunda divisão inglesa

Rúben Neves subiu para o time profissional do Porto aos 17 anos. Tornou-se o jogador mais jovem a marcar pelo clube na liga portuguesa, logo na sua estreia, contra o Marítimo. Virou capitão no ano seguinte, ao mesmo tempo em que alcançou a maioridade. Tem passagem por praticamente todas as seleções de base de Portugal e duas partidas na principal. Era uma cobiçada promessa: chegou a ser especulado em clubes do calibre de Manchester United, Chelsea e Liverpool. Tem várias qualidades. Demonstra muita compostura, mesmo tão jovem. Um meio-campista que atua à frente dos zagueiros, com boa qualidade de passe, ótima visão de jogo e raciocínio rápido. E, no entanto, trocou um bicampeão europeu pelo Wolverhampton, da segunda divisão inglesa.

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Nada contra o Wolverhampton. Foi o clube mais importante da Inglaterra nos anos cinquenta, mas a transferência inegavelmente representa um passo para trás na sua carreira, quando todos esperavam que desse um à frente – ou pelo menos ficasse mais um tempo no mesmo lugar. Por mais que o futebol inglês seja mais rico e competitivo que o português, Neves não trocou sua terra natal pela Premier League, mas pela Championship. Como isso aconteceu?

Dinheiro evidentemente desempenha o seu papel nessa transferência. O Wolverhampton pagou € 18 milhões por Rúben Neves, tornando-o o jogador mais caro da história da segunda divisão inglesa. Mais do que uma afirmação do poderio financeiro dos clubes da Inglaterra em relação ao resto do continente, é uma demonstração de ambição dos novos donos do clube. O conglomerado chinês Fosun comprou os Wolves, ano passado, com um projeto ambicioso.

Explicando a transferência, Neves não poderia dizer que também não entendeu muito bem o que aconteceu, então citou a tradição do Wolverhampton e o seu desejo de atuar na Inglaterra – que poderia muito bem ser saciado por algum clube da Premier League. “É também uma boa oportunidade para trabalhar novamente com o mesmo treinador do ano passado”, disse o jovem de 20 anos. E é aqui que as coisas ficam interessantes: este treinador é Nuno Espírito Santo, o primeiro cliente da carreira do super-agente Jorge Mendes. Mendes é o elo que conecta Neves, Nuno e o Wolverhampton.

É notória a influência de Mendes, empresário de Cristiano Ronaldo, no futebol português. O agente também é amigo próximo dos chineses que compraram o Wolverhampton e, já na temporada passada, levou o meia Hélder Costa para o Wolves, primeiro por empréstimo, depois por aproximadamente £ 13 milhões. Ivan Cavaleiro e João Teixeira também foram contratados com a participação de representantes de Mendes, segundo esta matéria do Guardian. Mês passado, veio outro português, Roderick Miranda, do Rio Ave. Junto com Neves, o Wolverhampton contratou Willy Boly que, embora francês, é mais um jovem atleta do Porto.

Colocar um agente no comando das transferências é contra as regras da Federação Inglesa, mas, evidentemente, a relação de Jorge Mendes com o Wolverhampton ultrapassa o que costuma ser normal no relacionamento entre clubes e empresários. Na temporada passada, o técnico Paul Lambert reclamou da influência de Mendes na estratégia de mercado do clube que ele treinava. “(Mendes é) alguém de quem, pela amizade com os donos, ouvimos opiniões e conselhos”, disse o diretor administrativo do clube, Laurie Dalrymple. Pelo jeito, quase todas as opiniões e conselhos, como acontecia no Valencia.

O que Mendes está fazendo no Wolverhampton já foi feito no Valencia. O empresário português é próximo de Peter Lim, dono do clube espanhol, que também ouviu vários “conselhos e opiniões” de Jorge Mendes, inclusive na escolha do técnico. Nuno Espírito Santo passou 18 meses no comando da equipe, depois de duas temporadas no Rio Ave, outro clube sob influência do agente.

Coincidentemente, durante o reinado de Nuno no Mestalla, o Valencia também contratou um punhado de portugueses: André Gomes, João Cancelo e Rodrigo, além de Enzo Pérez e Otamendi, argentinos, mas clientes de Jorge Mendes. O projeto ibérico começou bem no Valencia, com o quarto lugar no Campeonato Espanhol, mas as coisas degringolaram rapidamente, e Nuno deixou o clube em novembro de 2015. Entrou Gary Neville, outro parceiro comercial de Lim por meio do Salford City. O Valencia amargou duas campanhas de meio de tabela seguidas.

Nuno Espírito Santo foi levado por Mendes para o Porto, na última temporada, e não conquistou nenhum título. Mais uma vez desempregado, ganhou outro emprego do seu excepcional empresário e terá a chance de testar suas habilidades na Inglaterra. E o curioso é que Rúben Neves sofreu para jogar sob o comando de Nuno: apenas 18 partidas, nove como titular, em todas as competições que os Dragões disputaram. Neves espera que a história seja diferente no Wolverhampton – e deve ser. Os torcedores também esperam que a influência de Mendes seja controlada para que o clube não se torne meramente uma vitrine para seus clientes.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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