Inglaterra

Por que Matip, mesmo fora da CAN, não está jogando pelo Liverpool?

Joel Matip não joga pelo Liverpool desde 11 de dezembro, no empate por 2 a 2 contra o West Ham. Esteve machucado, com uma lesão no tornozelo, mas se recuperou a tempo de enfrentar o Manchester United, no último domingo. Não enfrentou. Tem condições de jogo para encarar o Plymouth, nesta quarta-feira, pelo replay da terceira rodada da Copa da Inglaterra. E também não fará isso, graças a uma grande confusão envolvendo a Federação Camaronesa e a Fifa.

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Matip não defende a seleção camaronesa desde setembro de 2015. Sua última partida foi contra Gâmbia, em uma eliminatória da Copa Africana de Nações. Mesmo assim, o treinador Hugo Broos decidiu incluí-lo na lista de 35 jogadores pré-convocados para a CAN deste ano, no Gabão. Matip e outros seis jogadores entraram em contato com a comissão técnica, por telefone, para recusar a chamada e não constaram na relação final. Cada um por um motivo, segundo uma nota oficial da Federação Camaronesa. O de Matip foi uma “experiência ruim” com a comissão técnica anterior. Os outros seis atletas foram Allan Nyom (West Brom), André Onana (Ajax), Guy N’Dy Assembe (Nancy), Maxime Pounje (Bordeaux), André Zambo (Olympique Marseille) e Ibrahim Amadou (Lille). Eric Maxim Choupo-Moting, do Schalke 04, também retirou-se da convocação, já no começo de janeiro.

O problema começa porque a Federação Camaronesa de Futebol não recebeu a notícia com um sorriso no rosto. “Como podemos notar, esses jogadores querem privilegiar seus interesses pessoais em detrimento do time nacional, que alguns deles já usaram no seu desenvolvimento. A Federação de Futebol de Camarões reserva-se ao direito de tomar ações contra esses jogadores, de acordo com o regulamento da Fifa”, escreveu a entidade, em sua nota oficial.

O que diz o regulamento da Fifa? Diz basicamente que Camarões tem razão nessa história. O primeiro item do Artigo 1 das normas de liberação de jogadores para associações nacionais afirma que “os clubes são obrigados a liberar seus jogadores registrados para representarem os países pelos quais eles são elegíveis para jogar, com base em sua nacionalidade, se eles forem convocados pela respectiva federação. Qualquer acordo entre jogador e clube no sentido contrário é proibido”. Isso em caso de partidas internacionais que fazem parte do calendário oficial da Fifa, como a Copa Africana de Nações.

E segue: “Um jogador que tenha sido convocado pela sua federação para representar um de seus times não está, a menos que concordado com a respectiva federação, elegível para jogar pelo clube em que ele está registrado durante o período em que ele deveria ter sido liberado. A restrição deve ser prolongada em cinco dias no evento de o jogador, por qualquer motivo, não querer ou estar indisponível para cumprir com a convocação”. Evidentemente, há punições para quem descumprir essa regra. Quem colocar em campo um jogador que deveria estar defendendo a seleção nacional de seu país corre o risco de perder os pontos daquela partida e, em caso de mata-mata, ser eliminado da competição.

Por isso, a cautela do Liverpool. Segundo o clube inglês, não houve nenhuma confirmação da Federação de Camarões a respeito da situação de Matip. Disse, também, que o jogador aposentou-se da seleção em setembro de 2015. Logo, para todos os efeitos, ele não pode ser considerado jogador do time nacional. “A visão do Liverpool é que o jogador deveria estar disponível para jogar pelo seu clube durante o período da competição e continuará a trabalhar para uma resolução definitiva e rápida”, disse, em nota.

O técnico Jürgen Klopp afirmou que o clube procurou a Fifa para esclarecimentos na última sexta-feira, e a entidade pediu uma semana para informar se abrirá um caso disciplinar ou não. Nesse caso, serão mais sete ou dez dias até uma decisão definitiva. Além dos jogos contra o Manchester United e o Plymouth, Matip ficaria de fora de pelo menos mais duas partidas – Swansea e Southampton, pela semifinal da Copa da Liga Inglesa.

“Ele não está nada feliz com essa situação”, disse Klopp. “Eu disse para ele, antes do jogo contra o United: ‘Desculpe, não posso escolher você’. Não somos o único clube nessa situação. O Schalke, na Alemanha, e o West Brom. O goleiro do Ajax. É muito difícil entrar em contato com as pessoas e essa é a situação. Estamos sentados aqui porque o que fazemos é muito importante. Precisamos saber para onde temos que ir. Se você tem um jogador machucado, você sabe que será um tratamento de uma semana até ele estar disponível. Você pode antecipar um dia, se for possível. Agora, temos que esperar por um jogador em forma, que está treinando muito bem e que não joga por Camarões há 16 meses? É difícil. Realmente muito difícil de aceitar”.

Diante do que diz o regulamento, tudo depende de um acordo entre a Federação Camaronesa, a Fifa e os clubes interessados para que todos esses jogadores possam continuar a trabalhar em paz – e a Federação não parece estar abundando de boa vontade para que isso aconteça.  A Fifa, no entanto, precisa encontrar uma maneira melhor de lidar com essas situações, até mesmo modificando o regulamento, porque não é correto que as federações tenham o direito de obrigar jogadores a defenderem as seleções contra a sua vontade. Elas não pagam salários aos membros do time nacional, sequer tem um contrato com eles. Muitos realmente usam a seleção como plataforma para crescer na carreira, mas não podem ficar eternamente amarrados a elas por causa disso. Defender as cores do seu país é uma honra, mas tem que ser uma honra bem-recebida e não imposta.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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