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Pogba e a história do “filho pródigo da base” que vem se tornando cada vez mais comum

Quem acompanhava as categorias de base do Manchester United já conhecia Paul Pogba. Não existia a certeza sobre a afirmação do garoto, mas se sabia do talento bruto que os Red Devils poderiam aproveitar. Em 2011, ele brilhou na conquista da FA Youth Cup, a mais tradicional competição de base do futebol inglês. Inclusive, recebia também as primeiras chances no time principal. Mas a falta de espaço levou o prodígio a optar por sua saída. Não à toa, a Juventus cresceu o olho e o levou sem custos. Para, agora, lucrar milhões com o retorno do francês a Old Trafford.

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A história de Pogba, da promessa que deixa o clube para voltar como astro, não é inédita. Mais do que isso, tem se tornado comum nos últimos anos. Basta vez a atual janela de transferências. Mats Hummels desponta como principal acréscimo do Bayern de Munique, depois de ser levado a baixo custo pelo Borussia Dortmund. Algo parecido com o vivido por Álvaro Morata, que não saiu barato para Juventus, mas o bom desempenho o levou de volta ao Real Madrid, graças à cláusula de recompra.

Nos últimos anos, há outros tantos exemplos. O Barcelona viu o caso se repetir diversas vezes, seja com Piqué, Fàbregas, Jordi Alba e Aleix Vidal. Do outro lado da rivalidade, o Real Madrid também acionou sua cláusula de recompra com Dani Carvajal e Casemiro. O Chelsea foi buscar de volta Nemanja Matic. E o Borussia Dortmund se beneficiou pelo fato de que Marco Reus seguiu fiel a sua torcida pelos aurinegros, mesmo saindo pela porta dos fundos nas categorias de base rumo ao Borussia Mönchengladbach.

Do ponto de vista mais simples, muitos destes negócios parecem absurdos. São clubes poderosos que, de certa maneira, não identificaram tão bem os talentos que tinham em mãos e gastaram um dinheiro desnecessário – em alguns casos, apenas uma temporada depois. No entanto, pensando na lógica de trabalho de muitos destes gigantes, o erro diminui de tamanho. E é possível crer que esse tipo de atitude se torne cada vez mais corriqueira ao longo das próximas temporadas.

Ainda que as categorias de base permaneçam gerando os seus talentos, o nível de exigência para se afirmar nas potências europeias é crescente. Não há paciência. É ter sucesso no teste de fogo, rodar por empréstimos ou tentar a sorte em outro lugar. Como jogadores iguais a Marcus Rashford são exemplos raríssimos, a segunda e a terceira alternativa acabam sendo o caminho. Jesse Lingard, outro da geração de 2011 do Manchester United, passou por quatro empréstimos até realmente se afirmar no elenco do clube. Pogba, por sua vez, preferiu a Juventus.

O resgate de jogadores da base, por fim, acaba ainda sendo um selo. Uma marca para tentar exaltar a “cria da casa” e gerar uma aproximação com o público, não apenas no apoio das arquibancadas, mas também na venda de produtos. É nessa grife que o Barcelona aposta quando vai atrás de algum prodígio de La Masia perdido em outro clube. É nessa tecla também que o Manchester United tem batido tanto na confirmação de Pogba, enfatizando a “volta do filho pródigo” em suas ações com o francês.

Tudo acaba girando ao redor do negócio. E, neste ponto, quanto mais midiático, melhor. Pogba vem para ser o protagonista do Manchester United, não só dentro de campo. Para isso, todo o enredo ajuda a construir sua idolatria. As categorias de base, neste ponto, acabam servindo mais como um adereço do que uma real fonte de formação de talentos. A tal cláusula de recompra, uma segurança para que não se perca por completo o talento, tende a se tornar ainda mais comum.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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