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Os Magos de Wembley: há 50 anos, Escócia carimbou a faixa de campeã do mundo da Inglaterra

Por Emmanuel do Valle

Carimbar a faixa de um grande rival, especialmente no campo do adversário, é uma das grandes delícias do futebol. Há exatos 50 anos, a seleção da Escócia vivia momento histórico, ao bater a odiada Inglaterra, recém-coroada campeã do mundo, em partida épica no mesmo palco da final da Copa do Mundo de 1966, o lendário estádio de Wembley. A vitória por 3 a 2 deu o título do Campeonato Britânico daquele ano aos escoceses e levou aquele time a ser batizado de “Magos de Wembley”. Foi ainda a primeira grande comemoração em um ano que se revelaria memorável para o futebol daquela nação.

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A chegada dos ingleses ao olimpo do futebol, proclamados campeões mundiais no torneio que sediaram, encheu de brios seus vizinhos ao norte das ilhas britânicas. Até porque a Escócia sequer havia se classificado para a Copa, caindo no Grupo 8 europeu, atrás da Itália e à frente de Polônia e Finlândia. Para se ter uma medida da rivalidade que aflorava na época, conta-se que o atacante escocês Denis Law preferiu nem assistir à final, indo jogar golfe. Ao saber que os comandados de Alf Ramsey haviam conquistado o título, apenas exclamou: “Filhos da p…”.

Os escoceses tinham ainda atravessada na garganta uma humilhante goleada de 9 a 3 sofrida diante dos rivais em Wembley em abril de 1961, pelo Campeonato Britânico. Ainda que tivessem vencido os três confrontos imediatamente posteriores (incluindo um no mesmo estádio dois anos depois), estavam ansiosos por uma forra em grande estilo, oito meses e meio depois de Bobby Moore levantar a Jules Rimet. E agora, acreditavam eles, era chegado um momento propício para uma grande atuação. A Escócia jogaria naquele 15 de abril de 1967 sua final de Copa do Mundo particular.

A confiança também havia crescido nos meses que se seguiram ao encerramento do Mundial graças ao momento ascendente vivido futebol escocês em nível de clubes, talvez alimentado exatamente pela obrigação de mostrar jogo diante do status dos rivais. Três dias antes do clássico de seleções, o Celtic havia derrotado o Dukla Praga por 3 a 1 em Glasgow pelo jogo de ida das semifinais da Copa dos Campeões, ficando bem próximo de se tornar o primeiro britânico a decidir o principal torneio de clubes do continente.

Enquanto isso, o Rangers se preparava para entrar em campo na semana seguinte contra o Slavia Sofia pela mesma fase da Recopa, depois de ter deixado para trás o atual campeão Borussia Dortmund e o bom time do Zaragoza, que havia eliminado o Everton. Os dois rivais de Glasgow cederiam jogadores importantes à seleção – que estreava Bobby Brown, seu primeiro treinador com dedicação exclusiva – naquela tarde em Wembley.

Dos Hoops vinham o goleiro Ronnie Simpson, que aos 36 anos se tornava o estreante mais veterano da história da seleção escocesa; o lateral Tommy Gemmell, famoso pelo jogo ofensivo e chute forte; além dos pontas Willie Wallace e Bobby Lennox. Os Gers, por sua vez, cediam a dupla de zaga, formada pelo capitão John Greig e Ron McKinnon (substituto do lesionado Billy McNeiil, do Celtic).

Os times entram em campo em Wembley
Os times entram em campo em Wembley

Ainda assim, a seleção também contava com jogadores que vinham se destacando mais ao sul da ilha. Cinco jogadores que defendiam clubes ingleses estavam entre os titulares. O lateral Eddie McCreadie, do Chelsea, era o único a jogar em Londres. O meia Jim McCalliog, do Sheffield Wednesday, vinha de experiência amarga no estádio ao perder de virada a final da FA Cup do ano anterior para o Everton. E outro meia, Jim Baxter, era nome histórico do Rangers, mas defendia na época o Sunderland.

Os dois nomes que se tornariam os mais marcantes entre os “ingleses” que defendiam a Escócia naquele dia, no entanto, eram o meia Billy Bremner, do Leeds, e o atacante Denis Law, do Manchester United. Bremner era o motor de um time igualmente ascendente dos Whites treinado por Don Revie. E Law, que já havia passado pelo Manchester City e rapidamente pelo Torino, agora se consolidava como ídolo dos Red Devils, formando a chamada “Santíssima Trindade”, ao lado de Bobby Charlton e do norte-irlandês George Best.

Do outro lado, os ingleses pareciam imperturbáveis e cheios de si, com razão. Invictos há 19 partidas oficiais (a última derrota fora um 3 a 2 para a Áustria em Wembley em outubro de 1965), tentariam igualar seu recorde de 20, estabelecido entre 1890 e 1896. Contra os escoceses, levariam a campo o mesmo time que derrotara os alemães ocidentais na final do Mundial, exceto por uma modificação no ataque: Roger Hunt daria lugar a Jimmy Greaves (que fora titular na primeira fase da Copa).

O time dirigido por Alf Ramsey vinha de duas vitórias tranquilas pelo Campeonato Britânico: 2 a 0 diante da Irlanda do Norte em Belfast e uma surra de 5 a 1 no País de Gales em Wembley, enquanto os renovados escoceses, além de deixarem um pontinho no empate em 1 a 1 com os galeses em Cardiff, haviam suado um pouco mais para derrotar de virada os norte-irlandeses em Glasgow por 2 a 1.

Aliás, aqui é preciso abrir um parêntese: todos estes jogos valiam ao mesmo tempo pelo Campeonato Britânico da temporada 1966-67, disputado no formato de um quadrangular em turno único, e também pelo Grupo 8 das Eliminatórias para a Eurocopa de 1968 (que seria completado com os jogos válidos pela edição seguinte do Home Championship, com os mandos invertidos). Era a primeira vez que o torneio europeu de seleções tinha sua fase inicial de classificação no formato de grupos, assim como era a primeira participação da Escócia na competição, depois de não se inscrever em 1960 e 1964.

Naquela tarde de sábado, a Escócia já saiu surpreendendo. Em um jogo de maneira geral bem intenso, veloz (especialmente para os padrões da época) e também muito nervoso e pegado, o Tartan Army não se intimidou nem um pouco em Wembley, até porque jogava praticamente em casa: Kenneth Wolstenholme, lendário narrador da BBC, comenta durante a transmissão sobre os cerca de 40 mil barulhentos escoceses presentes em meio aos quase 100 mil torcedores no estádio.

Inflamados, os “visitantes” atacaram mais, morderam, apertaram a saída de bola da Inglaterra e criaram muitas chances, desde os primeiros minutos. Para isso, contavam com uma arma tática: o apoio constante dos laterais Tommy Gemmill e Eddie McCreadie – sem ter a quem marcar, já que os ingleses, armados no 4-4-2 em formato de diamante (os históricos “Wingless Wonders”) raramente atacavam pelas pontas.

Apesar de encurralados pela maior parte do jogo e obrigados a sair na base de lançamentos longos, os comandados de Alf Ramsey também levaram perigo em alguns lances. Logo no início o Jimmy Greaves quase marcou um gol olímpico (acertou o travessão) numa cobrança fechada de escanteio. E ao longo da partida, os ingleses veriam a defesa escocesa salvar dois gols certos em cima da linha.

Law comemora o primeiro gol da Escócia
Law comemora o primeiro gol da Escócia

Mas o que acabaria sendo crucial para a pressão constante da Escócia nos 90 minutos foi a lesão, logo aos 14 minutos, do zagueirão inglês Jack Charlton. O defensor quebrou um dedo do pé, deixando a Inglaterra temporariamente com dez, já que as substituições não eram permitidas na época. Mais tarde, por volta dos 28, ele retornaria fazendo número como centroavante, levando perigo nas bolas aéreas.

A Escócia perdeu um gol inacreditável aos 20 minutos, numa saída errada da Inglaterra. Banks rolou uma cobrança de tiro de meta para Ray Wilson perto da linha de fundo e pediu de volta. Só que Willie Wallace entrou no meio, tomou a bola e cruzou. Com o gol totalmente aberto, Law chegou uma fração de segundo atrasado e só conseguiu bater meio desajeitado na bola, que parou na rede, mas pelo lado de fora.Minutos depois, porém, o centroavante se recuperou: Banks deu rebote de um violento chute de Willie Wallace de fora da área e Law não perdoou, abrindo o placar.

O marcador só voltaria a ser movimentado – freneticamente, aliás – nos 12 minutos finais. Primeiro os escoceses abriram 2 a 0 aos 33 minutos. Numa cobrança de falta próxima à área, a bola foi rolada para Gemmill, que bateu forte. Ball cortou de cabeça e a bola voltou para o lateral, que mesmo marcado conseguiu passar adiante. Wallace fez o corta-luz, e ela chegou a Bobby Lennox, desmarcado dentro da área, que bateu cruzado com categoria para ampliar.

Os escoceses passaram a tocar a bola de pé em pé, gastando tempo. E um lance em particular ficou para sempre eternizado na história do clássico: Aos 38, Denis Law recebe a bola na meia direita, para e toca de calcanhar para Jim Baxter. O meia recebe, levanta a bola, faz três embaixadinhas – como que para simbolizar o controle total da Escócia no jogo e provocar os ingleses – e devolve ao atacante.

Só que o jogo ainda não havia acabado. E no lance seguinte a Inglaterra ensaia um renascimento. Greaves carrega pelo lado esquerdo e abre na ponta para Alan Ball. O camisa 7 passa novamente ao atacante, agora dentro da área, recebe de volta de calcanhar e limpa o goleiro Simpson. A bola sobra para Jack Charlton, e o zagueirão improvisado de centroavante não desperdiça a chance. Mas, mancando muito, mal consegue comemorar.

E os ingleses mal têm tempo de acordar no jogo. Primeiro, Hurst é desarmado por McKinnon na linha do meio-campo, e a bola sobra para Baxter, que dá ótimo passe a Law. O atacante dá um leve toque por baixo da bola tentando encobrir Banks, mas o goleiro dá um passo para trás e espetacularmente voa para dar um tapa na bola e ceder escanteio. Depois, Bremner se antecipa a Jack Charlton, cruza o meio-campo e desce para a ponta-esquerda carregando a bola até quase a linha de fundo, quando passa a Lennox. O ponta passa a McCalliog, vindo de trás, e o estreante na seleção entra na área, tabela com Wallace e fuzila Banks. Inapeláveis 3 a 1 a três minutos do fim.

O ponto final do placar ainda seria dos ingleses, um minuto depois, quando Hurst escorou de cabeça uma bola alçada por Bobby Charlton para a área. Mas já era tarde para buscar o empate. Após o apito final, aos poucos o gramado foi sendo tomado pela torcida escocesa, que comemorou com seus heróis, agora autoproclamados “campeões não-oficiais do mundo”.


De fato, além do título simbólico, a Escócia saiu de Wembley com uma taça, a do Campeonato Britânico de 1966/67. Mas a sequência das Eliminatórias acabaria não sendo favorável ao Tartan Army: uma derrota inesperada para a Irlanda do Norte em Belfast (1 a 0, gol de Dave Clements) deixou a equipe na necessidade de vencer novamente os ingleses, agora no Hampden Park, para manter a posse do troféu do Campeonato Britânico e também obter a vaga para as quartas de final da Eurocopa. O empate em 1 a 1 em 24 de fevereiro de 1968 deu o título e a classificação à Inglaterra.

De qualquer modo, o ano de 1967 já havia entrado para a história do futebol escocês: além da vitória em Wembley, o Celtic levantou a Copa dos Campeões, enquanto o Rangers ficou com o vice na Recopa e o pequeno Kilmarnock chegou às semifinais da Copa das Feiras. Em termos de Copa do Mundo, porém, a Escócia só teria sua vingança diante dos rivais na década seguinte, quando por duas vezes (em 1974 na Alemanha Ocidental e em 1978 na Argentina) se tornaria a única seleção britânica a se classificar para o Mundial.

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Emmanuel do Valle

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas.

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