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Jogo pouco importou: Anfield reservou a Gerrard a despedida que os gigantes merecem

Antes de deixar os vestiários em direção ao campo, os jogadores do Liverpool têm a tradição de dar um tapinha na placa “This is Anfield!” para lembrar que não estão prestes a jogar bola em qualquer estádio, mas em um templo do futebol. E depois de 17 anos como meia, capitão e símbolo do seu povo, Steven Gerrard fez isso pela última vez. Neste sábado, recebeu a despedida reservada apenas aos grandes na partida derradeira da sua carreira nos metros quadrados onde mais foi feliz.

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Do começo ao fim, foi um dia especial porque o clube fez questão que fosse assim. O capitão que nunca permitiu que seus companheiros caminhassem sozinhos entrou depois deles em campo. Os outros jogadores, os humanos, fizeram um túnel para aguardá-lo, acompanhado das suas três filhas. Aplaudiram-no. Um belo mosaico com a palavra “Captain” e outro com “S8G”. Em seus ouvidos, a música que a torcida compôs para ele e também o último “You Never Walk Alone” que ouviu como jogador do Liverpool, cantado com especial harmonia pelas arquibancadas do estádio.

Tudo girava ao redor dele, da reação dos torcedores à transmissão. Até mesmo os seus companheiros, de vez em quando, buscavam lhe dar uma chance de marcar mais um gol, abrir os braços e escorregar de joelhos. Parece justo, depois de Gerrard passar 17 anos dando tudo que tinha para o Liverpool. Uma representação pura não apenas de técnica, mas também de raça e coração, o que às vezes é mais importante do que aquele título inglês que nunca foi conquistado.

Quem quis participar da festa foi Martin Kelly, lateral formado nas categorias de base do Liverpool, que errou uma saída de bola e permitiu que Lallana arrancasse pela direita e tocasse pelo alto para abrir o placar. A poucos minutos do intervalo, Puncheon, belo cobrador de faltas, enganou Mignolet, chutou no contrapé do goleiro, e empatou.

Talvez o convidado para a despedida não tenha sido o mais apropriado. O mesmo Crystal Palace que foi buscar aquele empate por 3 a 3 na última temporada, que praticamente enterrou as chances do Liverpool ser campeão, também jogou baldes de água no chope da festa de Gerrard. No segundo tempo, Zaha completou um cruzamento da esquerda para virar o jogo, e Bolasie quase ampliou com uma bela jogada que terminou no travessão.

O Liverpool pressionou para não mandar Gerrard aos Estados Unidos com uma derrota em casa, porque para falar a verdade, essa era a única importância do resultado dessa partida para o time. Com tantos erros e tropeços, foi impossível chegar à penúltima rodada ainda com chances de se classificar à próxima Champions League. A derrota por 3 a 1 para o Crystal Palace apenas confirmou o que todos já sabiam. E era inevitável. O lance do terceiro gol dos visitantes confirma isso. Lucas cometeu falta em Zaha fora da área, mas o árbitro marcou pênalti. Mignolet conseguiu defender a cobrança de Murray, mas o jogador do Palace marcou no rebote.

Um gol de Gerrard? Todos estavam esperando, da tenista Caroline Wozniacki a Gérard Houllier, de Ian Rush a Kenny Dalglish. Todas as celebridades e lendas que estavam na arquibancada e os torcedores comuns. Mas não aconteceu. O último foi mesmo aquele de cabeça contra o Queens Park Rangers. Aquele que garantiu a última vitória do camisa 8 em Anfield Road, a última vez que ele foi decisivo para o seu time.

A partida terminou, junto com a carreira de Gerrard no estádio do seu clube de coração, mas as homenagens continuaram. Todos os jogadores do elenco voltaram ao gramado vestindo a camisa 8. O microfone foi dado ao capitão para as últimas palavras. “Estou absolutamente devastado porque nunca vou jogar para esses torcedores novamente”, disse. O discurso foi interrompido porque a torcida não queria ficar quieta. Gritou o nome dele várias vezes, e em certo momento pareceu que as lágrimas finalmente viriam. Talvez para evitá-las, Gerrard encerrou o evento, pegou a filha no colo e foi embora. Enquanto isso, as arquibancadas entoavam “You Will Never Walk Alone”, um canto que nunca foi tão literal.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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