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O adeus de Ken Bates, o cartola inglês mais emblemático

O futebol inglês viu neste final de semana aquela que deve ser a despedida de um de seus cartolas mais peculiares. Ken Bates deixou o comando do Leeds e, aos 81 anos, dificilmente se aventurará outra vez no futebol. Um personagem muitas vezes controverso, cuja trajetória serve para resumir bastante sobre a forma como o futebol se transformou em um negócio.

Torcedor do Queens Park Rangers durante a infância, Bates tentou ser jogador de futebol, sem sucesso. Para sua sorte, os investimentos em sua empresa de logística prosperaram, permitindo que ele vivesse o futebol por dentro após fazer sua fortuna. Passou pela direção do Oldham na década de 1960 e tornou-se um dos donos do Wigan em 1980. O grande salto, porém, aconteceu dois anos depois, quando comprou o Chelsea por uma libra.

A situação dos Blues era caótica. Próximo da bancarrota, o clube teve que vender até mesmo algumas de suas posses, incluindo o terreno de Stamford Bridge. Bates evitou o pior e estabilizou os londrinos na elite do Campeonato Inglês. Depois de dois títulos da segunda divisão na década de 1980, o Chelsea subiu de patamar na década seguinte, conquistando duas Copas da Inglaterra, uma Recopa Europeia e uma Supercopa Europeia.

Pode parecer pouco perto do que ganhou Roman Abramovich, que comprou o clube em 2003, evitando o impacto da dívida acumulada de 80 milhões de libras. Porém, com Bates o Chelsea tinha força suficiente para figurar entre os seis primeiros colocados da Premier League, bem como para contratar craques do calibre de Ruud Gullit, Gianfranco Zola, Marcel Desailly e George Weah. Não era um dos mais clubes fortes da Europa, como hoje, mas brigava pelas vagas nas competições continentais.

Em seus últimos anos em Stamford Bridge, Bates também acumulou a função de presidente da empresa responsável por administrar o Estádio Wembley. Já a volta ao ambiente de um clube aconteceu em 2005, ao comprar metade das ações do Leeds. Os Whites já estavam quebrados e o cartola nunca conseguiu levar o time de volta à Premier League. No fim de 2012, o dirigente vendeu suas ações a um grupo de investimentos árabe e ainda permaneceu na presidência, até renunciar ao cargo por um conflito com os novos donos.

A imagem de Bates na Inglaterra, no entanto, é bastante distante de um benfeitor do futebol. Chegou a ser investigado algumas vezes por movimentações financeiras em paraísos fiscais e sempre se manteve nas manchetes pelas declarações polêmicas. Em uma de suas ações mais célebres, quis instalar cercas elétricas nas arquibancadas de Stamford Bridge para evitar a invasão do gramado por hooligans.

No apagar das luzes, sai do futebol com a imagem de um administrador hábil, mas de ações nebulosas. Mais do que salvar clubes, soube se aproveitar desse sucesso nos negócios para fazer seu próprio lucro – por exemplo, após vender o Chelsea para Abramovich, mudou-se para Monaco. Sem dúvidas, alguém apaixonado pelo esporte, mas muito mais interessado no próprio dinheiro.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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