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Há 35 anos, o último Aston Villa campeão inglês: uma façanha conquistada por apenas 14 jogadores

Por Emmanuel do Valle, jornalista e dono do blog Flamengo Alternativo

Sair de uma fila de 71 anos na liga nacional é um feito e tanto. Consegui-la em meio a um período de domínio de outro clube na competição também é especial. E cumprir toda essa longa e estafante (mas, ao fim, vitoriosa) temporada utilizando apenas 14 jogadores, como fez o Aston Villa dirigido por Ron Saunders há 35 anos, é sem dúvida uma grande proeza. Façanha que acaba como saudade, diante da péssima campanha que os Villans fizeram na Premier League, com o rebaixamento já consumado neste final de semana.

Em maio de 1981 o clube de Birmingham conquistou seu sétimo (e último) título inglês, o primeiro desde 1910, superando o então quase hegemônico Liverpool e outros fortes adversários como o Nottingham Forest, de Brian Clough, e o Ipswich, de Bobby Robson. Para isso, Saunders precisou lançar mão de apenas pouco mais do que um time titular, o que torna a conquista ainda mais impressionante. Para se ter uma ideia, o Manchester United campeão da Premier League em 2009 teve de recorrer a 33 atletas em suas 38 partidas. Já o Leicester, atual líder da liga, usou 23 atletas nas 34 rodadas disputadas até o momento.

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O elenco utilizado pelo Aston Villa naquela conquista histórica foi tão enxuto que pode ser lembrado nominalmente. O goleiro era o experiente Jimmy Rimmer, ex-Manchester United e Arsenal, 33 anos completados durante a temporada e até então o único daquele elenco a ter passagem por seleção (uma partida pela Inglaterra, em 1976, durante o Torneio Bicentenário dos EUA). Na lateral direita jogava o ofensivo Kenny Swain, ponta de origem. A zaga era formada pela dupla escocesa Allan Evans e Ken McNaught. Do lado esquerdo, Gary Williams e Colin Gibson, duas crias da base, revezavam-se como laterais apoiadores. No meio, o escocês Des Bremner e o capitão Dennis Mortimer formavam a dupla de volantes, com Gordon Cowans dando o toque de talento na armação, enquanto Tony Morley era o drible e a velocidade pelo flanco esquerdo. Na frente, o jovem Gary Shaw (19 anos, eleito a revelação da temporada) se movimentava e infernizava defesas, ao lado do centroavante Peter Withe, forte, brigador, autêntico camisa 9, mas também um jogador inteligente no posicionamento. Completavam o elenco utilizado o lateral irlandês Éamonn Deacy e o atacante David Geddis. E era isso.

Taticamente, o time deixava um pouco de lado o tradicional 4-4-2 com duas linhas de quatro. Todo o apoio pelo lado direito vinha de Swain, já que Bremner, apesar de atuar com a camisa 7, fechava pelo meio na função de volante “carregador de piano”, de movimentação intensa, e só caía pelo lado para cobrir os avanços do lateral pelo seu corredor. Mortimer, o outro volante, saía jogando de trás, mas o cérebro do time era Cowans, ao passo que o ponta Morley jogava quase colado à linha lateral. Sem dispor de tantos jogadores tecnicamente exuberantes, o Villa jogava um futebol sério, vigoroso e de muita luta, mordendo o tempo todo e em todos os setores, muitas vezes duro, mas que não chegava a ser violento. Alguns jogadores que simbolizavam esse estilo eram o zagueiro Evans (bom no jogo aéreo, marcou 51 gols em 380 jogos pelo clube), os meias Bremner e Mortimer e o atacante Withe.

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No alto: Eamonn Deacy, Ken McNaught, Jimmy Rimmer, David Geddis, Gary Williams. No meio: Des Bremner, Colin Gibson, Tony Morley, Gordon Cowans. Na frente: Allan Evans, Gary Shaw, Ron Saunders (técnico), Dennis Mortimer, Kenny Swain, Peter Withe.

Outro dado que torna possível ter uma ideia do vigor físico daquela equipe é que nada menos que sete jogadores (incluindo os quatro meio-campistas) atuaram como titulares em absolutamente todas as partidas da campanha. E embora o clube não tenha disputado nenhuma competição europeia naquela temporada e tenha sido eliminado cedo tanto da FA Cup quanto da Copa da Liga, vale lembrar que na época eram 22 os clubes na elite inglesa, totalizando 42 partidas para cada equipe. Além disso, os problemas na composição do calendário que ainda hoje afetam a Premier League eram ainda mais dramáticos então. Basta dizer que após vencer o Stoke por 1 a 0 no Villa Park na rodada de Boxing Day, em 26 de dezembro, no dia seguinte os Villans já estavam de novo em campo em Nottingham, com apenas uma alteração no time (Geddis no lugar de Withe) para arrancar um empate em 2 a 2 com o fortíssimo Forest de Brian Clough, então bicampeão europeu. “Muitas vezes nós jogávamos mesmo lesionados porque não queríamos perder o lugar no time”, relembrou o zagueiro Ken McNaught ao Birmingham Mail em 2012.

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O Villa iniciou a campanha batendo o Leeds em Elland Road por 2 a 1, mas oscilou nas primeiras rodadas. Entre 20 de setembro e 15 de novembro de 1980, porém, enfileirou 12 jogos de invencibilidade, com nove vitórias e três empates que valeram algumas rodadas na liderança, incluindo um 3 a 0 sobre o Tottenham de Hoddle e Ardiles, um 2 a 1 fora de casa em cima do Southampton de Kevin Keegan e um eletrizante 3 a 3 com o Manchester United em Old Trafford. Mas apenas duas vitórias nos últimos oito jogos do ano fizeram o time chegar ao fim de 1980 na segunda colocação, atrás do Liverpool. A liderança durou pouco nas mãos dos Reds, que cumpriram campanha bastante irregular e, já a partir de janeiro, o principal adversário do Aston Villa pelo título passou a ser o Ipswich (que inclusive venceu os dois confrontos diretos, em Portman Road e no Villa Park). De futebol mais técnico e vistoso, os Tractor Boys ocuparam a primeira colocação do fim de agosto à metade de outubro de 1980 e depois de meados de janeiro até o fim de março de 1981, mas ameaçavam perder o fôlego, já que disputavam em paralelo as fases finais da Copa da Uefa (a qual acabaram conquistando).

O novo ano trouxe fôlego renovado ao Villa, que já saiu emendando sete vitórias consecutivas, entre elas um 2 a 0 sobre o Liverpool em casa, gols de Withe e Mortimer, no único triunfo do clube sobre os Reds em toda a década de 80. Seguiram-se mais três vitórias, um empate (outro 3 a 3 com o Manchester United, desta vez em Birmingham) e uma derrota (o Tottenham teve sua revanche, 2 a 0 em White Hart Lane) até 14 de abril, data do segundo confronto direto com o Ipswich, no Villa Park. A derrota por 2 a 1, apesar de não tirar os Villans da liderança, deixou dúvidas sobre as possibilidades de conquista do título, principalmente porque o adversário, um ponto atrás na tabela, tinha um jogo a menos. Só que o time de Bobby Robson desabou fragorosamente. Perdeu para o Arsenal em casa, para o rival Norwich fora e mesmo vencendo o Manchester City em casa pelo placar mínimo, viu a desvantagem para o Villa aumentar para quatro pontos, depois que o time de Ron Saunders bateu categoricamente o Middlesbrough por 3 a 0, gols de Shaw, Withe e Evans.

No dia 2 de maio, ambos jogariam fora de casa. O Aston Villa encerraria sua tabela precisando de um empate diante do Arsenal em Highbury para garantir matematicamente a conquista. Já o Ipswich, que ainda tinha um jogo por fazer, iria ao nordeste visitar o Middlesbrough e precisava vencer e torcer pela derrota do líder para seguir com chances. Com os Gunners brigando por uma vaga na Copa da Uefa, o Villa não teve vida fácil e perdeu por 2 a 0. Mas a derrota não impediu a comemoração: de ouvido colado no rádio e de olho no placar eletrônico do estádio londrino, a torcida do Aston Villa acompanhou a vitória de virada do Middlesbrough sobre os Blues por 2 a 1, entregando de bandeja o título para o time de Ron Saunders.

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Artilheiro da liga ao lado do escocês Steve Archibald, do Tottenham, com 20 gols, Peter Withe foi o grande personagem da conquista. Chegou no início daquela temporada para substituir dois ídolos da torcida: Andy Gray – vendido ao Wolverhampton por um £1,5 milhão em setembro de 1979 – e Brian Little – atacante que chegou ao Villa em 1970, quando este disputava a terceira divisão, e ajudou a recolocá-lo na elite antes de encerrar a carreira naquele verão aos 27 anos, por uma lesão crônica de joelho. Não era pouca responsabilidade, mas Peter Withe mostrou estar à altura. Jogador rodado, teve passagem pelo futebol dos Estados Unidos, na NASL, antes de aportar no Nottingham Forest de Brian Clough. Lá, ainda que poucos se lembrem, foi o titular do time que subiu para a primeira divisão em 1977 e se sagrou campeão no ano seguinte. Marcou 28 gols em duas temporadas, mas logo depois do título de 1978 perdeu a posição para Garry Birtles e foi negociado com o Newcastle, então na segunda divisão. E de Tyneside, em maio de 1980, veio para o Aston Villa. Pelo clube de Birmingham, marcaria ainda o gol do título da Liga dos Campeões contra o Bayern de Munique na final em Roterdã em maio de 1982 e seria o único dos oito ingleses do time titular a ser incluído por Ron Greenwood na lista dos 22 convocados do English Team para a Copa do Mundo da Espanha, no mesmo ano.

Withe não foi, no entanto, o único jogador daquele Villa na Copa: Allan Evans também foi chamado pela Escócia e, ao contrário do companheiro de clube, chegou a entrar em campo, sendo titular na partida contra a Nova Zelândia. Gordon Cowans, por sua vez, faria sua estreia pela Inglaterra após o Mundial, quando o English Team, ironicamente, já era comandado pelo ex-treinador do Ipswich, Bobby Robson. Após quebrar a perna em 1984, voltou à atividade e no ano seguinte foi vendido ao Bari (recém-promovido à estelar Série A italiana), antes de retornar ao clube mais tarde. Por fim, Tony Morley participou da fase de preparação da Inglaterra para a Copa, disputando alguns amistosos e o Campeonato Britânico, mas acabou cortado às vésperas do embarque para a Espanha, o que encarou como um trauma, do qual seu futebol nunca mais se recuperou.

Tão inimaginável quanto o título da liga com elenco curto foi o destino do Aston Villa nas temporadas seguintes. Em fevereiro de 1982, em meio à disputa das quartas de final da Liga dos Campeões, Ron Saunders pediu demissão do cargo por uma divergência com o presidente Ronald Bendall em relação à renovação de seu contrato. O auxiliar Tony Barton assumiu interinamente e levou o clube ao título europeu, não sem mais percalços: logo aos nove minutos da decisão contra o favorito Bayern de Munique, perdeu o goleiro Jimmy Rimmer por lesão no pescoço, sendo obrigado a lançar o inexperiente reserva Nigel Spink, que surpreendentemente parou Breitner, Rummenigge e companhia. O Villa ainda conquistaria a Supercopa Europeia contra o Barcelona de Diego Maradona em janeiro de 1983, mas aos poucos foi se desfazendo do elenco (o que, junto com a demissão de Saunders, motivou um cântico até hoje na boca dos torcedores: “We won the league, we won the cup, and Ronnie Bendall f****d it up”) e amargando campanhas medíocres no campeonato inglês, culminando no trágico rebaixamento em 1987.

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Emmanuel do Valle

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas.

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