Inglaterra

Há 30 anos, incêndio tomava o estádio do Bradford, e história ainda rende novos capítulos

Em 11 de maio de 1985, o Bradford City recebia o Lincoln City em partida comemorativa pela conquista da terceira divisão inglesa, quando um foco de incêndio nas arquibancadas do Valley Parade começou a chamar atenção. Alguns instantes depois, toda a arquibancada principal estava tomada por chamas. A cena dos torcedores correndo como podiam do fogo é chocante e marcou o futebol inglês, e 30 anos depois o incêndio do estádio ainda é um assunto que rende discussão. Não apenas pela data, mas também pela revelação recente da possibilidade de ação premeditada por trás da tragédia que vitimou 56 pessoas.

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Segundo o livro Fifty-Six – A História do Incêndio de Bradford, de Martin Fletcher, lançado em abril deste ano, Stafford Heginbotham, então dono do Bradford City, era dono de – ou ligado a – outros oito negócios e estabelecimentos que pegaram fogo nos 18 anos anteriores à tragédia no Valley Parade. Mesmo a morte do empresário em 1995 não desanimou a busca por respostas de Fletcher, que passou seus últimos 15 anos trabalhando no livro. A ligação do escritor com a tragédia não se resume apenas à sua paixão pelo clube. O autor da publicação foi um dos sobreviventes que estiveram presentes nas arquibancadas e ainda sofreu a perda de três gerações de sua família no incêndio – seu irmão Andrew, de 11 anos, seu pai, John, de 34, o tio Peter, de 32, e o avô Eddie, então com 63 anos, faleceram no incidente.

“Eu nunca acreditei que foi um acidente e jamais acreditarei. Não acho que Stafford pretendia matar pessoas, mas pessoas morreram. Tudo porque ele voltou para a única coisa que ele sabia que o livraria de problemas”, afirmou Fletcher, em entrevista ao Guardian, à época do lançamento de seu livro. A matéria revela ainda que, após a mãe de Martin dar entrada a um processo contra o clube e o condado de West Yorkshire, a família recebeu uma série de telefonemas em diversas noites, incluindo ameaças de morte.

No livro, Fletcher conta que, dias antes do incidente, Heginbotham, que já convivia com problemas financeiros, soube que precisaria desembolsar £ 2 milhões apenas para adaptar o estádio para os novos parâmetros de segurança exigidos pela segunda divisão inglesa, para a qual o Bradford City subiria na temporada seguinte. A pesquisa do escritor revelou também que, com os incêndios dos outros estabelecimentos do empresário, a quantia com pagamentos de empresas de seguro havia chegado ao equivalente a £ 27 milhões nos dias de hoje.

Além dos quatro parentes de Fletcher, outras 52 pessoas faleceram, além de 265 terem ficado feridas, durante o incêndio no Valley Parade. O estádio tinha arquibancadas de madeira, o que acabou contribuindo com a expansão rápida do fogo. Segundo as investigações, o incidente teve início por causa de um cigarro que incendiou o lixo acumulado debaixo dos assentos. O forte vento que soprava naquele dia ajudou a espalhar as chamas, que rapidamente tomaram as arquibancadas e o telhado do estádio.

Acionado, o corpo de bombeiros pouco pode fazer diante da falta de extintores. Após apenas quatro minutos, diferentes setores do Valley Parade estavam sob chamas. Grande parte das saídas do estádio estavam fechadas ou bloqueadas. Apenas sete se encontravam abertas ou haviam sido arrombadas pelos torcedores, desesperados por um canto de segurança. O campo de jogo também foi rota de fuga, e a maioria do público presente se refugiou onde, segundos antes, a partida acontecia. Algumas das 56 pessoas mortas na tragédia foram esmagadas enquanto tentavam deixar o estádio, enquanto outras foram asfixiadas ou queimadas.

O incidente resultou em uma nova legislação nos estádios britânicos, que impedia a construção de arquibancadas de madeira em complexos esportivos. O legado deixado em questão de segurança não é o único resquício daquele dia que o futebol inglês jamais esquecerá. Para Martin Fletcher, especialmente, diante do material coletado, as chamas trágicas que vitimaram tantas pessoas serão completamente apagadas apenas quando toda a história for completamente esclarecida. “Não irei mais viver uma mentira”, afirmou o escritor. O sobrevivente da tragédia acredita que ainda está vivo para poder elucidar o que não foi revelado.

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Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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