Inglaterra

Goleiros “articulados” e Elton John eram as armas de Thatcher contra os hooligans

Margaret Thatcher entrou para a história como a estadista que salvou o futebol britânico dos hooligans. A médica que curou a “doença inglesa”. Mas já sabemos que não foi bem assim. A ex-primeira ministra do Reino Unido não gostava de futebol, nem do público que frequentava os jogos, muitas vezes os mesmos operários dos sindicatos contra os quais lutou durante todo o seu mandato. E em 1985, quando o problema atingiu o seu auge, a estratégia do governo dela para atacar o hooliganismo era uma campanha de imprensa particularmente absurda.

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No último dia do ano passado, o Arquivo Nacional do Reino Unido liberou ao público documentos governamentais de 1985, sob uma lei que lhes retira a confidencialidade após 30 anos. Entre planos para construir abrigos contra as armas químicas da União Soviética, e a escassez de botas para patrulhas na Irlanda do Norte, estão memorandos de pessoas importantes da sua administração, e dela própria, com conselhos para combater a violência e as más condições dos estádios, no ano que viu inúmeras brigas entre torcidas, o incêndio no campo do Bradford City e a tragédia de Heysel. A conclusão era a implementação de um plano de relações públicas para passar ao público a mensagem de que a temporada 1984/85 foi o fundo do poço e que a seguinte deveria “devolver a decência ao futebol britânico”.

A principal ideia era usar “goleiros articulados” e estrelas pops para conscientizar o público. Sem entender as raízes do problema que estava enfrentando, os motivos sociais e econômicos que levavam vários adultos a trocarem sopapos em estádios de futebol, o secretário de imprensa de Thatcher, Bernard Ingham, acreditava que um argumento bem colocado pelo goleiro do Chelsea poderia convencer os membros dos Chelsea Headhunters, por exemplo, grupo de hooligans ligados ao Partido Nacionalista Britânico e a grupos neo-nazistas, a abaixarem as armas. A campanha chamava-se “Goalies against Hoolies” (juro), e escolheu os jogadores dessa posição porque eles sempre ficavam “na primeira linha de fogo dos hooligans”.

Gary Bailey, ex-goleiro do Manchester United e da seleção inglesa, e um “bem articulado acadêmico”, segundo Ingham, seria provavelmente a principal bandeira. Tanto que o secretário de imprensa sugeriu que Thatcher fosse entrevistada pelo ex-jogador na Picadilly Radio, de Manchester. O papo de fato aconteceu. Ingham também aconselhou que a então primeira-ministra apelasse a estrelas pop do futebol para aumentar o nível de conscientização. Deu a ideia que Elton John, presidente do Watford naquela época, também passasse pelo microfone de Bailey na Picadilly Radio. “Todos os nomes glamurosos e populares do futebol têm um papel a desempenhar para que tenhamos a abordagem certa para a próxima temporada (estavam entre 1984/85 e 1985/86). E devemos considerar a organização de importantes programas de rádio e televisão para colocar o máximo deles no ar”, escreveu.

O problema é que Ingham, aparentemente, não era tão especialista em imprensa esportiva quanto parecia. A revista Shoot!, na época a semanal mais popular de futebol do Reino Unido, pediu uma entrevista para Thatcher, prontamente recusada pelo seu secretário. “Minha primeira reação é que a primeira-ministra não deveria realizá-la. Pelo que me lembro, Shoot! faz é uma revista mais de comédia, cujo alvo são adolescentes de 11 a 16 anos. Apesar da possibilidade de atingir hooligans e potenciais hooligans dessa idade, pode ser uma publicação muito pouco conceituada para a primeira-ministra fazer uma contribuição”, disse.

Houve naquela época um jogo de empurra-empurra de responsabilidade entre clubes, federação e governo. Margaret Thatcher acreditava que as equipes que deveriam lidar com os hooligans e que o preço das transferências dos jogadores estavam muito elevados, distraindo os dirigentes sérios problemas de violência. “Sugere que os recursos do futebol poderiam ser melhores utilizados contra o problema do hooliganismo e segurança; é uma questão de escolher as prioridades certas”, disse a própria primeira-ministra.

Curiosamente, o governo dela não considerou que o racismo deveria ser uma das suas prioridades. Depois de Heysel e Bradford, o inquérito realizado por Oliver Popplewell clamava por leis mais duras contra gritos preconceituosos dentro dos estádios. Mas um memorando de Douglas Hurd, à época ministro do Interior de Thatcher, um dos mais importantes, afirmava que “não acreditava ser sensato pedir que a polícia ou os tribunais fossem muito longe para controlar o que uma pessoa grita em um jogo de futebol”.

Isso mudou, e hoje em dia é muito difícil ser racista em estádios ingleses e passar impune. Da mesma forma, o problema dos hooligans foi resolvido, ou pelo menos minimizado, mas apenas após a tragédia de Hillsboroug, em 1989, quando o Relatório Taylor obrigou os clubes a implementarem várias medidas de modernização de estádios e elitização que alienaram boa parte do público que fazia parte das gangues. Nada a ver com Thatcher, cuja principal bandeira contra os hooligans na época do desastre que matou 96 torcedores do Liverpool ainda era uma carteirinha para identificar os violentos. A ideia (ruim) foi abandonada, como muitas outras que ela teve a respeito desse assunto.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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