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Gerrard dá adeus ao Liverpool como jogador para continuar como lenda

Craque, líder e provavelmente o maior jogador da história do Liverpool. Esse é o tamanho de Steven George Gerrard no Liverpool. É o jogador que mais representa o que é jogar em Anfield Road, um dos templos do futebol, o que é representar uma torcida que canta, apoia e emociona com a sua “You’ll Never Walk Alone” entoada a cada jogo no estádio. Gerrard anunciou nesta sexta-feira que sua trajetória no Liverpool se encerra ao final da temporada. Ele não irá se aposentar, mas irá jogar em algum lugar que não tenha que ter o Liverpool como adversário. Algo que era difícil imaginar no começo da temporada, quando o time vinha de quase ganhar o título inglês tendo Gerrard como um dos seus pilares. Mas algo mudou e que levou o capitão a escolher não ficar.

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“Foi uma das decisões mais difíceis da minha vida e que tanto eu quanto minha família têm agonizando há um bom tempo”, disse o camisa 8. “Eu estou fazendo o anúncio agora para que o técnico e o time não sejam distraídos por histórias ou especulações sobre o meu futuro”, afirmou o capitão. “O Liverpool Football Club tem sido uma parte tão grande de todas nossas vidas por tanto tempo e dizer adeus é difícil, mas eu sinto que é algo que é do melhor interesse de todos os envolvidos, incluindo minha família e o clube”, explicou Gerrard. Sim, até no anúncio, ele pensa no clube.

As especulações giram em torno de uma transferência para a MLS, que há tempos se interessa pelo capitão do Liverpool. “Eu continuarei jogando e embora eu não possa confirmar neste momento onde será, eu posso dizer que será em algum lugar que signifique que eu não estarei jogando em um clube que compita e não jogará contra o Liverpool, algo que eu nunca poderia contemplar”, revelou o jogador.

“Minha decisão é completamente baseada no meu desejo de experimentar algo diferente na minha carreira e vida e eu quero também garantir que eu não tenha arrependimentos quando a minha carreira acabar”, declarou o jogador, que isentou Brendan Rodgers, elogiando-o, assim como toda diretoria do Liverpool. “Eu não posso agradecer o bastante Brendan, os proprietários e todos no clube por como eles lidaram com isso e estou saindo em ótimos termos. Além disso, eu agradeço meus companheiros e toda comissão técnica pela ajuda e apoio contínuo”, agradeceu Gerrard.

“É um lugar especial de se fazer parte. É minha sincera esperança e desejo que um dia eu possa retornar e servir ao Liverpool novamente, em qualquer capacidade que melhor ajude o clube”.

“Um ponto que é importante ressaltar é que de agora até o último chute do último jogo da temporada, eu estarei completamente comprometido com o time como eu sempre estive e dando o meu melhor para ajudar o Liverpool a vencer jogos”.

“Minha mensagem final às pessoas que fazem o Liverpool Football Club o maior do mundo, os torcedores. Foi um privilegio representar vocês, como jogador e como capitão. Eu tenho curtido cada segundo dele e é meu sincero desejo terminar esta temporada e minha carreira em alta”.

Para alguém que tem a Champions League de 2004/05 no currículo como protagonista, além dos títulos da Copa da Inglaterra em 2000/01, 2005/06, Copa da Liga em 2000/01, 2002/03 e 2011/12 e a Copa da Uefa em 2000/01, nem era preciso agradecer. Faltou uma Premier League na lista de títulos, algo que ele e a torcida queriam muito, mas não aconteceu. Mesmo assim, ele é um exemplo de profissional, um jogador que liderou o time, dentro de fora de campo, e se tornou um exemplo vivo, um legítimo representante da torcida. Aos oito anos, viu seu primo morrer na tragédia de Hillsborough. Alguém que tem o nome confundido com o clube, tamanha a identificação.

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A temporada difícil e o tempo no banco

Ficar no banco pode não ser um problema para Gerrard em alguns jogos. Aos 34 anos, a ideia era poupá-lo de uma temporada desgastante, com o Liverpool de volta à Champions League. Só que o que se viu, desde o começo da temporada, é algo além disso. Brendan Rodgers passou a ser pressionado para sacar o capitão do time. Alguns torcedores passaram a questionar a titularidade do capitão. A ideia de se aposentar da seleção inglesa após a Copa do Mundo para estender a sua vida no Liverpool acabou não sendo suficiente.

Gerrard não é o responsável pelo time do Liverpool não funcionar tão bem nesta temporada quanto na passada. Foi Gerrard que escorregou na temporada passada no jogo crucial contra o Chelsea, que praticamente jogou fora o título inglês. É verdade. Mas ele foi o líder de assistências na temporada inglesa. Foi fundamental para o time chegar onde chegou. Só perdeu em importância para Luis Suárez, o craque do time.

Mesmo assim, a sua saída do time foi especulada várias vezes. Depois do empate contra o Leicester City, na quinta-feira de ano novo, alguns torcedores pediram a saída do capitão do time. Com Gerrard no banco, na segunda, o time tinha vencido o Swansea por 4 a 1. Talvez tenha sido demais para o capitão.

Depois de 17 anos no clube, aos 34 anos de idade, sendo tão importante para o time na temporada passada e com capacidade de ainda ajudar muito, Gerrard talvez tenha sentido que será triste demais, para ele e para o clube, se essa situação continuar e se agravar. Sentir-se menos importante, menos útil e ver a sua presença no time contestada como ele passou a ser talvez seja demais. É quase como se ele e o Liverpool estivessem olhando um para o outro e pensando que é melhor se separar antes que comecem a se magoar mutuamente.

Talvez seja um problema que Brendan Rodgers não soube lidar tão bem, mas não dá para dizer que ele tenha maltratado Gerrard. Colocou o jogador em uma função mais ofensiva em determinado momento da campanha na Champions League, por exemplo, quando as coisas não iam bem. Talvez não houvesse o que fazer. Gerrard ainda tem desempenho acima da média em alguns jogos, mas abaixo da média em outros. Da sua média, que é muito alta. E isso torna a cobrança muito grande para alguém que é um ídolo, uma bandeira.

Gerrard será para sempre uma lenda de Anfield. Terá enormes faixas em seu nome no estádio, não importa quanto tempo passe. Completará 35 anos em maio e certamente tem físico e especialmente futebol para continuar no futebol. Talvez continuar no Liverpool seja difícil demais para ele. Ir para os Estados Unidos, jogar a MLS, talvez seja uma forma de continuar jogando sem concorrer com o Liverpool, e onde poderá construir outra história. Mais curta e certamente menos marcante que aquela que tem com os Reds. Mas nos dará a chance de continuar vendo um dos jogadores mais marcantes da sua geração. Um meio-campista completo, capaz de ser um meia ofensivo ou um volante à frente da zaga. Um ídolo que certamente receberá tantas homenagens quantas forem possíveis daqui até o fim da temporada, em maio. Merecidamente.

Alguns podem lembrar que Ryan Giggs jogou até os 41 anos e Frank Lampard tem causado um impacto extremamente positivo no Manchester City aos 35 anos. Por que não Gerrard continuar? Gerrard é diferente desses dois. Giggs, no Manchester United, e Lampard, agora no Manchester City, tornaram-se coadjuvantes silenciosos. Entram, fazem o seu papel e continuam sendo admirados. Gerrard é diferente. É um líder. Um jogador que sempre se caracterizou por ser completo, defender e atacar com vitalidade, pelos chutes fortes de fora da área, as comemorações enlouquecidas balançando os braços, os carrinhos cheios de vontade no meio-campo, as corridas até a área para finalizar.

Gerrard não é um jogador para ser coadjuvante de luxo. Não parece ter o perfil de um grande coadjuvante. Foi protagonista na temporada passada e não ser um herói, capaz de jogadas fantásticas e liderar o time rumo ao título, parece não caber no jogador que é Gerrard. Se Lampard e Giggs se consagram como jogadores de classe no seus finais de carreira, Gerrard é o jogador da técnica, sim, mas também da força, da vitalidade, do empanho, dos gritos, da vibração. E se for para não ser isso, melhor abrir espaço para quem vier. Jordan Henderson, atualmente o vice-capitão, deve assumir a braçadeira de Gerrard na próxima temporada. É elogiado como um jogador que tem perfil de liderança e pode exercer o papel também na seleção inglesa, não apenas em Anfield. Gerrard estará observando e, certamente, dará palavras de incentivo ao jogador. E seguirá na memória, na história, nas paredes de Anfield. Porque lendas são eternas.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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