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Esqueça o estereótipo: Chelsea e PSG têm torcida de verdade, e já tiveram problemas por isso

Narrativas simples são atraentes. Elas permitem desenhar facilmente um retrato, e se apegar a eles é fácil, mesmo que estejam longe da realidade. O duelo entre Paris Saint-Germain e Chelsea, que abre as oitavas de final da Champions League, é um exemplo bom. Para muitos, é o confronto entre dois clubes que só viraram força europeia por causa do dinheiro de milionários excêntricos e contam com uma torcida recente, pouco autêntica e que só foi atrás dos times azuis por causa dos títulos recentes.

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Bem, tente falar que os seguidores de Chelsea e PSG são “modinha” para os policiais londrinos e parisienses, sobretudo os das décadas de 1980. Mais que as fortunas de mecenas recentes, o que une a história desses clubes é a mistura de torcedores fanáticos de origens diferentes, e como isso ajudou a criar uma cultura de violência que virou referência (negativa) em seus países. Tanto que o confronto entre as equipes nas quartas de final da Champions já foi marcado por brigas nas ruas.

O atual líder do Campeonato Inglês é um dos times que mais sofre com a rotulação. No Brasil, há até quem diga que o clube era um São Caetano antes da chegada de Roman Abramovich. Não precisa ser um historiador de futebol britânico para saber que se trata de uma bobagem monumental, mas mesmo a imagem de “time de burgueses” que o Chelsea carrega não é inteiramente verdadeira.

De fato, o Chelsea tem esse nome devido ao sofisticado bairro londrino que fica próximo a Stamford Bridge. No entanto, o clube sempre foi um dos mais tradicionais de Londres – durante décadas, brigou com West Ham pelo posto de terceiro principal time de Londres, atrás de Arsenal e Tottenham – e acabou atraindo torcedores de várias áreas do sul da capital inglesa, incluindo regiões operárias como Battersea (famosa pela usina termelétrica que virou capa do álbum Animals do Pink Floyd) e Hammersmith.

Dessa mistura surgiu a Chelsea Headhunters, uma firm (espécie de torcida organizada comum na Inglaterra nas décadas de 1970 e 80) conhecida pela postura racista e violência. Ao lado dos grupos de West Ham e Millwall, estava entre as três torcidas mais temidas do futebol londrino. Além disso, os Headhunters ainda tinham aliança com outras organizações europeias com a mesma ideologia política, como as firms de Cardiff City e Rangers e os ultras de Lazio e Verona (da parceria das firms de Chelsea e Rangers surgiu o Glasgow Smile, também conhecido como Chelsea Smile. Se quiser ver como é, vai ao Google por sua conta e risco. Não vou linkar aqui porque é um negócio muito macabro).

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A torcida causava tantos problemas que Ken Bates, dono do clube, chegou a propor a construção de uma grade elétrica para impedir a invasão do gramado em Stamford Bridge. Claro que a ideia não foi para frente, e as ações dos Headhunters só tiveram redução significativa após as diversas medidas do governo e da liga inglesa para combater a violência nos estádios.

Medidas das autoridades também foram necessárias ao sul do Canal da Mancha. Durante anos, o Paris Saint-Germain e as autoridades francesas não sabiam como controlar o impulso dos torcedores fanáticos do principal clube parisiense.

A história é até estranha. Fundado em 1970 para ser o grande clube de Paris após a crise tirar do caminho várias equipes tradicionais, como Racing, Stade Français e Red Star, o PSG não tinha muitos torcedores. Soava como um time artificial, que não era realmente a preferência dos locais. A direção resolveu criar promoções de ingressos mais baratos, e funcionou. A população da periferia, com menos poder aquisitivo, teve condições de ir aos jogos, e uma cultura de torcida rapidamente se desenvolveu.

O problema foi o resultado disso. Grupos de extrema-direita formaram o Boulogne Boys, torcida com inspiração nas firms inglesas. Atos de violência se espalharam pelos jogos do PSG em Paris e pelo interior, sempre com um caráter de racismo e intolerância contra outras regiões do país. Em 2008, um membro dos Boulogne foi morto por um policial que tentava defender um torcedor do Hapoel Tel-Aviv que era atacado antes de uma partida da Copa da Uefa.

Até seguidores do PSG sofriam, e passaram a fugir do Parque dos Príncipes. Para combater esse domínio dos Boulogne Boys, o clube incentivou outro grupo importante de torcedores, os imigrantes da periferia de Paris, a formarem um contra-grupo. Assim surgiram os Supras Auteuil e os Tigris Mystic. A química entre as novas torcidas e a já estabelecida foi horrível desde o início, pois elas representavam tudo o que a anterior contestava.

Para a polícia francesa, mais difícil que proteger as torcidas visitantes dos ataques das organizadas do PSG era proteger uma organizada do PSG da outra. Houve vários ataques dos Boulogne Boys contra os Supras ou os Tigris, sempre com reações na mesma intensidade. Um líder dos Boulogne chegou a ser assassinado pelos Supras antes de uma partida contra o Olympique de Marseille (maior rival do PSG, o que já tornava aquela encontro como de alto risco).

A morte do líder do Boulogne marcou a dissolução do Supras Auteuil pela polícia francesa. A torcida de extrema-direita também não sobreviveu, sendo extinta após exibir faixas chamando os torcedors do Lens de “vagabundos pedófilos e incestuosos”.

As torcidas violentas de Chelsea e Paris Saint-Germain acabaram devido a seus próprios atos, mas os dois clubes foram para o extremo oposto nas arquibancadas, ainda mais depois da pasteurização causada pelas novas leis e pelo dinheiro milionário que chegou. Mas os clubes sabem que é preciso recuperar um pouco da paixão que se perdeu.

Os londrinos criaram a campanha Back to the Shed, incentivando um grupo de torcedores a recuperar o clima de Stamford Bridge pré-Premier League. Os parisienses lançaram a “Tous PSG”, que acabou com todas as organizadas do clube em favor de uma cultura antiviolência. Os grupos foram readmitidos posteriormente, mas sem resquícios dos Boulogne Boys e os Supras Auteuil.

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Ubiratan Leal

Ubiratan Leal formou-se em jornalismo na PUC-SP. Está na Trivela desde 2005, passando por reportagem e edição em site e revista, pelas colunas de América Latina, Espanha, Brasil e Inglaterra. Atualmente, comenta futebol e beisebol na ESPN e é comandante-em-chefe do site Balipodo.com.br. Cria teorias complexas para tudo (até como ajeitar a feijoada no prato) é mais que lazer, é quase obsessão. Azar dos outros, que precisam aguentar e, agora, dos leitores da Trivela, que terão de lê-las.

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