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Ranieri dá lição em entrevista para explicar sucesso do Leicester: simplicidade e vontade

Claudio Ranieri vinha em baixa no futebol. Desde que conquistou dois acessos consecutivos com o Cagliari, colocando o clube da Sardenha na Serie A em 1990, o italiano sempre teve o gosto em trabalhar em times de peso na Europa: Napoli, Fiorentina, Valencia, Atlético de Madrid, Chelsea, Parma, Juventus, Roma, Internazionale e Monaco. Nos últimos anos, contudo, já não vinha cumprindo todas as expectativas que o rondavam, o que abreviava os seus contratos. Até o fracasso com a Grécia, quando deixou o time na lanterna das Eliminatórias da Eurocopa, com direito a duas vexatórias derrotas para as Ilhas Faroe.

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O Leicester ofereceu uma temporada a Ranieri após oito meses desempregado. Seria o clube com pretensões mais modestas que assumia desde o Parma, brigando para não cair em 2007 – também uma exceção em seus projetos a partir de 1990. Entretanto, a realidade simples também permitiu ao italiano se reinventar. E, no país onde viveu bons momentos com o Chelsea, mas teve o trabalho encurtado pelas pretensões de Roman Abramovich, o veterano técnico tem reais chances de conquistar o maior título de sua carreira. Na última semana, ao Corriere della Sera, Ranieri concedeu longa entrevista, explicando os seus métodos nas Raposas. Mostra, sobretudo, como o futebol não possui fórmula definida e o importante se põe em respeitar as características dos jogadores:

“Eu cheguei ao clube em agosto e comecei assistindo aos vídeos de todos os jogos do Leicester na temporada anterior. Quando ia falar com os jogadores, percebi que eles ficavam assustados com as abordagens de tática italiana. Afinal, o que o futebol significa para um técnico italiano são as táticas: tentar controlar o jogo seguindo as ideias e os sistemas do treinador. Falamos muito sobre futebol na Itália. Mas eles não pareciam convencidos, e nem eu estava. Eu tenho muita admiração por aqueles que constroem novos sistemas táticos, mas sempre pensei que o mais importante para um técnico precisa ser montar um time ao redor das características de seus jogadores”, afirmou Ranieri.

Diante da situação, o italiano preferiu fazer a vontade dos atletas, além de não exagerar na carga física: “Então, eu disse aos jogadores que confiava neles e poderia falar pouco sobre táticas. Era importante para mim que eles corressem bastante, assim como eu vi eles fizeram na temporada anterior. Na minha visão, o treino físico não é importante na Inglaterra, como eles treinam intensamente de qualquer maneira, e há um limite competitivo mesmo quando só correm. As partidas também são duras. Minha ideia é que os atletas precisavam se recuperar primeiro, treinar depois. Naturalmente, eu acredito no treino, e isso pode parecer uma heresia na Itália, mas eu também acho que tudo é relativo. Meus jogadores treinam muito, mas não sempre. Na Inglaterra, o futebol sempre é intenso. Eles precisam de mais tempo para se recuperar”.

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Falar pouco sobre táticas, contudo, não significa que o Leicester seja um time taticamente mal organizado. Pelo contrário, este é um dos pontos fortes das Raposas na briga pelo título da Premier League. Com a diferença que a equipe atua e se organiza de maneira simples, o que vem sendo letal. Com seu 4-4-2 tradicional, Ranieri conseguiu extrair o máximo do esforço de seus atletas na solidez defensiva, além do ímpeto na construção dos contra-ataques. Isso, somado à ótima fase individual de alguns nomes, ajuda a explicar o sucesso.

Além disso, Ranieri exaltou a ótima relação firmada em seu elenco: “Eu garanto aos jogadores ao menos dois dias de descanso na semana. É o primeiro pacto que fiz com eles: ‘Eu confio em vocês, irei explicar algumas ideias de futebol tanto quanto vocês me derem o seu máximo’. Eu não acho que essa é uma solução ideal, mas o futebol não é química. Não há regras que funcionam universalmente. O que importa é tirar o melhor do elenco que você tem. Aqui em Leicester, todos sentem que estão participando, então jogar mal significa trair os outros. Eles são homens livres, cientes que têm um trabalho a fazer e responsabilidades. Eles aproveitam isso. Tenho um jogador que vem todas as manhãs de Manchester, um de Londres. Isso seria impensável na Itália, mas a Inglaterra é diferente. Podemos fazer isso no Leicester porque o time permite. É o que me deixa mais orgulhoso”.

O técnico comparou a diferença de mentalidade entre o futebol italiano e o inglês, especialmente pela maneira como os jogadores tratam seu trabalho e as tarefas cotidianas: “Eu acho que, na Itália, tornou-se uma luta para os jogadores desfrutarem do futebol, mas também treinam com menos intensidade. É mais um dever do que qualquer outra coisa. Na Inglaterra, eles têm consciência de que são jovens, saudáveis e têm um ótimo trabalho. Seria estúpido perder tudo isso. Quando eles treinam, fazem como no jogo. Eu nunca tive que dizer que alguém era preguiçoso. Eles também precisam estar relaxados, não estressados. Eles esperam calma e respeito nos vestiários, então se você quiser ser uma Primeira Dama, não vão te perdoar por isso. Na Inglaterra, eles jogam todas as partidas como se fossem um clássico. Eu vi Inter x Milan na semana retrasada e foi como um jogo ao estilo inglês, com correria, divididas, times em seu máximo e muito espírito competitivo. Não é muito italiano.”.

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“Sempre digo aos meus jogadores para buscarem o fogo dentro de si. Uma chance como esta nunca virá novamente. Procurem o fogo e não tenham vergonha disso. E eles não têm vergonha, se tudo o que peço é para sonharem. Eu sei que nem sempre funciona assim, mas ninguém sabe como realmente funciona. Eu achei algo que funciona por si, então precisamos ao menos respeitar isso sempre. O Leicester é o que eu sempre busquei: metade estilo de futebol e metade consciência de um objetivo. Nenhum de nós acha que estamos trabalhando para ganhar a vida, caso contrário estariam cansados todos os dias. Se nós vivemos para trabalhar, então vamos dar sentido ao que estamos fazendo. Eu tive a sorte suficiente de experimentar isso antes, no fim dos meus tempos de jogador, no Catanzaro. Era um time como o Leicester: um grupo de amigos que viviam juntos”, completou.

Por fim, sua conclusão não poderia ser mais emblemática: “Eu não sei se ganharemos o título, mas é ótimo que nos perguntem isso. Quando eu cheguei, o presidente pediu que conquistássemos 24 pontos no Natal. Chegamos a 37 ou 39, não me lembro de quantos. E seguimos no topo. Em uma era na qual o dinheiro conta para tudo, eu penso que nós damos esperanças para todo mundo”.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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