Inglaterra

Emlyn Hughes, 70 anos: o homem que levantou duas Copas dos Campeões pelo Liverpool

Bill Shankly tentou contratar Emlyn Hughes no mesmo dia em que o jogador estreou pelo Blackpool. A sua proposta de £ 25 mil pelo adolescente de 18 anos foi recusada. Um ano depois, a diretoria do clube que acabava de ser rebaixado à segunda divisão inglesa estava mais disposta a negociá-lo. Mas pediu alto: £ 65 mil. Era caro – na época, a transferência recorde era de £ 300 mil por Harald Nielsen, do Bologna para a Internazionale. O Liverpool nunca tinha pagado tanto por um jogador, ainda mais um tão jovem. Mas Shankly não tinha nenhuma dúvida sobre o potencial do garoto que completaria 70 anos nesta segunda-feira.

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Retornando de Blackpool, com Shankly, um péssimo motorista, no volante, e Hughes no banco do passageiro, o carro da dupla foi parado pela polícia. Shankly, já uma lenda de um dos maiores clubes do país, deu uma carteirada: “Você sabe com quem está falando?”. O policial respondeu: “É senhor Shankly, não?”. O técnico retrucou: “Não, não eu. Ele. Você não o reconhece? Este homem é o futuro capitão da Inglaterra”. O jovem ficou vermelho de vergonha. Mas Shankly estava certo: Hughes foi capitão da seleção inglesa em 23 partidas, o nono homem que mais vezes usou essa braçadeira. Foi capitão, também, do Liverpool, pelo qual ergueu duas vezes a Copa dos Campeões.

E muitos anos depois, quando nem ele e nem o homem que o contratou tinham ligações com o Liverpool, Emlyn Hughes foi um dos homens que carregou o caixão de Bill Shankly.

O técnico colocou Hughes na equipe titular imediatamente. Ao longo de seus 12 anos e 665 partidas pelo Liverpool, atuou no meio-campo, na lateral esquerda e no miolo de zaga. Foi um dos elos de ligação entre a equipe vencedora dos anos sessenta e a que conquistaria ainda mais glórias – e a Europa – na década seguinte. Jogava com muita energia e de vez em quando atropelava os adversários, o que lhe valeu o apelido de “Cavalo Louco” entre os torcedores.

Hughes foi uma peça chave na principal mudança tática que Bob Paisley colocou em curso quando substituiu Shankly. Seu antecessor gostava do zagueiro poderoso que se impunha pela força, como Ron Yeats e Larry Lloyd. No entanto, uma das primeiras ações de Paisley no cargo foi vender Lloyd, por £ 240 mil, e formar a sua zaga com Phil Thompson e Hughes, dois antigos meio-campistas. O estilo de jogo do Liverpool desde os anos sessenta envolvia muita troca de bola e movimentação. A ideia de Paisley era melhor a qualidade do passe a partir da defesa e construir o jogo ofensivo desde a primeira linha, com paciência e posse de bola.

No vestiário, Hughes não era o cara mais popular do mundo. Tinha uma personalidade forte e certo individualismo, apesar de ser uma liderança importante. Um jogo contra o Queens Park Rangers, no começo da segunda temporada de Paisley, foi marcante: ao estilo David Luiz contra a Alemanha, Hughes avançou ao campo de ataque diversas vezes, deixando a defesa desguarnecida. Os dois gols saíram contra um Phil Thompson solitário e em um desarme que o próprio Hughes sofreu na altura do meio-campo.

Depois do jogo, levou uma bronca incomum de Paisley – cujo estilo de administração de vestiário era mais comedido, fugindo da maioria dos conflitos – e quase chegou às vias de fato com Tommy Smith, outra liderança do Liverpool, um garoto local, nascido na cidade, que estava no clube desde o começo da década de sessenta. Os dois dividiam o vestiário, e Smith não gostou de ver Hughes tornar-se capitão antes dele e, àquela altura, disputavam a mesma posição.

Paisley achava que Hughes era um grande jogador que poderia ser ainda melhor se tivesse uma personalidade mais palatável. Mas isso não era um empecilho muito grande. Ao contrário, ainda dentro do estilo próprio de administração do novo técnico, os jogadores tinham muita voz, e Hughes era um dos seus principais conselheiros. E Paisley manteve-o como capitão. Hughes era realmente muito bom. Marcou 49 gols pelo Liverpool, em 12 anos, um número bem interessante para um jogador de defesa daquela época.

Mais do que os gols que marcava, sua qualidade de passe como zagueiro auxiliou na estratégia vencedora de Paisley para as campanhas europeias. Principalmente fora de casa, o treinador instruía o seu time a tocar a bola com paciência, diminuir o ritmo da partida e deixar tanto a torcida quanto o time adversário inquietos. Funcionou muito bem, tanto que o Liverpool chegou duas vezes seguidas à final da Copa dos Campeões – e venceu ambas. O capitão Hughes foi titular na defesa contra o Borussia Monchengladbach, na primeira final, e na lateral esquerda contra o Club Brugge, na segunda.

Hughes foi deslocado para a lateral por causa da ascensão de uma nova estrela na defesa. Alan Hansen chegou do Partick Thistle, em 1977, e rapidamente se firmou no time titular ao lado de Thompson. Hughes, já na casa dos 30 anos, ainda conseguia alguns jogos por causa da sua versatilidade, mas seria vítima da maneira implacável com a qual Paisley lidava com quedas de rendimento.

Seu último jogo pelos Reds foi em um replay de semifinal da Copa da Inglaterra de 1979 contra o Manchester United. Paisley ordenou que ele fizesse marcação individual em Steve Coppell. O defensor seguiu às ordens ao pé da letra – até demais. Quando Jimmy Greenhoff marcou o gol da vitória do United, Hughes estava 30 metros longe de onde deveria estar, supervisionando Coppell. Pouco depois, foi chamado ao escritório de Paisley, achando que receberia um novo contrato, mas recebeu mesmo foi a sugestão de procurar outro clube.

A fila andava rápido naquele Liverpool. Thompson recebeu a braçadeira de capitão e formou outra ótima dupla de zaga com Hansen. Alan Kennedy, que marcaria o gol do terceiro título europeu do Liverpool, havia chegado para a lateral esquerda. E Hughes, depois de uma carreira fantástica com a camisa vermelha, foi para o Wolverhampton.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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