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Duelo de Titãs: As inesquecíveis finais da Copa da Inglaterra entre Chelsea e United

Por Emmanuel do Valle e Leandro Stein

Chelsea e Manchester United fazem, neste sábado, uma decisão de Copa da Inglaterra significativa a ambos os clubes. Depois de uma temporada abaixo das expectativas, sobretudo aos Blues, será a chance de conquistar uma taça que justifique os investimentos e referende os trabalhos. Antonio Conte não confirmou sua saída, mas há boas chances de que este seja seu último compromisso à frente dos londrinos, diante dos problemas de relacionamento. José Mourinho, por sua vez, anda bem mais seguro de si, e não nega a possibilidade de adicionar mais uma taça à sua prateleira. Em meio a tantos jogadores de renome, os treinadores acabam se tornando personagens centrais, especialmente pelas rusgas que tiveram meses atrás.

A inimizade entre Chelsea e United, entretanto, não vem de hoje. Os dois times se tornaram adversários ferrenhos quando começaram a disputar grandes títulos. E as duas únicas finais em que se enfrentaram na FA Cup acabam sendo importantíssimas para o contexto. Em 1994, os clubes buscavam se reafirmar no cenário inglês – os Red Devils de maneira bem mais incisiva, enquanto o processo seria bem mais lento aos Blues. Já em 2007, veio o auge de esquadrões comandados por Mourinho (então no lado azul da força) e Sir Alex Ferguson. Um capítulo precedente à decisão da Liga dos Campeões, que realizariam um ano depois, em Moscou, e que ganha nova página em Wembley neste sábado.

O primeiro confronto aconteceu na temporada 1993/94. O Manchester United, que duas semanas antes havia conquistado o bicampeonato inglês por antecipação, superando o Blackburn com certa folga, buscava a primeira dobradinha de sua história, até como homenagem ao lendário Matt Busby, falecido em janeiro de 1994. E já havia decidido um título em Wembley no fim de março, quando perdeu a Copa da Liga para o Aston Villa, com derrota por 3 a 1.

Estrelado pelo atacante francês Eric Cantona e pelo goleiro dinamarquês Peter Schmeichel, o time dirigido por Alex Ferguson contava ainda com uma dupla de volantes de respeito (Paul Ince e Roy Keane), além de dois pontas velozes e habilidosos (Ryan Giggs e o russo Andrei Kanchelskis), do veterano atacante galês Mark Hughes e de uma defesa sólida e experiente, formada pelos laterais Paul Parker e Denis Irwin e os zagueiros Steve Bruce (capitão do time) e Gary Pallister. No banco, havia também o versátil ponta Lee Sharpe e o talentoso atacante escocês Brian McClair.

O maior astro do Chelsea, por sua vez, estava no banco – e não só como treinador, mas também como jogador: era o veterano e habilidoso meia Glenn Hoddle, que, aos 36 anos, acumulava as funções. Os Blues contavam com um elenco mais modesto, mas que incluía bons nomes, como o goleiro russo Dmitri Kharine, os meias de lado Craig Burley e Dennis Wise (capitão do time londrino) e os atacantes John Spencer e Mark Stein. No banco, junto com Hoddle, ficaria outro jogador rodado e conhecido: o centroavante irlandês Tony Cascarino.

Para os Blues, que haviam terminado apenas em 14º lugar no campeonato, chegar a aquela decisão – a qual o clube não disputava desde 1970 – já havia sido um ótimo negócio: o fato de enfrentar o United, já coroado campeão inglês, garantia, independentemente do resultado da final, a vaga na Recopa Europeia, marcando o retorno da equipe às competições continentais após 22 anos, além dos primeiros sinais de ressurreição do clube de Stamford Bridge.

Na tarde chuvosa de 14 de maio de 1994, o Chelsea começou melhor o jogo e criou várias chances para abrir o placar, entre elas um chute do meia Gavin Peacock que encobriu Schmeichel e bateu no travessão. Sem se encontrar em campo, o United teve sorte de ir para o intervalo com um empate sem gols. Mas na etapa final, porém, tudo seria diferente. Os Red Devils já dominavam as ações quando, aos 14 minutos, o volante Eddie Newton derrubou Denis Irwin com um carrinho atabalhoado dentro da área. Pênalti que Eric Cantona converteu com calma e frieza.

Nascido em Londres de pais jamaicanos e revelado pelo Chelsea, o lateral-esquerdo Frank Sinclair permaneceria no elenco profissional dos Blues por oito anos (entre 1990 e 1998). Chegaria a ser eleito o melhor jogador do clube em 1993, além de convocado para a seleção inglesa para a Copa Umbro de 1995, sem atuar. Mais tarde, adotaria a nacionalidade dos pais a tempo de defender os Reggae Boyz do técnico brasileiro Renê Simões na Copa do Mundo de 1998. Naquela tarde em Wembley, porém, embora começasse atuando bem, faria um segundo tempo para esquecer.

Primeiro viria um lance polêmico aos 21 minutos, numa disputa de bola com Kanchelskis na qual o árbitro David Elleray apitou pênalti, por um empurrão do defensor no ponteiro. Além da intenção e da intensidade do choque, havia dúvidas se o lance acontecera dentro ou fora da área. Cantona voltou à marca da cal e, novamente com frieza, num lance quase idêntico ao primeiro gol, converteu outra vez. Depois, apenas três minutos mais tarde, Sinclair escorregaria ao tentar interceptar um lançamento, oferecendo uma verdadeira assistência a Mark Hughes, que só teve o trabalho de tirar de Kharine para praticamente selar a vitória e o título do United.

Mesmo abalado, o Chelsea ainda chegaria perto do gol numa cabeçada de Peacock defendida brilhantemente por Schmeichel e num chute de Wise que passaria perto da trave. Porém, nos acréscimos, após outra grande intervenção do goleiro dinamarquês numa finalização de Spencer, o United chegaria ao quarto gol num contra-ataque fulminante. Ince foi lançado vencendo a linha de impedimento dos Blues, driblou Kharine e rolou para trás para Brian McClair – que entrara no fim do jogo – escorar com calma para as redes, fechando a goleada.

O Chelsea esperaria 13 anos por uma revanche, na primeira final do torneio disputada no novo estádio de Wembley. Nesse interim, os Blues haviam sido alçados ao posto de uma das forças do futebol inglês. Venceram a FA Cup pela segunda e terceira vez em 1997 e 2000 (esta, na última final do antigo Wembley), a Copa da Liga e a Recopa Europeia pela segunda vez em 1998 e, mais tarde, sob o comando do técnico português José Mourinho, ainda sairiam de uma fila de meio século na liga, conquistando um bicampeonato em 2005 e 2006.

Naquela temporada 2006/07, os Blues buscavam uma dobradinha “copeira”, depois de já terem levantado a Copa da Liga em março, derrotando o Arsenal por 2 a 1 no Millenium Stadium, em Cardiff. Mas o Manchester United também tentava sua própria dobradinha, após ter conquistado a Premier League, superando exatamente o Chelsea, seu único perseguidor. Pelos Red Devils, além do técnico Alex Ferguson, outro remanescente da decisão de 1994 era o ponteiro galês Ryan Giggs, que atuaria pela sétima vez numa final do torneio.

A final, disputada em 19 de maio de 2007, foi precedida por uma cerimônia aberta pelo Príncipe William e que contou com a presença de representantes dos clubes campeões da taça no velho Wembley nos 50 anos anteriores (incluindo dois finalistas de 1994: Mark Hughes e Dennis Wise – que marcava presença simbolizando o título do Chelsea em 1997).

Após três temporadas sem conquistar a Premier League, o Manchester United vivia um período de recuperação em 2006/07, e por isso faturar também a FA Cup se mostrava como uma questão de orgulho. O elenco contara com poucas adições naquele ano, a mais importante delas com a introdução de Michael Carrick no meio-campo. De qualquer forma, Sir Alex Ferguson via a confirmação de vários jogadores importantes, especialmente após perder Roy Keane e Ruud van Nistelrooy nos meses anteriores. Edwin Van der Sar se tornava o verdadeiro herdeiro de Schmeichel; a zaga tinha a solidez de Rio Ferdinand e Nemanja Vidic; Paul Scholes oferecia sua fluidez pelo meio; Cristiano Ronaldo voava na ponta, entrando em seus melhores momentos; e, apoiado por Giggs, Wayne Rooney fazia explodir no ataque. Formação muito bem consolidada, como se veria nos anos seguintes.

Não que o Chelsea fosse menos time. Muito pelo contrário, os Blues ainda desfrutavam de sua melhor formação na história. Não emendaram o tri na Premier League, mas aquela Copa da Inglaterra poderia ser degustada como uma vingança – uma taça que não vinha desde 2000, quando os milhões de Roman Abramovich ainda não haviam sido injetados em Stamford Bridge. A situação de José Mourinho não azedara completamente, e ele seguia no controle de seus senadores. E, ao menos no papel, os Blues eram mais fortes do que no ano anterior, com as adições de Ashley Cole, Michael Ballack e Andriy Shevchenko – embora nem todos tenham dado certo. O trio de novatos, todavia, ficou de fora da formação titular naquela tarde em Wembley. A escalação era mesmo a célebre, de Petr Cech, John Terry, Claude Makélélé, Frank Lampard, Joe Cole e Didier Drogba. Dos mais antigos, o lesionado Ricardo Carvalho acabou como a principal ausência entre os londrinos.

Apesar das expectativas, principalmente pelo poderio das duas equipes, a decisão decepcionou. O primeiro tempo proporcionou raríssimas chances de gol, com o Chelsea tomando um pouco mais a iniciativa. Entretanto, exceção feita a um chute de longe de Drogba que passou ao lado e a um arremate de Lampard que forçou boa defesa de Van der Sar, os dois times pouco produziram. Sobrava cautela em ambos os lados do campo, apesar de todos os craques disponíveis para decidir.

Para o segundo tempo, Mourinho confiou na velocidade de Arjen Robben na ponta. Entretanto, o Manchester United voltou melhor, inspirado principalmente por Rooney. O atacante encarava os zagueiros e, com boas jogadas individuais, começou a criar perigo. Por duas vezes o camisa 8 testou Petr Cech, sem conseguir passar pelo paredão. Além disso, Ryan Giggs recebeu a sua chance após lançamento de Scholes, mas emendou por cima do travessão. Drogba ainda cobrou uma falta que bateu no pé da trave, mas não que o Chelsea tenha feito mais. O metodismo do time de José Mourinho, de qualquer maneira, era bastante funcional e mostrava que, apesar dos sustos, os londrinos tinham controle da situação. Com o zero prevalecendo no placar, o confronto se estendeu à prorrogação.

O tempo extra foi tenso, como há de ser em uma final tão amarrada. O Manchester United ficou com o grito preso na garganta por um lance controverso. Após cruzamento da direita, Giggs escorou de carrinho e Cech segurou a bola. Enquanto deslizava, o galês empurrou o goleiro para dentro do gol e reclamou, alegando que a bola havia passado a linha. Mas em tempos sem grandes recursos tecnológicos, as imagens da televisão não são tão conclusivas. Depois do jogo, Fergie ainda reclamaria de uma falta de Michael Essien sobre o veterano na hora da conclusão.

Depois de uma ou outra chance sem tanta relevância, as duas torcidas precisaram aguardar 116 minutos até que a decisão tivesse seu desfecho. E pelo menos isso aconteceu de maneira brilhante. John Obi Mikel espetou uma bola para Drogba na entrada da área. Entre as linhas de marcação, o centroavante deu um inteligente passe de primeira a Lampard, na ponta direita, já virando o corpo e se projetando para dentro da área. O maestro devolveu com um tapa por elevação e, diante de Van der Sar, que saía desesperado, o matador deu um sutil toque com o bico da chuteira. Não haveria mais tempo para qualquer reação, premiando a frieza e o poder de decisão dos Blues. Entre os muitos gols de Drogba pelos Blues, este certamente está entre os mais simbólicos.

Taça erguida pelo Chelsea, o Manchester United deu seu troco na Community Shield, assegurando a competição nos pênaltis. A grande revanche, todavia, aconteceu um ano depois, em Moscou. Já sem Mourinho, o Chelsea tentava buscar a inédita Liga dos Campeões. Teve seu desejo negado pelo United, em noite de dramas no Estádio Luzhniki, também definida na marca da cal. História para outra oportunidade – em breve.

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