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Dez histórias que fizeram a temporada 1985/86 especial para o Campeonato Inglês

* Por Emmanuel do Valle, jornalista e dono do blog Flamengo Alternativo

A Premier League vive uma temporada especial em 2015/16. A campanha do Leicester vai sendo o carro-chefe entre as boas histórias, mas há outros tantos temas interessantes a se abordar: de decepções a surpresas, a tabela equilibrada beneficia as trajetórias que desviam as expectativas. E isso dentro de um contexto mais amplo, com os novos valores das cotas de televisão, que permitiram aos times médios se aproximarem dos mais poderosos, muitos deles frustrados com suas contratações de peso. Cria uma corrida eletrizante pela taça, pelas competições europeias e mesmo contra o rebaixamento.

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O torneio tão rico lembra outra edição do Campeonato Inglês, ocorrida há exatos 30 anos. Em 1985/86, a liga combinou igualmente diversas campanhas brilhantes. Mas com um pano de fundo bem mais sombrio, em época na qual a TV sequer existiu durante parte da disputa, os torcedores se ausentavam das arquibancas e o hooliganismo atingia o seu ápice. Ainda assim, os bons times montados para aquela temporada a tornaram especial. Abaixo, recontamos essa história, com dez fatos interessantes sobre aquele ano:

Em meio ao caos, até que teve futebol

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A temporada 1985-86 foi a que se seguiu às tragédias de Heysel e de Bradford, com o futebol totalmente desprestigiado perante a opinião pública; o hooliganismo no auge (além de Bruxelas, houve diversos incidentes graves de briga envolvendo torcedores em território inglês, como em Luton); estádios decrépitos e sem segurança; clubes acumulando prejuízos e à beira da falência (caso do Middlesbrough, que acabaria rebaixado para a terceira divisão); e as médias de público caindo vertiginosamente aos menores índices desde o período pós-Segunda Guerra. Surpreendentemente, dentro de campo o que se vê é uma das temporadas mais disputadas em muito tempo, mantendo a alta média de gols (2,79) da anterior, que fora a maior desde 1967/68.

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Sem copas europeias, a FA cria novas competições

O banimento dos clubes ingleses (naquela época, ainda por tempo indeterminado) das copas europeias pela Uefa prejudicou Everton (fora da Copa dos Campeões), Manchester United (fora da Recopa), Liverpool, Tottenham, Southampton e Norwich (fora da Copa da Uefa, este último por ganhar a Copa da Liga). Com o objetivo de, entre outras coisas, tentar compensar a falta de competições continentais para os clubes – e manter o calendário inchado –, a Football Association cria uma série de copas “caça-níquel”. Surgem as efêmeras English Super Cup (disputada entre os seis clubes que jogariam os torneios continentais, e que só duraria uma única edição) e a Full Members Cup. Obviamente, não tinham o mesmo prestígio e não despertaram o mesmo interesse.

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Futebol na televisão? Esqueça…

Toda a primeira metade da temporada se desenrolou longe da televisão, já que a antiga Football League (que organizava as quatro principais divisões) exigiu mais dinheiro do “pool” formado pela BBC e pela ITV, e este se recusa a aumentar a oferta de £ 19 milhões (cerca de £ 55 milhões, corrigidos em valores atuais) por um contrato de transmissão de quatro anos. Além disso há um impasse entre as partes com relação à divisão entre o número de jogos transmitidos ao vivo e o de compactos com os melhores momentos – os clubes queriam mais do segundo, já que na época era forte a ideia de que o futebol ao vivo na TV mataria o esporte.

Até a virada do ano, exceto pela Charity Shield e os jogos das seleções britânicas, nenhum jogo foi transmitido. “Nenhuma partida foi exibida pela televisão. E nesse período nós jogamos um futebol espetacular, um dos melhores que já vi. Infelizmente, não há nenhum registro visual disso”, lamentaria anos depois o então técnico do Manchester United, Ron Atkinson, no documentário “Match Of The 80’s”, da BBC.

A conciliação só vem em janeiro, quando os clubes aceitaram a barganha de £ 1,3 milhão (menos de £ 4 milhões, em valores atualizados) por um pacote de seis partidas da liga e três da Copa da Liga. Mas já fica no ar o prenúncio de uma nova relação entre clubes e televisão, que culminaria na criação da Premier League.

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O início arrasador do Manchester United

Primeira fila: McGrath, Stapleton, Bailey, Whiteside e Moran; Segunda fila: Hogg, Hughes, Barnes, Blackmore e Strachan; Terceira fila: Albiston, Duxbury, Robson, Moses e Brazil
Primeira fila: McGrath, Stapleton, Bailey, Whiteside e Moran; Segunda fila: Hogg, Hughes, Barnes, Blackmore e Strachan; Terceira fila: Albiston, Duxbury, Robson, Moses e Brazil

Sem futebol na TV, só quem foi aos estádios viu o começo espetacular de temporada do Manchester United de Ron Atkinson, com 10 vitórias nos 10 primeiros jogos (ficando a um triunfo de igualar o recorde do Tottenham de 1961) e invicto até a 15ª partida. No entanto, a grande campanha começa a ir pelo ralo quando o grande condutor daquela equipe, o meia Bryan Robson, passou a se ver às voltas com uma lesão nos tendões. Para piorar, em março, num jogo contra o West Ham, Robson desloca o ombro numa disputa de bola pelo chão e vira dúvida até para a seleção inglesa que disputaria a Copa do Mundo no México.

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Com Lineker, o Everton ainda mais forte

Atuais campeões, os Toffees se mantêm nas manchetes com a contratação de maior impacto da temporada, ao pagar £900 mil (recorde do clube) ao Leicester pelo atacante Gary Lineker. Quem deixa o clube, no entanto, é o escocês Andy Gray, ídolo da torcida – que chega a correr um abaixo-assinado protestando contra a saída do atacante para o Aston Villa. Em campo, o Everton hesita no começo da temporada, mas logo passa a brigar pelas primeiras posições, embalado por resultados como a goleada de 6 a 1 sobre o Arsenal, em novembro. Lineker vai fazendo sua parte, balançando as redes dos adversários com espantosa regularidade, somando 40 gols em todas as competições até o fim da temporada (30 só na liga).

No dia 1º de fevereiro, enfim, o clube aproveita a queda de rendimento do Manchester United e assume a liderança. Parece pronto para o bicampeonato ao vencer o arquirrival Liverpool em Anfield por 2 a 0, no dia 22 daquele mês, mas no fim de março, após uma crise de lesões (entre elas a do goleiro e capitão Neville Southall) e tropeços, perde a liderança justamente para os Reds. Mas a briga é boa até as últimas rodadas.

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O melhor West Ham da história

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A grande surpresa da temporada, no entanto, é o West Ham. Se não tem os nomes lendários dos anos 60 como Bobby Moore, Geoff Hurst e Martin Peters, a jovem dupla de frente formada pelo então semidesconhecido escocês Frank McAvennie (trazido do Saint Mirren em julho) e pelo inglês Tony Cottee leva os Hammers a cumprirem a melhor campanha de sua história na liga, brigando até a última rodada pelo título. No caminho, aplicam 4 a 0 no Chelsea em pleno Stamford Bridge e espantosos 8 a 1 no Newcastle, com direito a hat-trick do zagueiro Alvin Martin. Dirigidos por John Lyall, acabam na terceira colocação, apenas quatro pontos atrás do campeão Liverpool.

Outra boa surpresa londrina, o Chelsea

Quem também faz uma boa temporada (sua melhor desde o começo dos anos 70) são os Blues, treinados por John Hollins. Com a dupla de ataque formada pelo inglês Kerry Dixon (reserva de Lineker na seleção) e o escocês David Speedie, o Chelsea não chega a liderar, mas passa boa parte da temporada entre os primeiros colocados, na cola dos ponteiros. Em março, conquista a Full Members Cup em Wembley, numa final maluca contra o Manchester City (o Chelsea chegou a abrir 5 a 1, mas o City marcou três vezes nos últimos dez minutos para diminuir para 5 a 4).

No entanto, a taça seria a última alegria do clube na temporada, já que logo depois os Blues sofrem duas calamitosas goleadas em sequência: 4 a 0 para o West Ham em Stamford Bridge e 6 a 0 para o Queens Park Rangers na grama sintética de Loftus Road (na última rodada, voltariam a ser goleados em casa, 5 a 1 para o Watford). Para piorar, em 20 de maio os dirigentes anunciam um plano de venda do estádio (e demolição para a construção de um condomínio residencial), com o Chelsea passando a dividir o Craven Cottage com o Fulham. Para a felicidade da torcida, nunca aconteceu.

“Corujas” também em boa fase

Promovido em 1984 junto com o Chelsea, depois de 14 anos fora da elite, o Sheffield Wednesday também fez boa temporada, dirigido pelo futuro técnico do Leeds Howard Wilkinson e contando com um elenco sem estrelas, mas repleto de caras conhecidas do futebol inglês da época (como os pontas Mark Chamberlain e Brian Marwood e o atacante Garry Thompson). Foi o encarregado de quebrar a série invicta do Manchester United, perseguiu os líderes durante boa parte do campeonato, terminou na quinta colocação e ainda chegou às semifinais da FA Cup, derrotado pelo Everton.

Os grandes feitos do estreante Oxford United

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Na parte de baixo da tabela, mas também brilhando à sua maneira, estava o Oxford United, estreante na primeira divisão e vindo de dois acessos consecutivos. Em fevereiro, aplica 4 a 1 no Chelsea em Stamford Bridge. No mês seguinte, conquista a Copa da Liga em Wembley com um sonoro 3 a 0 sobre um bom time do Queens Park Rangers. Em 30 de abril, dá uma grande ajuda ao Liverpool, ao derrotar o Everton por 1 a 0, na maior zebra da reta final da liga. Por fim, no começo de maio, garante sua permanência na elite por um ponto, com outra grande vitória: 3 a 0 sobre o Arsenal. Entre os jogadores, o destaque fica com a dupla irlandesa formada pelo meia Ray Houghton e o centroavante John Aldridge, autor de 23 gols na liga.

No fim, o improvável virou previsível

Mas tudo acabou como quase sempre acabava na época: Liverpool campeão. Mesmo com um time sensivelmente mais fraco do que em anos anteriores, o qual nem os próprios jogadores acreditavam que pudesse chegar. Kenny Dalglish, em sua primeira temporada como jogador-técnico, redefiniria o conceito de decisivo, ao “se escalar” para a última partida, contra o Chelsea em Londres, e marcar o gol da vitória por 1 a 0, garantindo a 16ª liga da história dos Reds. Para completar, em seguida veio o título da FA Cup, com vitória de virada por 3 a 1 sobre o rival Everton. Menos qualificado tecnicamente ou não, o fato é que aquele Liverpool conquistou a única dobradinha Liga + FA Cup do clube. Aliás, mais do que isso, se considerarmos o título da pouco prestigiada English Super Cup, também sobre o Everton. E ainda chegou às semifinais da Copa da Liga, sendo eliminado em Anfield ao sofrer o empate do Queens Park Rangers nos minutos derradeiros.

– Como curiosidade, os clubes que teriam se classificado para as copas europeias ao final daquela temporada seriam o Liverpool (na Copa dos Campeões), o Everton (na Recopa, como vice da FA Cup) e West Ham, Manchester United, Sheffield Wednesday e Oxford United (na Copa da Uefa, este último pela vaga da Copa da Liga).

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Emmanuel do Valle

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas.

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