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Depois do West Ham, o Millwall também pode deixar sua tradicional casa – e a contragosto

A rivalidade no leste de Londres passou por transformações profundas nos últimos meses. Primeiro foi o West Ham que deixou Upton Park, sua histórica casa por mais de um século. Agora, o rival Millwall vê em risco sua permanência na região onde fincou morada a partir de 1910. O conselho (unidade política de gestão local) de Lewisham votou pela emissão de uma ordem de compra compulsória (leia-se, aceitando ou não a proposta) dos terrenos no entorno do estádio The Den, sob posse do clube. A decisão deveria ser confirmada nesta quarta-feira, em reunião adiada. Os Lions alegam que, caso a postura seja ratificada, seu futuro está em perigo e isso pode forçar sua saída da região.

A intenção dos políticos é aproveitar a área (onde atualmente funciona o estacionamento do clube, um café e um prédio de lazer à comunidade) para construir 2,4 mil casas, além de outras estruturas à população, como uma estação de trem. O investimento seria repassado a uma incorporadora, que, no entanto, tem gerado controvérsia entre os locais. Fundada por um ex-representante político de Lewisham, a empresa possui sede em um paraíso fiscal e nunca realizou um projeto em escala tão grande.

Dentro do conselho, a principal voz a favor do Millwall é a de Alan Hall, líder da comissão de investigação: “Há muitas lacunas nos planos, muitas questões que não foram respondidas e muitos alarmes soando. Nós precisamos de mais transparência e segurança antes de investir o dinheiro dos contribuintes e tomar a propriedade de outras pessoas. O senso comum diz que o prefeito e o seu gabinete, que estão tomando estas decisões, precisam colocar freios e fazer um balanço da situação. A reputação do conselho de Lewisham está em risco”.

O Millwall e a comunidade acusam a companhia de tentar lucrar com a remoção de famílias e a demolição de casas na região. O clube também afirma que a compra compulsória do terreno irá minar algumas estruturas do clube, atravancar seu crescimento econômico e rebaixar o nível de classificação de suas categorias de base – Categoria 2, tão bem avaliada quanto às de clubes da Premier League, o que facilita na atração de jovens promessas. O presidente dos Lions já havia manifestado o interesse em realizar as melhorias nos terrenos e, a partir disso, gerar uma nova fonte de receita a longo prazo. Segundo John Berylson, seriam construídos ali apartamentos, um hotel e outras estruturas para o desenvolvimento da região.

Mais de 27 mil pessoas já assinaram uma petição online contra a compra compulsória dos terrenos, organizada pelos torcedores. “Clubes de futebol são parte crucial da sociedade britânica e estão no coração de nossa comunidade. Eu sei o quão doloroso seria para a torcida do Millwall e para a comunidade local se o clube fosse forçado a se mudar. Os detalhes deste caso são bastante extraordinários e espero que o conselho não tome medidas que botem em risco o futuro do clube na área”, declarou ao Guardian o líder do partido Liberal Democrata, Tim Farron, que apoia o Millwall.

Embora o novo projeto imobiliário preveja a geração de dois mil novos empregos, há o temor que a mudança do Millwall traga uma contrapartida à geração de renda na região. Além disso, caso o clube assumisse as obras de prometidas em seu terreno, da mesma maneira os novos empregos poderiam ser gerados. Segundo o presidente dos Lions, se a compra compulsória seguir em frente, uma das possibilidades é a mudança para Kent, condado no sudeste da Inglaterra, em uma área a cerca de 120 km de distância de Lewisham.

Durante os seus primeiros 25 anos de existência, o Millwall utilizou quatro diferentes campos em Londres. A partir de 1910, o clube chegou ao ‘Old Den’, com capacidade para 47 mil espectadores. O estádio foi demolido e reinaugurado em 1993, sendo o primeiro da Inglaterra a atender as especificações de segurança do Relatório Taylor, após o desastre de Hillsborough. Décimo colocado na League One, a terceira divisão do Campeonato Inglês, o Millwall mantém média de 9,3 mil torcedores por jogo no atual The Den, que pode receber até 20 mil pessoas.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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