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Como a rivalidade Escócia x Inglaterra começou por orgulho e descambou para a violência

Antes do duelo pela Euro 2020, recontamos as origens do clássico mais antigo do futebol de seleções

Texto publicado originalmente em setembro de 2014 e atualizado

Wembley receberá um confronto especial nesta sexta. Inglaterra e Escócia disputarão o 115º duelo de um clássico com 149 anos de história. Pela segunda vez numa fase final de Eurocopa, a rivalidade mais antiga do futebol de seleções se reeditará. A rixa entre ingleses e escoceses, porém, não se restringe ao embate em si. Ela passa sobre certa “paternidade” sobre o futebol, entre a responsabilidade da Inglaterra pela invenção das regras e a resposta da Escócia por aprimorar o jogo. E vai ainda além, numa contraposição com desdobramentos políticos e culturais entre as duas nações. O campo ajuda a tornar os sentimentos mais aflorados.

A rivalidade entre escoceses e ingleses se expressa nos estádios desde pelo menos 1870. Porém, com um caráter que se transformou desde então. Se havia um ambiente amistoso nos primeiros duelos, a agressividade aumentou significantemente a partir da década de 1970, se desdobrando para o hooliganismo. Por conta da violência, os jogos tornaram-se bem menos frequentes nos últimos 30 anos, pelo menos entre as seleções. O que não diminuiu a vontade do povo de um território se sobrepor ao outro.

Os sentimentos entre ingleses e escoceses no futebol remetem a uma supremacia que não existe há quase um século, quando as duas nações tinham reconhecidamente as duas melhores seleções do mundo, mas que permanece viva no imaginário dos torcedores locais. Perder para a Inglaterra significa à Escócia se sentir em segundo dentro desse universo particular. E, em tempos nos quais discordâncias políticas ficam expressas, também significa ser submisso a uma realidade que muita gente por lá não quer mais.

O primeiro clássico internacional da história

A formalização das regras em 1863 ajudou a impulsionar o futebol. E, com muitos escoceses praticando a modalidade nas escolas públicas de Londres, que monopolizavam o jogo naqueles primeiros anos, a rivalidade floresceu naturalmente. Tanto que os primeiros confrontos entre ingleses e escoceses aconteceram antes mesmo da noção de “seleção nacional” surgir. Entre 1870 e 1872, foram cinco partidas organizadas em Londres pela Football Association.

O primeiro amistoso aconteceu em março de 1870 no Kennington Oval, o principal estádio da Inglaterra nos primórdios – e ainda hoje utilizado para partidas de críquete. A partida contou com grande repercussão da imprensa escocesa, ainda que a seleção do norte fosse formada apenas por jogadores que defendessem clubes e universidades inglesas. Dos 11 escalados naquele jogo, apenas um havia nascido mesmo na Escócia, embora todos os outros tivessem ascendência no país. Com a bola rolando, prevaleceu o empate por 1 a 1. A Escócia abriu o placar com Robert Copland-Crawford, estudante de 17 anos, que aproveitou a estratégia do goleiro inglês Charles Alcock de se juntar ao ataque com a posse de bola e acertou um chute de muito longe com o gol vazio. Depois, os anfitriões buscaram o prejuízo.

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Aqueles times, no entanto, ainda não tinham influência do futebol-arte desenvolvido pelos escoceses. A difícil viagem da Escócia para a Inglaterra impedia que os melhores jogadores do norte fossem a Londres. Tanto que apenas um jogador do poderoso Queen’s Park, que aprimorou o chamado “jogo de passes”, defendeu a seleção nas cinco primeiras partidas: Robert Smith, que também foi um dos fundadores e o primeiro capitão do time de Glasgow. Além dele, outras estrelas do lado escocês eram Henry Renny-Tailyour, craque do Royal Engineers, clube londrino de grande reputação pelo estilo de troca de passes; e Arthur Kinnaird, inglês de nascimento que foi cinco vezes campeão da Copa da Inglaterra e depois virou presidente da FA – além de se tornar personagem de série da Netflix mais de um século depois. E o time também contava com William H. Gladstone, filho do então primeiro ministro britânico.

Nestes primeiros jogos, porém, o domínio da Inglaterra foi evidente. Os Three Lions venceram três partidas e empataram outras duas, contra um adversário que não estava com sua força máxima. Os resultados passaram a deixar os escoceses descontentes pela falta de jogadores locais e o jornal The Scotchman chegou a publicar um artigo de CW Alcock, então presidente da FA, afirmando que a seleção do norte estava aberta a todos, com os convites realizados através dos periódicos mais populares da Escócia.

Quando finalmente a Escócia se sentiu representada

O passo para que o duelo entre Escócia e Inglaterra finalmente acontecesse só foi dado em 1872, com a Football Association enviando sua seleção até a região de Glasgow para um amistoso. Os escoceses, enfim, conseguiram montar um time contando com os jogadores locais, embora todos do Queen’s Park. O time do norte até tentou levar Renny-Tailyour e Kinnaird, mas os compromissos dos dois aristocratas não permitiram que viajassem a tempo de entrarem em campo.

Em 30 de novembro de 1872, dia de Santo André (padroeiro da Escócia), as duas equipes se enfrentaram em um campo de críquete diante de 4 mil torcedores. Os escoceses já vestiam a camisa azul marinho com o leão no peito, enquanto os ingleses estavam de branco, com seus três leões. Porém, o campo pesado atrapalhou o “futebol científico” da seleção do norte e fez prevalecer o empate por 0 a 0 – o único do clássico até 1970. Ainda assim, o clima nas arquibancadas era bastante amistoso, algo que marcou os nobres primórdios do futebol.

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A partir de então, Escócia x Inglaterra se tornou um evento anual. E a qualidade do jogo de passes desenvolvido pelos escoceses naqueles tempos fez com que o domínio se tornasse claro. De 1873 a 1887, foram dez vitórias e apenas duas derrotas em 14 confrontos. Algumas das lavadas mais humilhantes dos ingleses aconteceram neste período, incluindo os 7 a 2 engolidos no Hampden Park em 1878. Não à toa, a superioridade da Escócia provocou os ingleses a montarem em 1882 uma seleção de amadores para desafiá-los: o Corinthian, que passou a reunir os melhores jogadores das escolas públicas de Londres e se tornou uma das bases da seleção inglesa até a década de 1910.

Durante este período, inclusive, surgiram duas inovações importantes: a International Board, que unificava as regras nos quatro países das ilhas britânicas, e passaria a fazer o mesmo para o resto do mundo nas décadas seguintes; e o British Home Championship, primeiro torneio de seleções da história, disputado entre as quatro nações – incluindo também Gales e a ainda unificada Irlanda. Na primeira edição, disputada entre 1883/84, a Escócia provou sua hegemonia. Venceu os três jogos com dez gols marcados e apenas um sofrido, levando o primeiro de seus quatro títulos consecutivos naquele início.

Os escoceses foram os primeiros “campeões mundiais”

A ida massiva de jogadores escoceses à Inglaterra com o início do profissionalismo, em 1885, e o início do Campeonato Inglês na temporada 1888/89 acabaram influenciando a seleção escocesa. Sem contar com os craques vendidos ao sul, a Escócia viu os Three Lions virarem a situação a partir de 1888. Naquele ano, a Inglaterra goleou por 5 a 0 dentro do Hampden Park, com grande atuação de John Goodall – o artilheiro do Preston North End campeão nacional invicto que, ironicamente, era filho de escoceses. A sorte só começou a mudar em 1896, quando a federação cedeu e passou a convocar os jogadores escoceses de clubes ingleses. No amistoso daquele ano, Jimmy Cowan liderou a vitória da Escócia por 2 a 1, encerrando uma invencibilidade dos rivais de 20 jogos e sete anos.

Ao mesmo tempo, começava a nascer outro tipo de disputa. A criação do British Home Championship impulsionou a ideia de competições entre os clubes das duas nações. Embora os escoceses disputassem a Copa da Inglaterra na década de 1880, a Copa da Escócia começou a ter mais representatividade no período. E se tornaram comuns duelos entre os campeões dos dois torneios, para se definir o “campeão do mundo”. O Hibernian foi coroado em 1887, enquanto o Renton ficou com a taça em 1888.

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Não havia, porém, uma organização que tornasse esses campeonatos contínuos. O mais notável aconteceu em 1895, após a criação do Campeonato Escocês. O amistoso entre Sunderland e Hearts, os dois campeões das ligas, foi chamado de Campeonato Mundial e contou com grande repercussão da imprensa na época. Diante de 10 mil torcedores em Edimburgo, os Black Cats venceram a movimentada partida por 5 a 3. Porém, ainda que defendesse a bandeira da Inglaterra, o Sunderland não poderia ser mais escocês: todos os jogadores da equipe haviam nascido no norte da fronteira.

Mais amizade do que rixa

O maior desastre da história do clássico entre Escócia x Inglaterra aconteceu em 1902. Durante o duelo anual entre as seleções, um setor recém-construído das arquibancadas do Estádio Ibrox desabou. Mais de 600 pessoas ficaram feridas e 25 morreram. Mas, apesar do acidente, a partida continuou acontecendo, para evitar a saída em massa dos torcedores e novos incidentes. Apesar disso, o resultado foi considerado inválido e o jogo acabou remarcado para o Villa Park, um mês depois. O dinheiro arrecadado na bilheteria deste reencontro foi destinado às vítimas de Ibrox.

Mesmo com ingleses e escoceses disputando o posto de qual era a melhor seleção do mundo, o sentimento de irmandade britânica prevalecia acima das brigas. Além disso, a partir da década de 1920, outras seleções começaram a mostrar nível para enfrentar a dupla, fazendo com que o clássico não fosse mais visto como o principal evento do futebol internacional. Nesta época, a Escócia conquistou uma de suas vitórias mais marcantes no clássico: goleou por 5 a 1 em Londres, tornando aquele time conhecido como “Wembley Wizards”. Uma vitória que fez os escoceses serem aplaudidos por 80 mil pessoas nas arquibancadas.

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A postura soberba fez com que os dois países britânicos se recusassem disputar a Copa do Mundo de 1930, ignorando o futebol praticado fora do Reino Unido. Um ano antes, a Inglaterra sofreu a primeira derrota de sua história para uma seleção de fora das ilhas, a Espanha, enquanto a Escócia viu o mesmo tabu cair em 1931. O domínio no clássico foi dos escoceses nos anos 1930, mas a hegemonia da dupla já estava ameaçada. A Segunda Guerra Mundial, que fez com que o clássico não fosse disputado entre 1939 e 1947, marca uma quebra.

Quando o clássico passou a ser mais que um jogo

Ao fim da guerra, Escócia e Inglaterra começaram a ceder e a entrar no futebol internacional. E o clássico passou a ser cada vez mais visto como uma questão de orgulho. Em 1950, o Home British Championship também valia como classificação para a Copa do Mundo. Entretanto, mesmo com a vaga assegurada no Mundial, os escoceses preferiram declinar por terem perdido para a Inglaterra no torneio. Achavam que aquela derrota já era suficiente para apontar o melhor. Com o vexame dos ingleses no Brasil, ao menos, a seleção do norte mudou seus conceitos para 1954 e foi à Copa, mesmo com a derrota no clássico do torneio classificatório. Acabou na lanterna de sua chave, goleada por 7 a 0 pelo Uruguai.

Em 1953, os clubes da Escócia e da Inglaterra voltaram a disputar um torneio internacional, para comemorar a coroação da Rainha Elizabeth II. Em Glasgow, quatro equipes de cada país se enfrentaram em mata-matas. Curiosamente, quem se saiu campeão foi o participante mais antimonárquico possível, o Celtic, que derrotou Arsenal, Manchester United e Hibernian na caminhada pelo título.

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Foi uma das poucas alegrias da Escócia em um período de claro domínio da Inglaterra nos clássicos. De 1952 a 1961, os Three Lions venceram sete e não perderam um confronto sequer. A maior humilhação veio no último ano da hegemonia, com os ingleses enfiando 9 a 3 em Wembley. O jogo marcou a carreira do goleiro Frank Haffey, que admitiu a falha em cinco gols e mudou-se para a Austrália pouco tempo depois.

Foi uma sova que mexeu com os brios dos escoceses, que venceram os três dérbis seguintes. Já em 1967, a Escócia derrotou por 3 a 2 os campeões do mundo dentro de Wembley e passou a dizer que eles mesmos deveriam ser chamados de melhores do mundo. Já entre os clubes, no primeiro duelo dos dois países pela Copa dos Campeões, o Celtic também inflou o moral escocês ao eliminar o Leeds United de Don Revie em 1969/70, diante de 136,5 mil pessoas no Hampden Park – ainda hoje, o maior público já registrado em competições da Uefa.

A violência interrompe o clássico anual

A partir da década de 1970, a questão do orgulho no clássico ultrapassou o limite da animosidade. Com o hooliganismo ganhando cada vez mais espaço nos estádios, as preocupações começaram a sobrepor a festa nos duelos entre ingleses e escoceses. Os clubes dos dois países passaram a se encontrar com maior frequência nas competições continentais, enquanto os duelos entre as seleções concentravam as atenções e as tensões.

Em 1977, veio o sinal mais claro de que a situação poderia sair fora de controle. Após a vitória da Escócia por 2 a 1 no Home British Championship, centenas de torcedores invadiram o campo em Wembley. A polícia não estava suficientemente preparada para conter a algazarra, com os escoceses quebrando as traves e invadindo os vestiários para comemorar. Não houve nenhuma briga ou confusão do tipo durante aquele jogo, mas ficava evidente que o barril de pólvora poderia explodir. Por isso mesmo, os limites às torcidas visitantes passaram a ser maiores.

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As brigas envolvendo os hooligans se tornaram mais frequentes na década de 1980. O Home British Championship teve fim em 1984, embora o duelo anual tenha se seguido na Copa Stanley Rous. Porém, os confrontos entre as firms (espécie de torcida organizada) de Inglaterra e Escócia passaram a se repetir nos dias do clássico entre as seleções. Isso até 1989. Cerca de um mês depois da tragédia de Hillsborough, Inglaterra x Escócia jogaram no Hampden Park. As brigas entre gangues se espalhou em algumas cidades do Reino Unido e aconteceu também nas arquibancadas. Diante do debate intenso sobre a violência das torcidas, as federações preferiram cancelar o dérbi anual. Os encontros passaram a ser mais raros, mas ainda repletos de rivalidade.

Vizinhos cada vez mais distantes

O primeiro encontro de peso entre escoceses e ingleses desde a pausa aconteceu na Liga dos Campeões de 1992/93. Rangers e Leeds United se cruzaram na segunda fase, em jogo cercado de preocupações. Por causa dos episódios de hooliganismo, as torcidas visitantes não foram permitidas e os torcedores dos azuis não puderam comemorar a classificação de sua equipe em Elland Road.

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Já as seleções voltaram a se cruzar no clássico de maior importância da história, pela fase de grupos da Euro 1996. Em campo, Paul Gascoigne brilhou na vitória por 2 a 0 da Inglaterra, com as arquibancadas de Wembley sem incidentes diante do grande aparato de segurança. Já nas ruas de Londres, hooligans de diferentes clubes escoceses uniram forças em confrontos com ingleses e com a polícia. Três anos depois, foram mais dois dérbis pela repescagem das Eliminatórias da Euro 2000, com uma vitória para cada lado. Desta vez, com os incidentes bem menos intensos.

Desde a virada do século, a rivalidade ficou mais expressa nos sentimentos do que nos confrontos – seja em campo ou fora dele. O predomínio financeiro da Premier League deixou os escoceses em um nível bem abaixo de competitividade, apesar dos jogos mais frequentes pelas competições europeias. Da mesma forma, a seleção do norte também perdeu forças no cenário internacional, restando a ela secar os Three Lions na Copa do Mundo e na Eurocopa – o que, convenhamos, não foi tão difícil.

Inglaterra e Escócia só voltaram a se enfrentar em 2013, em um clássico comemorativo pelos 150 anos da Football Association. E o contorno de festa ficou evidente em Wembley, com a vitória dos ingleses por 3 a 2. Já em 2014 o mando de campo se inverteu, com os 3 a 1 dos Three Lions no Celtic Park. O sorteio das Eliminatórias da Copa de 2018 providenciaria mais dois jogos entre 2016 e 2017, com 3 a 0 da Inglaterra em Wembley e o empate por 2 a 2 no Hampden Park. Isso até que o clássico desta sexta resgatasse o riquíssimo passado e aumentasse a faísca, no torneio que marca o retorno da Tartan Army ao cenário internacional após 23 anos. O mais novo capítulo de um confronto prestes a comemorar 150 anos.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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