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Como o profissionalismo ajudou o futebol a romper a divisão de classes e ser realmente popular

O futebol nasceu em berço de ouro e já com um belo bigode aristocrático. As influências do esporte vêm de séculos e séculos, a partir de diferentes culturas. No entanto, a criação das regras como conhecemos hoje aconteceu no seio das melhores famílias britânicas, em 1863, quando a prática já era bastante comum entre os estudantes de Londres. Só que o futebol tinha muita força para se limitar apenas às elites. E a expansão teve um passo decisivo há exatos 130 anos: em 20 de julho de 1885, a Football Association aprovou o profissionalismo. Obviamente, o sucesso do futebol não dependeu só disso, pesando também a simplicidade para se jogar e a atração das massas. Mesmo assim, aquela assinatura valeu muito para que o esporte se tornasse realmente popular.

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Em seus primórdios, a modalidade era estimulada nas escolas não apenas como uma atividade física, mas também como um exercício moral, como parte das políticas públicas do governo britânico. Os ideais cavalheirescos tomavam conta do futebol, como a lealdade e o respeito. Para que tais virtudes se mantivessem intactas, todavia, os organizadores pregavam o amadorismo no esporte. Os interesses financeiros eram vistos como uma ameaça. E a condenação à remuneração serviu como instrumento para garantir a elitização do futebol, evitando que pessoas de classes mais pobres se dedicassem ao esporte e se misturassem com os mais ricos.

Só que, a partir da criação das regras, o surgimento de mais e mais clubes fazia o futebol se expandir pelo Reino Unido. O que, no norte da Inglaterra, berço da Revolução Industrial, acabou servindo para outros interesses. Naquele momento, o operariado ganhava relevância como classe e passou a contar com alguns (poucos) direitos. Assim, o esporte passou a ser incentivado entre os trabalhadores, para os quais os patrões viam uma oportunidade de garantir uma recreação e evitar maiores questionamentos sobre as situações trabalhistas.

A força do norte na Copa da Inglaterra

BlackburnOlympic1882

A melhor mostra dessa transformação é apresentada pela Copa da Inglaterra, o torneio mais antigo do mundo. Em suas 11 primeiras edições, a competição foi dominada por equipes londrinas, formadas por ex-estudantes de escolas públicas e membros das classes mais altas da capital inglesa. Uma espécie de “aristocracia da bola”. Porém, a popularização do futebol aumentava o número de clubes de fora de Londres, assim como a competitividade que se desencadeou com a FA Cup passou por cima dos valores amadores. Em busca da vitória, surgiram suspeitas de que vários clubes pagavam atletas para incentivá-los. Os casos mais escandalosos envolviam jogadores escoceses, considerados tecnicamente melhores, que se mudavam à Inglaterra apenas para defender equipes locais.

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Diante desse processo, o cerco contra o profissionalismo começou a aumentar. O primeiro grande sinal do conflito aconteceu em 1879, quando o Darwen chegou às fases finais da FA Cup. Não se esperava que o clube do norte, formado por jogadores de classes operárias, pudesse incomodar o Old Etonians, formado por ex-estudantes das escolas públicas. Os desconhecidos, entretanto, buscaram o empate quando perdiam por 5 a 1 e forçaram o jogo extra. Mesmo eliminados, deixaram a dúvida: como um time insignificante pode competir com uma das maiores forças da Inglaterra? Entre as estrelas do Darwen, estavam dois escoceses.

Para barrar a artimanha, a Football Association proibiu a importação de jogadores em 1882, assim como qualquer tipo de remuneração – só havia brecha para a compensação de dinheiro gasto pelos atletas. O Preston North End foi eliminado da FA Cup naquele ano ao ser acusado de pagar seus atletas. Um dos grandes defensores da aceitação do profissionalismo, o clube admitiu a quebra das regras e acabou punido.

Já em 1883, um time do norte da Inglaterra venceu a Copa da Inglaterra pela primeira vez, derrotando o Old Etonians na final. Mais significativo, eram aristocratas derrotados por operários – cinco funcionários de uma fábrica de tecidos, um metalúrgico, um escriturário, um encanador, um assistente de dentista, um emoldurador e um dono de pub. Sob os olhares de oito mil pessoas, o Blackburn Olympic bateu os então donos da taça, que disputavam sua sétima final do torneio. Em consequência do revés, os times londrinos abandonaram a competição na temporada seguinte, criando a Amateur Cup.

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O Blackburn Olympic é um ícone da transformação que vivia o futebol. O esporte se tornava muito relevante no norte do que no sul. Os times eram vistos como uma maneira de simbolizar a prosperidade da cidade, desafiando a superioridade dos londrinos. Os empregos dos jogadores do Olympic foram arranjados pelos próprios dirigentes do clube, que ainda incrementava seus salários com bonificações não registradas em seus balanços. O maior exemplo de uma situação clandestina que se tornava cada vez mais comum.

A pressão aumentou em 1884, quando mais de 30 clubes do norte anunciaram que formariam a British Football Association, caso a FA não permitisse o profissionalismo. Dezoito meses depois, a entidade acabou cedendo e legalizando a remuneração, em um passo fundamental para o futebol.  Naquele momento, as distinções entre classes sociais eram bem menores, por mais que os aristocratas insistissem no amadorismo. A pluralidade se evidenciava tanto nos campos quanto nas arquibancadas. E, de certa forma, a integração de diferentes camadas também permitiu uma expansão mais rápida do esporte pelo mundo, contando com a ajuda tanto de estudantes e engenheiros quanto de imigrantes e marinheiros.

As consequências revolucionárias do profissionalismo

preston

Já dentro do Reino Unido, houve também um salto de qualidade. Primeiro, porque a contratação de jogadores escoceses se tornou indiscriminada. Chamados de “professores”, eles aumentavam não apenas a qualidade técnica dos times ingleses, como também traziam consigo um estilo de jogo diferente, com mais dribles e toque de bola. Algo importantíssimo para o desenvolvimento do “futebol-arte” e também das táticas do jogo. Em especial, os jogadores oriundos do Queen’s Park, a primeira grande escola do jogo bonito.

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Além disso, o profissionalismo inspirou a criação do Campeonato Inglês e, assim, das ligas nacionais. A necessidade de pagar salários exigia que os empregadores tivessem uma renda estável durante toda a temporada. E, embora os clubes mais famosos fossem bastante visados para amistosos, outros tantos ficavam à mercê de adversários que surgissem, caso caíssem cedo na Copa da Inglaterra. A solução foi simples, mas revolucionária: para que todos se mantivessem em atividade pelo mesmo período e disputassem a mesma quantidade de jogos, os pontos corridos foram instituídos, inovando em relação aos mata-matas da FA Cup. Aquela primeira edição da liga também serviu para que inventassem a pontuação (dois pontos por vitória e um por empate), o limite de transferências e a arbitragem.

Já no restante do mundo, por mais que o futebol se expandisse, o profissionalismo demorou mais algum tempo. No Brasil, por exemplo, a popularização do esporte entre as diferentes classes aconteceu antes de 1933, tanto pelo fácil acesso ao jogo quanto pela força que as partidas tinham para atrair as massas – em especial, entre as décadas de 1910 e 1920. Ainda assim, a legalização do pagamento aos jogadores também teve o seu papel ao futebol brasileiro. Este foi um passo importante para a inserção do negro, não só nos campos, mas na sociedade como um todo – em uma luta que segue dura, 82 anos depois.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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