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Como a final da Copa de 1966 atrapalhou uma das obras-primas de Stanley Kubrick

Há 49 anos, a Inglaterra sentiu um gosto único no futebol. O país que criou as regras do jogo finalmente podia se chancelar como campeão do mundo. É verdade que o título da Copa de 1966 não é dos mais honestos, com o contestado gol de Hurst abrindo a vitória na prorrogação contra a Alemanha Ocidental. No entanto, aquela taça continua única para os Three Lions ainda hoje. Símbolo também de uma das gerações mais brilhantes do futebol nacional, com Bobby Charlton, Bobby Moore, Gordon Banks e Bobby Stiles.

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Chegar à decisão inédita, contra os alemães, gerou uma mobilização imensa na Inglaterra. A ponto de atrapalhar até mesmo as filmagens de um dos maiores clássicos do cinema. Stanley Kubrick ganhou reconhecimento como um mestre da arte com “2001: Uma Odisseia no Espaço”, filme que também elevou a um novo status o gênero da ficção científica e ainda deixou um enorme legado em efeitos especiais. Porém, o dia de trabalho sobre a película acabou perdido naquele 30 de julho de 1966. A ponto de terem que refilmar as cenas registradas naquele dia, conforme contado pelo blog “2001 Itália”.

Kubrick

Kubrick começou a produzir os efeitos especiais do longa-metragem um mês antes do início da Copa de 1966. Esforços que demoraram dois anos e foram realizados em um estúdio montado pela MGM nas redondezas de Londres. E entre os principais equipamentos criados para os efeitos, havia uma câmera montada em um trilho circular, que girava em torno da maquete de 16 metros simulando a estação especial. Um processo que acontecia lentamente, durando segundos para o mínimo deslocamento. A ponto de Kubrick dizer que o trabalho da câmera se assemelhava ao ponteiro das horas de um relógio.

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Só que, no dia da final da Copa de 1966, a rotina da equipe de filmagens se transformou. O estúdio ficava a 15 quilômetros de Wembley, e boa parte da produção era formada por ingleses, malucos para ver aquele jogo. Como um bom patrão, Kubrick colocou uma televisão no local para que os seus funcionários espiassem a decisão. Para que… Quando saiu o gol da vitória da Inglaterra, de Hurst, os torcedores deram um salto para festejar. O piso do set de filmagens chegou a tremer com o tamanho da vibração.

2001

Pior para a câmera operando no trilho. O equipamento demorava seis segundos para registrar cada quadro. Passava cerca de três horas para registrar a sequência de um minuto. E, durante a comemoração do gol, perdeu três destes quadros bem no meio dos 1500 registrados. O suficiente para que a sequência de um dia inteiro se perdesse. E, em tempos nos quais a filmagem digital era mero fruto da ficção científica, Kubrick só descobriu o erro dias depois, quando os negativos finalmente tinham sido revelados e rodados. Segundo o diretor, até parecia que a estação espacial desviava de um lado a outro da tela.

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Em abril de 1968, enfim, Kubrick lançou a sua odisseia. E o trauma com a final do Mundial não atrapalhou o americano a ter certo apreço pelo futebol. Segundo a sua filha, Katarina, “ele amava o Manchester United. Era um grande fã de George Best, embora não torcesse por uma equipe em particular. Ele via os jogos apenas para ver as boas equipes”. Efeito claro de quem havia se mudado à Inglaterra na década de 1960, embora não tivesse largado sua paixão pelo futebol americano. Ao menos o gênio também percebeu a importância da bola redonda para os ingleses – e que um dia de filmagens perdido não era nada perto disso.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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