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Cinco dias após o épico, Newcastle vira as costas a Gutiérrez e dispensa seu herói

Jonás Gutiérrez passou sete anos em Newcastle. Caiu com o clube na Premier League, mas foi um dos líderes do elenco no acesso em 2010, disputando logo depois a Copa do Mundo. Sonhou com a Champions e viveu momentos de baixa. Não abandonou os Magpies nem mesmo quando não contou com auxílio da diretoria para tratar de um câncer na Argentina, custeando a operação e a quimioterapia. Pelo contrário, chegou a ser convidado a procurar outro time. Mas voltou, para eternizar sua imagem em St. James’ Park. O gol e a assistência no jogo que salvou os alvinegros não têm preço. Mas apenas para a torcida, que o idolatrará sempre. A diretoria dispensou o camisa 18 apenas cinco dias depois da tarde heroica.

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O contrato de Jonas Gutiérrez se encerrará no final de junho, assim como o de Ryan Taylor, outro dos jogadores mais antigos do elenco e que sofreu com lesões recentes no joelho. Diante da situação, a tão criticada direção do Newcastle preferiu dizer adeus a ambos. “Ryan e Jonas contribuíram significantemente ao Newcastle durante bons anos e, em nome da direção, queria agradecer ambos pelos excelentes serviços prestados. Foi um grande prazer vê-los voltando ao time e competindo em grande nível depois das batalhas que venceram. Atravessar essas dificuldades com força e dignidade deu esperança e inspiração a muitos e aprofundou a conexão e a afeição dos torcedores com ambos”, declarou o diretor de gerenciamento Lee Charnley. Palavras bonitas, mas vazias.

Obviamente, a postura de Gutiérrez foi de total desaprovação. Em seu Facebook, o meia agradeceu o apoio dos torcedores: “Obrigado a todos os fãs e à torcida do Newcastle por me apoiar e acreditar em mim. Esta é a forma de demonstrar que sempre escuto vocês  e que são o mais importante para mim, sem vocês o futebol não seria nada. Todo meu carinho e afeto é para vocês. Um abraço enorme”. Já em sua conta no twitter, não deixou de se queixar dos dirigentes: “Duas coisas que aprendi da minha doença é como você pode apoiar um jogador (torcedores do Newcastle) e como você pode deixá-lo sozinho (dono do Newcastle)”.

Não é só uma questão de gratidão, longe disso. Especialmente com Jonás Gutiérrez. O argentino carregou o time no jogo mais importante da temporada, demonstrando sua capacidade para liderar a renovação que se espera no Newcastle. Tem experiência de sobra dentro do clube, o respeito de todos e ainda é um exemplo de vida. O que, seja uma questão de salário ou não, os dirigentes dos Magpies parecem ignorar completamente. Preferem a dispensa do que o voto de confiança – algo que, diga-se, já não tinham dado durante o tratamento do câncer e se mostraram totalmente equivocados.

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Aos 31 anos, Jonás Gutiérrez pode render muito ainda. Por mais que seu histórico recente não seja tão bom, especialmente antes do câncer (quando chegou a ser emprestado ao Norwich), o jogo contra o West Ham depõe a seu favor. O Newcastle teve seis meses para observá-lo desde a alta do tratamento, mas abre mão justamente depois do melhor momento. Pode ser apenas uma exceção? Talvez. Mas que serve para a aposta de outros clubes, mesmo da Premier League.

Enquanto isso, a torcida do Newcastle se divide. Em fóruns na internet, alguns avaliam o momento certo para Jonás deixar o St. James’ Park como um ídolo, já que não rendia tanto há mais tempo. Mesmo assim, muitos se sentem contrariados pela decisão da diretoria, não só pelo contexto, mas pelo próprio momento. Depois de tudo, Jonás Gutiérrez merecia mais, não ao menos o “muito obrigado” da direção. No entanto, se por um lado o clube lhe virou as costas, o veterano sabe que sempre poderá contar com a adoração de uma torcida fanática e eternamente grata.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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