Inglaterra

ARQUIVO | O jogador que pagou caro por sair do armário

Nesta segunda, a revista Sports Illustrated publicou um depoimento em que Jason Collins, pivô que defendeu o Washington Wizards na última temporada, revela ser gay. Ele se tornou o primeiro atleta de uma grande liga norte-americana a revelar sua homossexualidade ainda na ativa. Algo que ninguém teve coragem de fazer em um grande time de futebol. Bom momento para resgatar um texto no Balípodo (meu site pessoal que anda em hibernação) sobre Justin Fashanu, jogador inglês que sofreu muito em sua carreira pelos tabus sobre sua orientação sexual no futebol dos anos 80.

Há gays no futebol. Isso é um fato, sabido por todos no meio. A ponto de, no final do ano passado, a revista alemã Rund publicar uma reportagem em que afirmava, sem citar nomes, que um em cada 11 jogadores da Bundesliga seria homossexual. Pois, mesmo sendo um tema conhecido por todos, ninguém fala nisso publicamente. Nem os próprios gays. Não sem razão. Se for tomado o exemplo de Justin Fashanu, um dos poucos jogadores que revelaram sua homossexualidade, a perspectiva é bastante negativa para os que tentarem enfrentar o preconceito.

Filho de nigerianos, Justinus Soni Fashanu foi criado por uma família adotiva em Attleborough, Inglaterra. Ainda jovem, começou a mostrar seu talento e, com apenas 17 anos, estreou profissionalmente pelo Norwich City. O início de carreira do atacante foi assombroso, com uma média de gols bastante consistente nas três primeiras temporadas, o que chamou a atenção de todo o país e lhe valeu convocações para a seleção inglesa sub-21.

Fashanu se valorizou rapidamente. Em 1981, com apenas 20 anos, o atacante foi vendido ao Nottingham Forest por £ 1 milhão (foi o primeiro futebolista negro a ser negociado por esse valor) como substituto de Trevor Francis, estrela da seleção inglesa. Era a grande oportunidade para se tornar um jogador de projeção nacional.

Foi justamente nesta época que sua preferência sexual o trouxe problemas. Fashanu ainda estava descobrindo que era gay, passando a freqüentar com assiduidade alguns bares e casas noturnas GLS em Notthingham. A notícia chegou aos ouvidos de Brian Clough, mítico treinador do Forest.

O técnico nunca escondeu seu desconforto com a situação. Aos poucos, foi tirando o espaço do atacante, que, ainda jovem, sentiu o revés e caiu bruscamente de rendimento. O ápice da crise foi quando Clough mandou Fashanu treinar separadamente do resto do elenco. A diretoria do Nottingham Forest decidiu emprestar o jogador para o Southampton.

No meio do futebol inglês, sua fama já se espalhara e poucos lhe davam espaço. Depois de meia temporada nos saints, o atacante foi vendido ao Notts County. No segundo time de Nottingham, Fashanu recuperou um pouco de sua forma, com 20 gols em três temporadas. Em seguida, foi cedido ao Brighton & Hove Albion, mas uma grave contusão quase encerrou sua carreira.

Fashanu foi aos Estados Unidos para se operar e acabou retornando aos gramados na América do Norte. Passou por Los Angeles Heat e Edmonton Brickmen antes de voltar a seu país. No entanto, não tinha espaço na Inglaterra e trocava de clube sem ter as devidas oportunidades de mostrar seu futebol. Entre 1989 e 1991, esteve em Manchester City, West Ham, Ipswich Town, Leyton Orient e Newcastle.

Nessa época, sua vida pessoal já estava em frangalhos. Devido às perseguições sofridas no início da carreira, Fashanu buscou abrigo na religião. No entanto, sua crença o levava a condenar a homossexualidade, o que lhe causava sérias crises existenciais. O jogador tentou várias vezes ter relacionamento com mulheres, mas não resistia e voltava a sair com homens. Tal conflito interno impediu que ele tivesse namorados fixos que pudessem lhe trazer paz de espírito.

Em 1990, depois de um amigo se suicidar após ser expulso de casa por contar aos pais que era gay, Fashanu decidiu que era momento de revelar sua preferência sexual ao público. O atacante deu uma entrevista ao tablóide The Sun na qual dizia claramente que era homossexual. Foi a primeira – e até hoje única – vez em que um atleta da primeira divisão inglesa “saiu do armário” publicamente.

Na reportagem, Fashanu contou que muitos de seus colegas de time conheciam sua preferência sexual e faziam brincadeiras com isso. Sua coragem o transformou em símbolo da causa e lhe rendeu espaço de destaque em diversos veículos. Ele acreditava que, revelando sua homossexualidade, a sociedade veria com menos preconceito para os gays. Ledo engano. Assim que a entrevista foi publicada, vários jogadores afirmaram que não havia lugar para homossexuais em esportes coletivos.

A reação dos colegas de profissão poderia ser esperada por Fashanu. O que o atacante não suportou foi a rejeição de quem lhe era próximo. Seu irmão John, também jogador profissional, afirmou que Justin era um pária. Depois, pediu desculpas e retirou o que disse, mas já era tarde. Outra traição para o atacante foi de parte da comunidade negra, que considerou a atitude do atleta reprovável e que isso sujava a imagem dos negros da Inglaterra.

O único clube que lhe deu um lugar nessa fase foi o Torquay United. Fashanu ficou duas temporadas nos Gulls e iniciou uma grande peregrinação por clubes pequenos e quase sempre anônimos. O atacante defendeu Airdrieonians-ESC, Trelleborg-SUE, Heart of Midlothian-ESC, Adelaide City-AUS, Miramar Rangers-NZE e Atlanta Ruckus-EUA.

Depois de encerrar a carreira, em 1997, Fashanu se tornou treinador do Maryland Mania. Em março do ano seguinte, um garoto de 17 anos disse ter acordado na cama do ex-atacante com sinais de molestamento sexual depois de ter sido embebedado. O ex-jogador prestou depoimento e não foi preso durante as investigações. Pouco depois, Fashanu fugiu para a Inglaterra.

Em maio de 1998, o primeiro jogador de destaque na Inglaterra a se dizer homossexual se enforcou em uma garagem em Shoreditch. Na nota de suicídio, deixou evidente que achava que seria considerado culpado pela acusação do garoto nos Estados Unidos. Ele estava enganado, pois a polícia norte-americana estava arquivando o caso por falta de provas. Final melancólico para um jogador que, se não fosse o preconceito, poderia ter sido um dos mais importantes da Inglaterra na década de 1980.

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Ubiratan Leal

Ubiratan Leal formou-se em jornalismo na PUC-SP. Está na Trivela desde 2005, passando por reportagem e edição em site e revista, pelas colunas de América Latina, Espanha, Brasil e Inglaterra. Atualmente, comenta futebol e beisebol na ESPN e é comandante-em-chefe do site Balipodo.com.br. Cria teorias complexas para tudo (até como ajeitar a feijoada no prato) é mais que lazer, é quase obsessão. Azar dos outros, que precisam aguentar e, agora, dos leitores da Trivela, que terão de lê-las.

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