Inglaterra

A gênese de um craque: 60 anos atrás, Denis Law fez seu primeiro jogo profissional

O Manchester United havia acabado de derrotar o Huddersfield, por 4 a 2, em jogo da Copa da Inglaterra juvenil. Era 1956. Ao final da partida, Matt Busby aproximou-se de Bill Shankly, seu amigo, responsável pelos reservas do Huddersfield, e disse: “Você tem um jovem rapaz muito promissor”. Meia hora depois, ofereceu £ 10 mil por um raquítico escocês de 16 anos que foi encontrado em Aberdeen. O técnico principal do clube de West Yorkshire, Andy Beattie, recusou a proposta, e Busby precisaria esperar mais seis anos para levar Denis Law a Old Trafford.

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Beattie foi demitido pouco depois dessa partida, e Bill Shankly assumiu o time principal. Seria o seu quarto trabalho e o último antes de transformar a história do Liverpool. O Huddersfield havia acabado de ser rebaixado e sofria na segunda divisão. Perdeu quatro jogos consecutivos em dezembro antes de enfrentar o Notts County, na véspera de Natal. Shankly decidiu que era a hora do adolescente Denis Law estrear entre os profissionais, exatamente 60 anos atrás.

Houve toda uma preparação para Denis Law ganhar corpo antes de enfrentar a rigidez dos zagueiros da segunda divisão inglesa. Shankly preparou uma dieta de leite e carne para ele e combinou com uma mulher, que administrava um café na rua em frente ao estádio, para alimentá-lo. Ele passou a tomar um chá de ervas chinês. Deu tão certo que o técnico passou a obrigar todos os seus jogadores a consumir essa bebida.

Mas não eram todos os jogadores que tinham o talento de Denis Law. Ele jogou bem na vitória por 2 a 1 sobre o Notts County e, dois dias depois, continuou entre os titulares em um segundo triunfo seguido sobre o County, desta vez por 3 a 0. No fim da temporada, apesar do assédio de clubes maiores, foi convencido a assinar contrato profissional com o Huddersfield. A missão de Shankly passou a ser evitar que a diretoria aceitasse propostas pelo jovem jogador. E ele foi bem sucedido. Mas, quatro meses depois de o treinador assumir o Liverpool, Law foi vendido ao Manchester City por £ 55 mil, um valor altíssimo para a época. Shankly tentou levá-lo a Anfield, mas não conseguiu convencer os diretores do Liverpool a gastarem tanto dinheiro.

Law passou a temporada 1960/61 em Manchester, onde passaria tantas outras na sua vida, mas, por enquanto, ainda defendia o lado azul. O Manchester City, no entanto, estava longe de ser uma potência. Havia escapado por pouco do rebaixamento no Campeonato Inglês anterior e, mesmo com os gols de Law, não conseguiu passar da 13ª posição. Ambicioso, o escocês queria jogar em um time melhor e foi vendido para o Torino por £ 100 mil. Uma temporada média– sétimo lugar na liga – e problemas de adaptação depois, voltou à Inglaterra. Voltou a Manchester.

Em 18 de agosto de 1962, Matt Busby, que também havia promovido a estreia de Denis Law pela seleção escocesa, finalmente conseguiu fazer com que Denis Law disputasse uma partida pelo Manchester United. E ele já estreou marcando, em Old Trafford, contra o West Brom. Nos treze anos seguintes, Law anotaria 237 gols com a camisa dos Diabos Vermelhos em 404 jogos. Conquistaria os títulos ingleses de 1964/65 e de 1966/67 e a Copa da Inglaterra de 1962/63. Foi eleito o melhor jogador da Europa pela Bola de Ouro da revista France Football em 1964.

O auge daquele time, no entanto, foi a Copa dos Campeões de 1967/68, mas, machucado, Law não esteve em Wembley na vitória do Manchester United sobre o Benfica por 4 a 1. Estava de cama, recuperando-se de uma cirurgia. Quando abriu os olhos no dia seguinte, a primeira pessoa que viu foi Matt Busby. A primeira coisa que viu foi a taça da Copa dos Campeões. Os dois, lado a lado, no seu leito de hospital.  Na temporada seguinte, tudo começou a mudar no Manchester United. Busby deixou o cargo de treinador e se tornou diretor do clube. George Best e Bobby Charlton, os outros dois pilares técnicos do time, entraram no ocaso de suas carreiras.

Sofrendo com muitas lesões, Law também não era mais o mesmo e, em 1973, trocou mais uma vez de lado em Manchester e disputou sua última temporada de futebol profissional. E marcou seu último gol como jogador de futebol profissional. Em Old Trafford. Contra o Manchester United. Contra o rebaixado Manchester United. Foi em abril de 1973 quando Law retornou ao Teatro dos Sonhos para enfrentar seu ex-clube pela primeira vez desde a sua saída.

A situação do United pós-Busby era caótica, e o time estava prestes a ser rebaixado. A partida rolou durante 82 minutos sem ninguém mexer no marcador, até Francis Lee encontrar Denis Law, dentro da área, de costas para o gol. No instinto, na genialidade, no puro talento, Law finalizou de calcanhar entre as pernas do goleiro Alex Stepney e fez o gol da vitória do Manchester City. Não comemorou. Não se mexeu. Manteve os braços colados ao corpo, sem nenhuma emoção, enquanto era festejado pelos companheiros.

Este gol de Law é considerado por muitos como o gol que rebaixou o Manchester United pela primeira vez em 37 anos, mas a vitória do Birmingham sobre o Norwich significou que o clube não se salvaria nem mesmo se vencesse o dérbi de Manchester e a última rodada, contra o Stoke City, fora de casa. Ainda assim, simbolicamente, foi um golpe muito duro para Law, que foi substituído logo depois de seu gol e nunca mais disputou uma partida por um clube de futebol profissional. Posteriormente, diria: “Eu poucas vezes me senti tão deprimido na minha vida como naquele fim de semana. Depois de 19 anos dando tudo o que eu tinha para para fazer gols, eu finalmente marquei um que eu quase gostaria de não ter marcado”.

A carreira profissional de Law chegou ao fim alguns meses depois, na Copa do Mundo de 1974, com a seleção escocesa. A torcida do Manchester United entendeu a situação e não guarda rancor do jogador, um dos grandes ídolos da história do clube. Além dos gols, dos títulos e da dedicação, Denis Law está eternizado em uma estátua, colocada em Old Trafford, ao lado de Best e de Charlton.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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