Por Estela Suganuma, de Cardiff, Gales

Toda final de Champions League inflaciona os preços no local que recebe a grande decisão. A quantidade de turistas que viajam para presenciar o jogo é na casa dos cinco dígitos e, por isso, algumas cidades chegam a ter quase todos os hotéis ocupados, fazendo com que os preço disparem. Em Cardiff, cidade com 357 mil habitantes, a inflação superou mais que o normal. O Principality Stadium (nome patrocinado do Millenium Stadium) recebeu 66 mil expectadores para a final. Além disso, há de se considerar também que viajaram para a capital galesa torcedores dos dois times que não tinham ingresso e tentaram comprar de última hora. A quantidade de turistas era superior a oferta de hotéis e albergues. E, claro, nem todos conseguiram (ou não aceitaram, por conta do alto preço pedido pelos hotéis) se hospedar em Cardiff.

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No começo de maio, antes do segundo jogo da semifinal, a Uefa chegou a mandar um email para os jornalistas alertando a pouca disponibilidade de hotéis em Cardiff. Com isso, o comitê local pré-reservou algumas acomodações entre os dias 2 e 3 de junho em dois hotéis em Swansea (68 km de Cardiff) e dois em Bristol (70 km da capital galesa) para a imprensa que cobriria a final. Cada um dos hotéis em Swansea custaria £ 180 a diária (aproximadamente R$ 750) e em Bristol, £ 230 a diária (aproximadamente R$ 960). Ou seja, a hospedagem entre a véspera e a final custaria R$ 1500 em Swansea e aproximadamente R$ 2000 mil em Bristol.

Para se ter a ideia da inflação, se fosse feita uma reserva de uma diária (por exemplo, check-in no dia 6 de junho e check-out no 7 junho) em um desses hotéis de Swansea, era possível encontrar quartos a partir de £ 89, metade do preço que estava na véspera e no dia da final. Se nas cidades próximas a Cardiff os poucos hotéis disponíveis eram os de luxo, na capital galesa o custo era ainda maior. Outra opção encontrada para driblar a inflação de Cardiff foi alugar acomodações em Londres, a 242 km de capital de Gales. De trem, da estação Central de Londres (Paddington Station) para Cardiff são duas horas.

“Marcelo é um dos melhores do mundo”

Dentre os torcedores que foram para a final de Londres para Cardiff de trem, um americano de 13 anos que mora em Miami. Jorge Borges (foto) desembarcou em Londres no sábado, no dia do jogo, e foi de trem para Gales. Vestido com a camisa do Real Madrid de Sergio Ramos, estava confiante que o capitão do time espanhol marcaria também contra a Juventus. Apostou no placar de 2 a 1 e que Isco também faria um gol. Perguntado quem era o seu ídolo, respondeu: “Sempre gostei do Marcelo. Acho ele um dos melhores jogadores do mundo”. Jorge Borges é da geração recente de jovens que se interessam por futebol europeu, assistem os jogos pela TV e torcem para times do exterior. “Cresci vendo o Real Madrid pela televisão”, disse o americano.

Jorge Borges estava acompanhado do pai Jorge, de dois primos e de um amigo do pai. Para ir para a final, Jorge Borges pai desembolsou mil dólares (aproximadamente R$ 3,2 mil) em cada um dos cinco ingressos, ou seja, 5 mil dólares no total. O preço de mil dólares não era o valor mais caro cobrado pelo ingresso da final da Champions. Próximo ao Principality Stadium, a duas horas do jogo, um cambista disfarçado de torcedor estava com uma placa escrita ‘I need ticket’ e pedia € 3 mil (R$ 10,9 mil) pelo bilhete.

Estar presente em uma final de Champions envolve com o sonho e o imaginário de muitos fãs. Não foram apenas os 90 minutos de jogo, os 4 a 1 no placar e o 12º título dos merengues na competição. Quem esteve no Principality Stadium presenciou também a empolgação da torcida do Real Madrid, que não parou de cantar e fazer barulho durante o jogo inteiro.

Se nas duas  finais de Champions contra o Atlético de Madrid, em 2014 e 2016, quem dominou o grito nas arquibancadas foram os Rojiblancos, desta vez só se ouvia os torcedores do Real Madrid. Os italianos estavam quietos durante o jogo. Mas, durante a entrega das medalhas, aplaudiram o time da Juventus e também os campeões da Europa, mostrando assim o respeito ao adversário.

“Este time vai ficar marcado para sempre”

Quem estava dentro do estádio sentiu o drama e alegria de cada um dos envolvidos. Com a derrota de 4 a 1, Buffon era o mais abatido do elenco. O goleiro que sonhava ganhar o seu primeiro título de Champions League não parava de chorar dentro de campo. Na zona mista, foi uma dos poucos da Juventus que parou para falar com a imprensa. E, assim que terminou a entrevista, o goleiro italiano chegou a fungar o nariz de choro.

“Foi uma decepção. Achávamos que podíamos ganhar. Fizemos um grande primeiro tempo. Mas para ganhar uma final é necessário ser forte nas adversidades. No segundo tempo, a classe e a experiência em ganhar esse tipo de jogo mostraram que eles mereceram ser campeões”, declarou Buffon.

Alex Sandro também reconheceu a superioridade do adversário. “O primeiro tempo foi bem equilibrado. Depois, tivemos uma expulsão. Jogar com um a menos contra o Real Madrid é bem mais difícil. Foi o que mudou o jogo. Eles começaram a ter mais espaço”, afirmou o lateral brasileiro.

Ao ser perguntado sobre o envolvimento no gol de Casemiro, já que Alex Sandro afastou de dentro da grande área e a bola foi em direção ao volante brasileiro dos Blancos, que chutou e marcou um golaço, o lateral-esquerdo reconheceu que a partir daí, com o placar de 2 a 1 para o Real Madrid, a dinâmica da partida mudou. “Ele teve a felicidade no chute dele para o gol. Houve o desvio. Depois disso, precisávamos atacar e acabamos dando mais espaços para Real Madrid e eles aproveitaram”, falou Alex Sandro.

Se na Juventus, o elenco estava abatido, do lado do Real Madrid, todos estavam feliz, mas um em especial: Gareth Bale. Era o mais sorridente de todos. Nem os títulos de 2014 e 2016 deixaram o jogador tão radiante. Afinal, jogar uma final em sua cidade natal e ainda ganhar é um privilégio para poucos jogadores.

Os jogadores do Real Madrid agora ambicionam ganhar a Champions novamente. “Este time vai ficar marcado para sempre. Temos uma equipe incrível. Só temos que continar assim, melhorando. Acho que podemos continuar ganhando mais (Champions)”, disse Luka Modric.

“É uma equipe que vai entrar para a história. Ganhamos duas vezes seguidas. Já tínhamos ganhado o Campeonato Espanhol e muita gente duvidava que venceríamos duas Champions seguidas. Mas tínhamos muita confiança porque fizemos uma pré-temporada muito forte”, afirmou Marcelo.

Silêncio no trem

A zona mista terminou depois da 1h da manhã. Era o momento de se despedir do Principality Stadium. No caminho para a estação de trem, havia torcedores do Real Madrid na rua. Uns tomando cerveja, outros indo para a estação. Todos em silêncio.

No trem com destino a Londres, também não havia grito dos Blancos. Nem parecia que tinham acabado de ver o seu time ganhado a Champions. Para quem presenciou os fãs do time merengue gritando no estádio o jogo inteiro, esperava-se que o barulho continuaria até a madrugada. Estranhando o silêncio no trem, um brasileiro até questionou por que os campeões não estavam cantando. “Saí muito cedo hoje”, justificou um torcedor do Real Madrid.

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